07 Jan

Companheiro Espiga de Milho defende jornalistas oprimidos

Quando estudamos o desenvolvimento das relações de trabalho no mundo, sua evolução partindo do trabalho escravo ao moderno assalariado e chegando até o profissional liberal, constatamos que leis, regras, códigos de ética e a criação de sindicatos foram passos dados em meio de disputas políticas que propiciaram acordos entre empregadores, empregados e, de certa forma, entre consumidores. Evidentemente, não havia na história da humanidade um modelo pronto de como tudo isso deveria ser feito. Nesse sentido, é bonito ver como relações sociais se desenvolvem a partir de experiências concretas.

Milhão do Patrão e Quitéria Estupefalda
Por isso é especialmente triste perceber que essa, digamos assim, estrutura processual, tenha sido desvirtuada pela ação proselitista de partidos políticos e correntes ideológicas, especialmente nos sindicatos de trabalhadores. Pior ainda é ver uma categoria profissional ser representada por militantes partidários que, não bastando o vexame de atuarem como militantes partidários, agem como adolescentes, valendo-se de artistas mambembes, fantasias e bonecos como instrumentos de “denúncia” e “protesto”. Escrevo isso após ler o jornalzinho do Sindicato dos Jornalistas do Ceará - Sindjorce. O texto exageradamente panfletário e as imagens de Maumau (o Papai Noel dos Patrões), da Quitéria Estupefalda (que é um daqueles humoristas que gostam de caricaturar as mulheres) e de um sujeito vestido como uma espiga de milho - O Milhão do Patrão, são constrangedoras.

Na hora do expediente
Um dos textos do jornalzinho pode ser conferido aqui. O Sindjorce acusa a direção do jornal Diário do Nordeste de intimidar jornalistas por causa da campanha salarial deflagrada pela entidade. É que os sindicalistas exigiam ter livre acesso às dependências do jornal para convocar uma reunião. Por algum motivo que me escapa, o Sindjorce não consegue reunir seus representados fora do horário do expediente em sua própria sede. Eles reclamam ainda de não terem obtido permissão para distribuir o jornalzinho sem antes ter que mostrá-lo aos responsáveis pelo estabelecimento. Por algum motivo que também me escapa, eles acreditam que podem fazer o que quiserem no que é dos outros.

Quando eu cursava história na UFC, um grupo do DCE interrompeu uma aula - cujo salário do professor é pago com dinheiro público -, para convocar uma reunião no horário de outra aula. Perguntei por que eles não faziam a reunião depois, sem prejudicar o andamento das aulas. Para não confessarem que ninguém iria a uma reunião por outro motivo que não fosse o de faltar aulas, fato que evidenciaria a ausência de representatividade deles, os bravos membros do movimento estudantil me chamaram de neoliberal.

É lamentável ver sindicalistas agindo como estudantes desocupados. Não entro aqui no mérito sobre a questão salarial. Aliás, na própria publicação do sindicato isso fica em segundo plano, mediante a apoteose de injustiças que os sindicalistas alegam ter enfrentado para paralisar o trabalho no DN.

Oportunidade de negociação
No site do Sindjorce, li que o Sindicato das Empresas Proprietárias de Jornais e Revistas do Ceará apresentou “ofício dando conta da retomada das negociações da campanha salarial dos profissionais de impresso, interrompidas pelos patrões no dia 12 de dezembro. O ofício, datado de 30 de dezembro de 2008, informa que o sindicato patronal solicitou a Superintendência Regional do Trabalho e Emprego uma nova mediação com o objetivo de sanar o impasse entre empregadores e empregados.”

Bom, é uma oportunidade de sentar à mesa e tentar um consenso de forma séria, sem piadinhas e gaiatices. O sindicato patronal pediu uma audiência devidamente mediada por uma autoridade constituída. Acredito que isso deva ser uma sinalização de boa vontade. Afinal, com testemunhas qualificadas, os fatos haverão de valer mais do que dos discursos.

Comunista de fé
Por último, para não dizer que o proselitismo esteve ausente do ato promovido pelo sindicato, vale ressaltar que Chico Lopes, o deputado comunista que era contra o Porto do Pecém e que depois quis batizá-lo de Padre Cícero, só ele e mais ninguém, esteve presente durante a manifestação, com direito a usar a estrutura do Sindjorce para discursar sem encaminhar solução alguma e para aparecer bem nas fotos.

06 Jan

O nepotismo não pode ser relativizado

Nota da coluna Vertical, no O Povo:

POIS É
Em Icó, o prefeito Marcos Nunes (PMDB) nomeou irmãos e outros parentes para sua equipe de secretários. A alegativa é de que se o governador Cid Gomes (PSB) pode manter seu irmão, Ivo Gomes, como chefe de gabinete, eles ali também podem.

Comentário
As situações não são exatamente iguais, já que o caso do prefeito de Icó envolve vários parentes. Mas a questão principal não diz respeito a quantidade de irregularidades cometidas, mas sim à sua natureza. O maior número de contratações imorais pode configurar agravante de algo cuja essência é perniciosa para a coletividade. O problema mesmo é o conflito de interesses entre as esferas pública e o privada. 

No dia 30 de janeiro de 2006 escrevi o seguinte:
Cid gomes nomeou um parente para trabalhar diretamente com ele. O governador afirma que seu irmão não recebe salário pago pelo governo e lembra que Ivo Gomes é um profissional qualificado, além de deputado estadual. Poderia ainda argumentar que a chefia de gabinete pede um nome de total confiança e sintonia com o governador. O problema é que para exigir a proibição do nepotismo na máquina pública é preciso ter uma autoridade lastreada pelos fatos, ou seja, é imperioso não nomear parentes, sob hipótese alguma.

Pois é. Trata-se de uma questão de princípios, pudor e prevenção, para delinear a separação entre o que seja interesse público e privado. Cid preferiu ceder ao argumento de que seu irmão teria competência comprovada para a nomeação - o mesmo usado por todos os nepotistas pegos em flgrante. O pior é que o pretexto alegado pelo prefeito é pertinente: “Se o governador pode, por que eu não posso?”

O fato é que a prática do nepotismo é proibida e deve ser combatida. Naturalmente, o exemplo deve vir de cima, para que aproveitadores baratos não se sintam estimulados a usar dinheiro do contribuinte para arranjar a vida de seus parentes, comprometendo a eficiência da gestão pública. Pelo visto, não adianta apelar ao bom senso dos gestores.

Com a palavra, o Ministério Público.

06 Jan

De volta

O condomínio Blogueisso esteve com problemas técnicos no começo do ano. Será pessimismo ou urucubaca, como diria Lula?. Não foi nada disso. Tivemos dificuldades com o servidor e só. Sabem como é, esse negócio de responsabilizar terceiros por tudo de ruim e de assumir a paternidade de tudo o que dá certo é coisa de populista messiânico.

De qualquer forma, peço desculpas aos leitores. Seguem abaixo dois textos novos. Sobre a presepada envolvmento a eleição de Salmito Filho na Câmara Municipal de Fortaleza, farei os devidos comentários no meu artigo semanal no O Estado, quinta-feira. Mas já adianto o seguinte: não houve traíção no PT (único beneficiário do episódio), o legislativo municipal não está mais independente, e as barganhas da base aliada ficaram mais caras.

Grande abraço,

Wanfil

05 Jan

Eterno Réveillon (artigo Jangadeiro Online)

Na virada do ano costumamos trocar votos de felicidade, saúde, prosperidade e alegria. Tudo é festa. Alguns poucos chegam a fazer um balanço sincero sobre as próprias ações, livres de subterfúgios e dispostos a reavaliar a própria conduta. A maioria mesmo se contenta com o desejo de que o novo calendário represente um recomeço mágico, sem a inconveniente necessidade de prestar contas com o passado.

Por isso são comuns as famosas previsões feitas por astrólogos, místicos, esotéricos e palpiteiros em geral, que receitam simpatias, rezas, oferendas, mandingas e outros rituais que tragam sorte no ano que se inicia. Para conquistar a felicidade, basta apelar às cartas, aos cristais e bijuterias, às pirâmides e pedras comuns, aos búzios e outros artefatos capazes de antecipar acontecimentos vindouros. Na base dessas crendices está a idéia de que nossas vidas são regidas por forças alheias à vontade individual e que mudanças de rumos podem ser feitas sem maiores esforços.

Existem ainda outras formas mais sofisticadas de fugir das responsabilidades advindas dos nossos atos pessoais. Amuletos rústicos podem ser substituídos por concepções políticas e sociológicas. O populismo messiânico e as ideologias revolucionárias são dois bons exemplos. No primeiro caso, sociedades inteiras vivem a esperar por um líder que possa redimi-la de sua pobreza material e espiritual, fenômeno comum no Brasil, de Vargas a Lula. Já a ideologia revolucionária é opção preferida de muitos acadêmicos e intelectuais, de direita e de esquerda. As expiações privadas serão compensadas pela redenção das massas, a partir de um receituário pronto e acabado.

O filósofo francês Alain Finkielkraut descreve no livro Nous autres modernes (2005) como o século 20 fez do espírito revolucionário uma espécie de tradição, por mais que isso pareça contraditório, transformando-o em insaciável desejo de mudança e numa forma de cegueira. A mente revolucionária de hoje acredita que o novo e o porvir são sempre bons e que o passado é lixo. Resta-nos aguardar esse novo homem do amanhã, diferente e melhor somente por viver ali no futuro, no ano que vai nascer.

O romantismo revolucionário, capaz de fazer um assassino como Che Guevara ícone do humanismo, aliado ao vício do populismo, fizeram o Brasil parar num eterno réveillon. Vivemos assim a esperar que tudo se resolva, magicamente, no ano que vem, transferindo a responsabilidade da mudança a pais de santo, a políticos matreiros ou a velhas receitas ideológicas.

05 Jan

Babaca reacionária me convida para o clube dos babacas reacionários

Aí uma rebelde sem causa que assina suas asneiras como Jamile, escreve um comentário sobre o texto Candidato filosófico, escrito ainda na campanha eleitoral do ano passado, uma ironia a respeito das propostas do candidato Renato Roseno (PSOL), que prometia, uma vez eleito e na melhor tradição burocrática, criar um grupo de discussões para debater a cidade.

Segue o que escrevi:

De qualquer forma, tenho uma sugestão para o candidato. Caso o bom moço do PSOL seja eleito, proponho que, seguindo o clássico manual de organização socialista, ele crie o Comissariado de Reflexões Citadinas (CRC), que organizará reuniões todas as segundas, quartas e sextas, com a presença de líderes comunitários, professores universitários, políticos, representantes do movimento gay e de moradores de rua, presidentes de ONGs e sindicalistas, para todos juntos pensarem a cidade, sentados na grama em posição de lótus, a entoar mantras que atraiam energias positivas para transformar a cidade.

E Jamile, que na verdade representa uma legião do atual ”pensamento” esquerdista brasileiro:

Que tal criarmos o MBR (movimento dos babacas reacionários), onde discutiremos a maneira mais vil de ferrar a população seguindo os nossos interesses?

Tréplica
Jamile, suponho que sua intenção tenha sido me chamar de babaca reacionário, na condição de progressista bacana. Acontece que, na ânsia de me xingar, você se trai involuntariamente, quando utiliza a primeira pessoal do plural no seu texto. Ou seja, para projetar na minha pessoa adjetivos de desqualificação, você antes qualifica a si mesmo. Por isso, Jamile, você define a si mesmo como babaca reacionária quando utiliza o pronome pessoal “nós”. E de quebra, se achando genial e arguta, você ainda revela o motivo da vilania esquerdista, geralmente escamoteado por expressões como igualdade e progressismo: ferrar o povo.

Para piorar, você faz isso na forma de convite. Sendo assim, minha resposta é não. Mil vezes não. Fique só com seus companheiros no MBR, criação sua. Prefiro a institucionalidade das democracias liberais burguesas, afinal, motivo pelo qual critiquei a proposta de Roseno, se é que você me entende. Hum. Pela amostra, sei que você nunca entenderá.

27 Dez

Recesso

Meus amigos,

Vou aproveitar o breve recesso de final de ano para tocar alguns projetos. Volto dia 02 de janeiro. Obrigado a vocês por tudo, as dicas, sugestões, análises e o apoio. Os adversários de idéias leais certamente também contribuíram neste ano, e até os cururus que pulam na varanda do blog tiveram alguma serventia, ao se mostrarem como sintoma da indigência cultural, além de testarem a nossa paciência.

O ano foi muito bom. Graças ao destaque do blog consegui até ofertas de trabalho, algumas das quais não pude, infelizmente, aceitar por falta de tempo. O ano que vem promete mais, especialmente por causxa dos projetos que falei, mas que ainda devem ser maturados em silêncio. 

Um grande abraço para todos e feliz 2009.

25 Dez

Natal, razão e fé

É comum a gente ouvir pessoas preocupadas em preservar o verdadeiro sentido do Natal lamentarem que o consumismo tenha transformado essa data em simples feriado sem conteúdo, substituindo seu o fundo religioso e filosófico por festejos desprovidos de qualquer significação mais profunda.

Realmente o Natal teve o seu sentido original corrompido, mas não foi pelo capitalismo, como gostam de alardear alguns ateus, gnósticos e até cristãos desinformados. Na verdade, foi a herança do materialismo iluminista do século 18, que no desejo de se libertar do fanatismo teológico da Idade Média, valorizou a descrença nas coisas espirituais para celebrar a suposta preponderância da razão. Desde então, a fé ficou confinada na esfera da religiosidade mística, enquanto o racionalismo científico ganhou status de verdade inabalável, não obstante sua falibilidade.

O capitalismo não é uma doutrina pronta, feita de pressupostos elaborados por iniciados; pelo contrário, é um modo de produção construído a partir de pequenas experiências diárias compartilhadas por milhões de indivíduos que trabalham, trocam produtos e fazem contratos entre si. É preciso muito mais do que camelôs e propagandas de supermercado para fazer do Natal uma comemoração sem sentido metafísico, para isso é necessário um esforço intelectual maciço e persistente, como o Iluminismo.

Com o seu advento, a compaixão, o perdão, o sacrifício, o espírito, a caridade, a devoção, tudo isso foi gradativamente substituído por fragmentos de teorias psicológicas, sociológicas, antropológicas, jurídicas, genéticas e biológicas que dispensam, sem cerimônia, a idéia de Deus como força de ordenação universal. Com o tempo, a vida de Jesus Cristo, que é o motivo do Natal, perdeu parte do valor simbólico e foi rebaixada a um fato histórico de comprovação duvidosa. Muitos a tomam como criação ideológica para justificar a dominação dos oprimidos. Essa é a racionalidade materialista que fez do Natal apenas uma data no calendário.

Vale dizer que a dissociação entre fé e razão teve por objetivo diminuir as questões espirituais, como se a vida humana fosse apenas sua dimensão material, passível de comprovação laboratorial. No entanto, a fé não nasce de si mesma, como aposta invisível alheia ao mundo real. Separada dos fatos, a fé não poderia se sustentar, posto que inútil aos seres. A fé no Cristo, por exemplo, tem origem nas ações e palavras de um Jesus de carne e osso, tão poderosas e atuais que venceram o teste do tempo. Existe algo mais racional do que acreditar em alguém que viveu na prática aquilo o que pregou?

Os verdadeiros cristãos celebram a memória de Jesus Cristo como exemplo de conduta e amor, fazendo de sua passagem pela Terra o maior dos presentes, eterno ideal de convivência. Portanto, comemoremos com festa e lembranças, claro, mas não nos esqueçamos da mensagem espiritual do Natal. Para preservar esse sentido não é preciso repetir chavões contra o capitalismo, é preciso apenas valorizar a religião como algo intimamente ligado à razão, um saber indispensável para a humanidade.

23 Dez

Otimismo e amnésia

O presidente Lula fez um pronunciamento à nação em horário nobre, para desejar feliz Natal e próspero ano novo a todos, e, naturalmente, falar sobre crise. Duas passagens bastam para ilustrar o conteúdo do programa.

A fala do presidente foi marcada pelo otimismo. Lula disse que o Brasil não sentirá os efeitos da crise econômica mundial. “Quero dizer, com toda a serenidade, que a crise não nos assusta. O país está preparado e tem comando. Seguiremos acompanhando com lupa a situação da economia, 24 horas por dia. O que tiver que ser feito, será feito. No tempo certo e na dose adequada.” Vale lembrar que Lula chegou a se gabar, quando os primeiros sinais de colapso financeiro apareceram, de que não era necessário lançar pacotes, que isso era coisa do passado. Como o governo já gastou bilhões em pacotes de ajuda ao setor privado, a conversa sumiu. O presidente precisa ser otimista, até para não complicar a situação. O problema é pensar que somente o pensamento positivo basta para resolver problemas.

Por falar nisso, Lula exemplificou como esse exercício mental é capaz de mudar o passado recente. Primeiro ele disse que assumiu o governo com um inflação de 9%, reduzindo-a depois para 4%, deixando no ar a impressão de que antes não havia controle, e que seu governo é o responsável pela estabilização dos preços, uma conquista do Plano Real, iniciado no governo Itamar Franco e consolidado no de FHC. Lula não diz, claro, que a inflação só aumentou no final de 2002 por causa da expectativa de sua estréia na presidência. Muita gente acreditava que o petista iria cumprir algumas promessas antigas, como romper com o FMI e decretar moratória aos credores. Depois que o mercado viu que ele era mais neoliberal que FHC, tudo voltou ao normal.

Em seguida, Lula disse que 2009 será o ano do pré-sal, que fará do Brasil um dos maiores produtores de petróleo do mundo. Esqueceu de avisar, ora bolas, que a OPEP decidiu cortar em 8% a produção de petróleo por causa das quedas no preço do barril. Quer dizer, vamos investir numa forma de extração caríssima para vender um produto que está sobrando… 

Otimismo bom, pelo que podemos ver nesse governo, precisa de uma boa dose de amnésia.

22 Dez

O medo da humilhação

“Tudo que eu mais peço a Deus é que me dê luz para compreender o momento certo de sair sem passar pela humilhação de ser derrotado numa eleição”.

A declaração é do governador Cid Gomes, em entrevista transmitida ontem à noite no programa Cena Pública, da TV Ceará. Em seguida ele tentou consertar, afirmando que essa possibilidade é perfeitamente natural. O que pode parecer uma expressão de vaidade pode indicar algo mais sério. 

Primeiro há um aspecto psicológico incontornável nas palavras de Cid. O medo da humilhação pode indicar problemas de auto-estima e certo desprezo por processos de avaliação de desempenho. Lembra o personagem Julian Sorel, imortalizado na obra de Stendhal O vermelho e o negro. O desejo de conquistar aquilo que ele intimamente odeia. O medo da rejeição é comum nos adolescentes, que para não ser afastado do seu grupo de iguais, aceita se submeter a provas e testes de fidelidade. Vai ver é por isso que Cid nunca cobra Lula publicamente pelas promessas que o presidente anuncia todos os anos para o Ceará. O medo da humilhação é um traço subalterno. 

Segundo, existe a questão política, que pode ser contaminada por essa perspectiva. Claro que ninguém deseja perder, mas fazer dessa possibilidade o centro das preocupações de um governante pode mesmo atrapalhar. A aspiração de agradar sempre pode desembocar em populismo - lembram da tarifa social para os ônibus? - ou em receio de inovar, de enfrentar problemas, de romper com práticas e por aí vai. Ver humilhação na derrota pode sugerir arrogância. Nas derrotas, aprendemos. O que importa é agir guiado por convicções e não por temores. 

Talvez alguns pensem que estou exagerando. Pode ser. Somos humanos, inclusive, claro, o governador. Seu caso é peculiar pela posição que ele ocupa, mas essa é uma característica que vez por outra nos assombra, indiscriminadamente. Começa na infância, quando o desejo de agradar os pais e de corresponder às suas expectativas é demasiado forte na formação dos indivíduos. Amadurecer é, em grande parte, romper copm isso, é saber que temos o direito de errar, de tentar e de perder, para, em cima dessas experiências, crescer.

Não ter medo do fracasso, de ser confrontado e mesmo de ir contra a maioria, não é sinal de fraqueza, pode ser, se bem encaminhado, sinal de independência intelectual e firmeza moral. E as vitórias, não raro, podem nos custar muito mais do que as derrotas.

20 Dez

Processo para enfrentar denúncias quando um petista é pego com a mão na massa

No blog do Roger Prado - Cafeínado - li o seguinte texto:

Quando um petista propõe um debate ou ele quer esconder sua opinião ou quer esconder um crime. Mensalão? Precisamos debater o financiamente de campanha. Aparelhamento da PF? Precisamos debater as relações entre os poderes. Abuso do cartão corporativo? Precisamos debater a necessidade de transparência nos gastos. Essa “necessidade de debate” nem sempre fica na abstração. Não raro engendra um clima que favorece a organização de painéis, fóruns, simpósios, tudo em nome do… debate. Debates dessa natureza não passam de fachadas e custam dinheiro público. Nada resolvem, pois tudo é envolvido pelo torvelinho da retórica vazia que mergulha na espiral das frases feitas, até que todo mundo se canse e “deixe para lá”.
Comentei com Roger que esse fetiche do debate é a versão popular de um recurso técnico celebrado na Academia: a dialética. Sempre que os fatos desmentem as teorias do pensamento esquerdista, seus representantes recorrem à dialética. Dizem: “Viram? Se não deu certo, é porque os fatos estão errados”.
Pois bem. No final dessa troca de idéias, Roger estruturou um esquema definitivo demonstrando como essa “esperteza” aparentemente casual que desemboca em debates sem fim, na verdade é parte de um método que todo esquerdista, se não tem consciência integral de como ele funciona, pelo menos já o absorveu como uma verdade intuitiva. O nome da representação: Processo para enfrentar denúncias quando um petista é pego com a mão na massa. (Clique na imagem para ampliá-la).
18 Dez

Antolhos ideológicos no ensino de história (O Estado)

Os fatos históricos possuem origens e personagens aparentemente isoladas, mas a sua compreensão integral somente pode ser obtida dentro de uma estrutura de ordenação que permita o estabelecimento de conexões entre eles. A identificação dessas estruturas determinantes requer, a princípio, boa dose de subjetividade capaz de produzir hipóteses que, com a técnica investigativa, podem ser comprovadas ou não. Ou seja, os fatos coexistem com diferentes interpretações, conforme a adoção de teorias distintas.

Dessa forma, o aluno deveria ser informado como esses juízos foram formulados e quais seus pressupostos, para depois escolher livremente aquelas que mais lhe agradassem. Infelizmente isso não acontece. Em nome de uma didática, a ciência histórica no Brasil foi substituída por uma narrativa entediante e previsível. Qualquer aluno do ensino médio é capaz de citar teorias bem específicas como se fossem “a verdade”, ignorando debates acalorados sobre temas aparentemente consagrados.

Conduzidos por professores despreparados ou politicamente engajados, os estudantes acabam incapazes até de questionaram intimamente se, por exemplo, não haverá no mundo alguém que discorde da idéia de que as classes sociais estão destinadas a destruírem uma a outra. Autores como Toynbee, Hayek, Gasset e Schumpeter estão aí, mas na prática nossos jovens estão privados de conhecê-los. No máximo, quando são apresentados a um Adam Smith, é sempre pelo viés do marxismo mais chulo.

O ensino de história no Brasil, com raras exceções, é um instrumento de homogeneização do pensamento crítico. É, em suma, adestramento ideológico, um processo que começa no livro didático e culmina na ação do educador, que muitas vezes imagina estar imbuído de uma missão “transformadora” e “revolucionária”.

Uma matéria veiculada no jornal Folha de São Paulo no dia 13 de dezembro mostra que livros de história aprovados por uma banca de professores universitários do Programa Nacional do Livro Didático do MEC contêm erros grosseiros, como um que afirma que o AI-5 estabeleceu a pena de morte no país. A reportagem ouviu a coordenadora do Laboratório de Pesquisa em Educação Histórica da Universidade Federal do Paraná, Maria Auxiliadora Schimidt, para quem esses autores só usam uma versão do fato como verdadeira, em vez de procurar uma abordagem pluralista. Bingo! Só restou dizer que eles fazem isso a serviço da ideologia esquerdista mais atrasada.

Fica a dica para os poucos pedagogos e historiadores que não foram cooptados pelo pensamento único: Que tal investigar a qualidade dos livros didáticos adotados nas escolas públicas do Ceará?

17 Dez

Entrevista sobre Che Guevara

Amigos,

Entre as atividades profissionais e os trabalhos da faculdade, arrumei um tempinho para dar uma entrevista ao programa Viva Fortaleza, da TV O Povo. O tema foi a figura de Che Guevara, que em breve estará nos cinemas na pele do bobalhão Benício Del Toro, um declarado fã do facínora comunista. Pelo que conversei com a produção, não é muito fácil achar alguém que não considere Che, coordenador do primeiro campo de trabalhos forçados da América Latina, um campeão da liberdade. Mas isso não me admira, afinal, os fracassos e crimes do guerrilheiro são cuidadosamente evitados por aí…

Na conversa, falei basicamente das diferenças entre o Che mítico criado pela propaganda comunista e depois absorvido como ícone comercial da insossa rebeldia juvenil, e o Che real, que viveu sob o signo do totalitarismo, da violência e da intolerância. A data de exibição ainda será definida, mas aviso aqui no blog com antecedência.

Apesar das dificuldades, considerei que o dever moral de esclarecer algumas passagens sobre o ideal comunista e suas terríveis conseqüências deveria se impor. Minha esperança, quando escrevo ou quando concedo entrevista, é tentar resgatar uma alma que seja do vale de sombras e mentiras forjado pela hegemonia cultural esquerdista. Só isso me basta.

Valeu.

16 Dez

Descriminalização como justiça social

O esforço sistemático em estabelecer uma inversão de valores capaz de fazer o certo parecer errado e o errado certo de acordo com as conveniências da hora, com o tempo, acaba por cortar as relações de lógica na análise dos fatos que passam a viver isolados, assim como drogas podem cortar a comunicação entre neurônios. Dito de outra forma: os princípios que valem para justificar uma coisa em determinado momento, podem não valer de critério para julgar algo similar noutra circunstância. A conseqüência mais danosa é a particularização da ética, que não pode mais ser generalizada, como apregoava Kant. A velha máxima que condena a utilização de dois pesos e duas medidas na avaliação dos acontecimentos, passa a ser o método analítico celebrado.

Vejamos alguns exemplos. O presidente Lula afirmou que o aborto deve ser debatido por se tratar de uma questão de saúde pública e de justiça social, afinal, de acordo com ele, as madames praticam o aborto no conforto de clínicas chiques, enquanto as moças pobres correm o risco de morrer em clínicas clandestinas. A luta de classes nunca dorme…

Vale lembrar - ai que impertinência mais careta - que aborto é crime previsto na Constituição, salvo em casos de estupro e risco de vida para a mãe. Portanto, a questão primordial não é QUEM comete o crime, mas definir QUAL ação é criminosa. No entanto, a lógica subjacente no discurso de Lula centra foco no sujeito ao sustenta que pobres, ao cometerem determinado crime, ficam expostos à morte, enquanto ricos, ao praticarem a mesma ilicitude, se dão bem. Qual a solução? Os abortistas, entre eles Lula (que não assume a condição explicitamente) não têm dúvida: abolir o crime para proteger o criminoso. Ou seja, descriminalizar o aborto. Parece absurdo, mas é isso mesmo. Podem existir bons motivos para eliminar fetos indefesos, eu não creio que hajam, mas a lógica intrínseca à argumentação dos abortistas é essa. De boas intenções, todos sabemos, o inferno está cheio.

De tempos em tempos grupos políticos insistem em discutir o aborto supostamente em defesa dos oprimidos, quando na verdadede se trata de defender um violento instrumento de controle de natalidade, ou mais a fundo, de uma pregação materialista contra os valores básicos da sociedade judaico-cristã. Uma nobreza só.

De qualquer forma, se o discurso que distingue criminosos pobres e ricos fosse um princípio geral solidamente construído, sua estrutura poderia e deveria ser estendida a outros casos. Imaginem assaltantes de bancos. Enquanto Daniel Dantas enriquece cometendo crimes (é o que a PF diz), dezenas de bandidos morrem em tiroteios com a polícia na tentativa de roubar essas instituições e, portanto, seus clientes. Seria o caso, na impossibilidade de acabar com assaltos a bancos e de punir crimes cometidos por figurões do colarinho branco, descriminalizar essa ação em nome da justiça social. Ladrão de banco pobre seria tratado como ladrão de banco rico: ambos ficariam impunes.

Ou vejam o caso dos “voluntários” que foram filmados surrupiando roupas e alimentos doados às vítimas das chuvas em Santa Catarina. Enquanto a turma da Máfia das Ambulâncias escapou ilesa de seus crimes, esses coitados podem pegar até quatro anos de cadeia. Por que só corruptos ricos podem roubar sem prestar contas à Justiça? Que os pobres também se locupletem. Como diria Lula, está na hora de acabar com essa hipocrisia.

15 Dez

Luizianne e Tasso avaliados com isenção jornalística

Um dia após publicar a reportagem “A máquina que Luizianne herdará de si mesma“, o jornal O Povo traz uma entrevista com o senador Tasso Jereissati (PSDB): “A mudança virou história“. Uma rápida comparação entre alguns trechos das duas matérias ilustra à perfeição aquilo que se entende vulgarmente por “imparcialidade” e “objetividade” jornalística.

No primeiro texto:

“Nos últimos quatro anos, Luizianne Lins organizou a máquina, aperfeiçoou métodos de gestão e avançou socialmente, e foi com essa performance administrativa que a prefeita recebeu, em outubro, o direito de ficar por mais quatro anos à frente da cidade. Prestes a tomar posse novamente, no entanto, a questão que se coloca é: que Prefeitura Luizianne receberá dela mesma?”

No segundo:

“Tasso Jereissati não é o mesmo de 23 anos atrás, quando, ainda um jovem empresário, decidiu entrar na política disposto a mudá-la. Está mais maduro - exatamente hoje chega aos 60 anos de idade -, o discurso é mais flexível e menos radical, o tom das palavras ao apresentar suas visões do cenário já não soa com a mesma arrogância de que antes era acusado de abusar.”

Então tá. Luizianne é uma política repleta de realizações fantásticas e Tasso não passa de alguém que ficou menos arrogante. Pelo menos essa é a mensagem que se insinua nas linhas acima destacadas. Mas é claro que nada disso é opinião, afinal, jornalismo é técnica e isenção.

Para dar verossimilhança à tese de que a prefeitura de Fortaleza avançou, a reportagem, de Erivaldo Carvalho, apresenta números como, por exemplo, o aumento na quantidade de matrículas ofertadas nas escolas municipais: de 234.487 para 239.344. Foi suficiente? Existe defasagem? Ninguém disse. Curiosamente, o critério de avaliação deixou de lado o 89º ligae de Fortaleza no ranking estadual das escolas. De resto, as informações sobre o tal “avanço” constam de uma quadro cujo o título é, digamos, bem otimista: Melhorias em Fortaleza nos últimos quatro anos. Lá o leitor fica sabendo que os hospitais saíram de 9 para 9 unidades. Que melhoria, hein? Mas, claro, para fazer justiça à veracidade dos fatos, o texto informa que não foi considerado o Hospital da Mulher, ainda em construção. Por último, resta saber o que é “avançar socialmente”. Terá alguma coisa a ver com densidade demográfica? Afinal, quando nasce mais gente, a sociedade avança e cresce… 

Já na introdução da entrevista com Tasso, assinada por Guálter George e Érico Firmo, descobrimos que o senador tucano adota um tom de palavras que “não soa com a mesma arrogância de que antes era acusado de abusar”. Acusado por quem? Somente pelos adversários ou pela população em geral? Ou seriam setores da classe média insatisfeitos com medidas pontuais? A afirmação é baseada em alguma pesquisa ou pega carona no eficientíssimo senso comum? Bom, não sejamos radicais. Figuras públicas podem ter a imagem marcada por qualidades e defeitos que dispensam mesmo confirmação científicas.

O diabo é que certas escolhas podem dar a entender que existe uma pré disposição em relação a algumas personagens, ou preferência na hora de sacar determinadas caricaturas ou deformações forjadas por ações de desinformação orquestradas por grupos políticos.

14 Dez

Bons textos não envelhecem - Stuart Mill

Em tempos de crise, economistas ganham as luzes da ribalta e se transformam em estrelas, uma espécie de oráculo moderno. Gente como Paul Krugman passa a ser vista como sábio que sobre qualquer assunto pode falar, detentor de um saber integral, quando na verdade são especialistas em uma área. O problema é que a prevalência da economia nas preocupações gerais nos últimos meses cria a falsa impressão de que tudo o mais nas relações humanas é acessório. De certa forma, as crises econômicas fortalecem o ideário materialista, segundo o qual dimensões da vida como a cultura e a religião derivam indiretamente do capital.

O problema é que a prevalência da economia nas preocupações gerais nos últimos meses cria a falsa impressão de que tudo o mais nas relações humanas é acessório. De certa forma, as crises econômicas fortalecem o ideário materialista segundo o qual dimensões da vida como a cultura e a religião derivam indiretamente do capital.

Essa situação carrega consigo um segundo efeito, um brecha aproveitada por teóricos e militantes políticos para trabalhar uma suposta contradição entre cidadão e estado, indivíduo e coletividade, e depois reafirmar a supremacia do coletivo sobre o individual. Essa tem sido uma prática comum no últimos dois séculos. Curiosamente, quando mais esses parasitas de crises alardeiam que o problema do mundo é o excesso de individualismo, mais o coletivismo avança sobre as pessoas e nações. Cada vez mais direitos individuais são abolidos em função de reivindicações de grupos organizados. Quanto mais falam de isolamento, mais entidades como ONU e União Européia avançam sobre o conceito de soberania.

Nessas horas em que a mistificação grosseira ganha ares de evidência lógica, é que bom pedir socorro aos clássicos, como Stuart Mill (no desenho), filósofo e economista inglês e liberal falecido em 1873. Confiram o trecho da obra A Liberdade, publicada em 1859 (pag.131-132):

“À parte as doutrinas particulares de pensadores individuais, existe no mundo uma forte e crescente inclinação a estender de forma extrema o poder da sociedade sobre o indivíduo, tanto por meio da força da opinião quanto pela legislativa. Ora bem, como todas as mudanças que se operam no mundo têm como efeito o aumento da força social e a diminuição do poder inividual, este transbordar não é um mal que tenda a desaparecer espontaneamente, antes pelo contrário, tende a tornar-se cada vez mais notório. A tendência dos homens, quer como soberanos quer como condidadãos, a imporem aos outros como regra de conduta a sua opinião e os seus gostos, está tão energicamente sustentada por alguns dos melhores e alguns dos piores sentimentos inerentes à natureza humana que quase nunca se detém a não ser por lhe faltar poder. E como o poder não parece encontrar-se em vias de diminuir, mas de crescer, devemos esperar, a menos que não se erga contra o mal uma forte barreira, devemos esperar, digo, que, nas presentes condições do mundo, esta tendência não pare nunca de aumentar”.