Quem julga a imprensa?
O jornalista Guálter George assina um artigo publicado no jornal O Povo desta quarta, em que tece considerações sobre a conturbada relação entre imprensa e governo federal. Não o conheço, mas creio que o seu pensamento representa uma tendência da qual discordo. Segue abaixo alguns trechos do referido artigo (vermelhos), intercalados por comentários meus (azuis).
Sempre que colocados do outro lado da crítica, ou seja, quando no foco dela, nós, jornalistas, reagimos mal (…). É um pouco do que acontece agora, no cenário que se criou após a reeleição do presidente Lula.
O problema aí é a generalização. Se uma crítica é injusta, é natural que haja a reação. Portanto, para não confundir, cabe ao reclamante especificar quem reagiu mal a que fato correspondente. Quais veículos ou profissionais erraram? Quando? O governo reclama do foco nos escândalos, culpa os meios de comunicação pela cobertura, quando a solução seria parar de produzir escândalos. Ademais, é comum os governos reclamarem da imprensa. Todos fazem isso. Mas acusar de campanha orquestrada, de golpe, de compra de consciências, isso é outra coisa.
É essencial, por exemplo, se criar disposição para localizar os excessos reais cometidos na cobertura política dos últimos meses, muitas vezes em nome de uma liberdade que devemos continuar defendendo como sagrada. Para isso, devemos utilizá-la com rigor e equilíbrio.
Quem define os limites do rigor e do equilíbrio? O sindicato da categoria? Ele é isento? Ou o próprio governo? A mídia pode errar e a autocrítica deve ser exercida, tudo bem. Por isso a liberdade de imprensa é regulada por leis, portanto, em casos de abuso, a justiça pode ser acionada. Não tem mistério.
Este é um debate nosso, de jornalistas e veículos, e demonstra-se urgente que decidamos fazê-lo. Pelo que acontece agora, pelo que já vimos acontecer antes e pelo que ainda pode vir a acontecer. Esconder os erros, opção que ainda parece prevalecer, não me parece a maneira adequada de reagir a quadros como o que enfrentamos hoje, com sérios, e muitos deles justos, questionamentos ao comportamento geral dos meios de comunicação diante de um momento histórico.
Não! Esse é um debate da sociedade. O maior árbitro, o mais severo analista do conteúdo jornalístico produzido continua sendo o consumidor, ou seja, o leitor. Jornais e jornalistas devem servir ao público fiscalizando governos. Qualquer um. Quando os noticiários escondem erros ou se deixam editar pelos interesses oficiais, o descrétido é inevitável. E a concorrência ocupa o lugar desses veículos. Se não fosse a imprensa, o brasil seria uma paraíso ainda mais confortável para os corruptos.

