Sina

Os Retirantes – Cândido Portinari – 1944

A imagem do povo nordestino está intrinsecamente ligada à penúria. E não é por acaso, como bem denunciou Portinari na série de telas Os Retirantes. Vejam a imagem acima. Cobiçadas por urubus, figuras esquálidas de uma família numerosa esperam por um milagre. A única expectativa de criaturas assim é a misericórdia alheia. Mas isso não constitui uma fatalidade, antes, é fruto de escolhas erradas, do descaso e da incompetência. Imaginar um nordeste autônomo, viável economicamente, independente politicamente, é algo que não combina com a sina dos retirantes. Conceder isenção fiscal para trazer indústrias para o nordeste? “Que coisa horrível”, reclamam nos centros mais desenvolvidos, “é a guerra fiscal predatória; vamos acabar com essa farra”. E pronto. Políticas de combate às desigualdades regionais que é bom, nada. Tem sido assim e continua sendo assim. Dentro dessa imagem consolidada de que somos eternos pedintes incapazes, o assistencialismo vigora como benefício consolador. A indústria da seca funcionou baseada nessa lógica perversa que escraviza e não gera riquezas. “Para quê uma siderúrgica no Ceará, se eles já têm o Bolsa Família? Ainda querem mais?”.
O Brasil se acostumou a ver o Nordeste como um ente inferior, eternamente necessitado da ajuda dos mais prósperos, ou dos menos pobres. E mesmo quando um estado nordestino trabalha no intuito de se emancipar, poupando para aplicar em infra-estrutura e capacitação, desenvolvendo projetos de geração de renda, estabelecendo parcerias e fechando contratos, mesmo quando tudo isso é feito, as contrapartidas contratuais do governo federal são confundidas como concessão, como favor caridoso. E uma vez tomados por dádiva superior, esses contratos deixam de ser obrigação para se transformarem, presunçosamente, em ações optativas, submetidas apenas ao crivo da oportunidade, como se fossem esmolas. “Desculpe, não tenho nada hoje, deixe para uma outra vez”. É isso o que está acontecendo com o caso da siderúrgica.
Em certas situações, a humilhação não precisa ser uma agressão ostensiva; pode ser apenas uma sutil negativa. Cabe aos cearenses lembrar aos seus arrogantes parceiros que não estão suplicando bondades, mas cobrando, e exigindo, que se cumpra a palavra empenhada num acordo firmado. E não custa lembrar que promessa de camapanha é uma forma de contrato moral. Não somos mais retirantes. É preciso ter altivez.

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