Obrigado ano velho, feliz ano novo

O ano chega ao fim e um outro se inicia. É o movimento da vida que caminha inexoravelmente em busca de mais tempo para novas realizações. No superficial imaginário coletivo, a virada do ano é a interseção exata em que o passado e o futuro se encontram magicamente, no breve instante de um brinde festivo, na pequena contagem regressiva que antecipa o marco zero, na luz fugaz produzida pela queima dos fogos de artifício. E assim o futuro se transmuta em presente na festa do reveillon, enquanto o passado é deixado para trás na poeira do esquecimento.

Nessas ocasiões, o novo é celebrado como uma força de conversão automática capaz de consertar o que deu errado. O velho é descartado feito objeto sem valor e inútil, repleto de recordações amargas, sem nada mais a oferecer. No máximo, comemoramos eufóricos alguma conquista esportiva inócua. A febre do consumo nos incita o desejo de comprar estações.

Ocorre que a cronologia dos acontecimentos não se faz de um hoje eterno, desprovido de ontem e virgem para o amanhã. Não somos o que aconteceu no ano X, ou o que deixou de acontecer no ano Y, muito menos o que pretendíamos para o ano Z. Somos a soma dos erros e dos acertos do passado, com as ações do presente e a construção do futuro, somos a síntese desse movimento incessante.

É bom que a esperança esteja entre os sentimentos que recepcionam o ano novo, pois indica uma vontade de melhorar. No entanto, a esperança não produz efeitos se dissociada das lembranças, boas e más. No ano passado cometemos enganos, recaímos em vícios, perdemos oportunidades, mas também mantivemos lealdades, construímos novas amizades, evitamos, com a experiência acumulada, erros antigos, sonhamos e trabalhamos e nos ajudamos. Nesse novo ano, para nos depurarmos, para que o mundo possa progredir, precisamos ter em mente que o ano que passou foi rico em lições.

Nessa passagem, quero agradecer a Deus, a minha esposa e filha, a minha família, aos meus amigos e colegas, aos que me lêem, e como o clima é de revisão fraterna, agradeço até aos desafetos que me testaram o caráter. Agradeço a todos os que construíram juntos o ano que se vai e que também haverão de edificar, nos próximos doze meses, novas alegrias e esperanças.

Obrigado ano velho, feliz ano novo.

Retrospectiva breve

2006 começou com o carnaval recordista em acidentes de trânsito. Páscoa e semana santa também transcorreram com muitos acidentes de trânsito.

Copa do Mundo – perdemos.

Eleições:

Brasil – segundo turno para presidente inesperado. Assessores e militantes do PT são presos em flagrante com malas de dinheiro. Setores do governo federal atribuem o fato ao golpismo da imprensa que insiste em cobrir os escândalos produzidos pelo… governo federal. Alckimin afirma preferir os que lhe criticam, porque lhe corrigem, aos que lhe adulam, porque lhe corrompem. Lula diz que aprendeu com sua mãe: “cada macaco no seu galho”. Lula é reeleito. O país criminaliza as privatizações, preferindo a ineficiência estatal ao livre mercado que, por exemplo, garantiu-lhe cobertura total de telefonia celular.

Ceará – o senador Tasso Jereissati rompe com o governador Lúcio Alcântara. Cid Gomes é facilmente eleito no primeiro turno com apoio do PT. José Guimarães e José Airton, ambos do PT e envolvidos em denúncias de corrupção, são eleitos deputados federais. Ciro Gomes é o deputado mais votado do Brasil. Cid Gomes anuncia secretariado e PSDB está no seu governo.

Ninguém é punido pelos escândalos em Brasília e o país revê a perspectiva de crescimento para baixo. Menos de 3%, enquanto a média dos emergentes supera o dobro da nossa.

Apagão aéreo evidencia ingerência e incompetência do governo. Vôos correm risco de acidentes por conta de pontos cegos no sistema de controle.

Natal com muitos acidentes de trânsito.

E por que não?

Ontem a prefeita Luizianne Lins declarou aos jornais que teria dito ao governador eleito Cid Gomes não aceitar o apoio do senador Tasso Jereissati. Essa seria a condição primeira, deixando subjacente que existe limites para a produção de alianças governamentais.

Luizianne poderia ser mais explícita e dizer ao distinto público quais motivos impediriam Cid de conviver com seu antigo parceiro. O PT hoje é aliado de Jáder Barbalho, José Janene, José Sarney, Paulo Maluf, Delfim Neto, Orestes Quércia, Roseana Sarney, Romero Jucá, Renan Calheiros etc. Embora a maioria desses nomes esteja bem enrolada com a justiça por causa de corrupção e alguns tenham sidos ferrenhos adversários do PT no passado, nada disso impediu a prefeita de apoiar Lula, o que faz dela, parceira dessa turma.

Não tenho procuração para defender ninguém, mas não consta que Tasso Jereissati, que enseja tantos cuidados em Luizianne, seja alvo nem mesmo de investigação. Ministério Público, Polícia Federal, Receita Federal, nada. E olha que o senador é um dos líderes da oposição que mais ataca o governo. Ademais, Cid nunca deu palpites sobre as alianças de Luizianne. Tudo indica que o governador coloca a governabilidade acima das disputas paroquiais. Então sejamos claros. Qual o problema, prefeita?

Renova-se a esperança

Mário Quintana

Esperança

Lá bem no alto do décimo segundo andar do Ano
Vive uma louca chamada Esperança
E ela pensa que quando todas as sirenas
Todas as buzinas
Todos os reco-recos tocarem
Atira-se

E
— ó delicioso vôo!
Ela será encontrada miraculosamente incólume na calçada,
Outra vez criança…
E em torno dela indagará o povo:
— Como é teu nome, meninazinha de olhos verdes?
E ela lhes dirá(É preciso dizer-lhes tudo de novo!)
Ela lhes dirá bem devagarinho, para que não esqueçam:
— O meu nome é ES-PE-RAN-ÇA…

Todo governo precisa de oposição

Como Tirar Proveito de seus Inimigos, do filósofo grego Plutarco. O governante preso num círculo restrito de amigos, bajuladores e aduladores, deixa de ver os aspectos desagradáveis da realidade e passa a crêr em miragens fabricadas por elogios sinceros ou interesseiros. Os inimigos podem, através das críticas (justas ou não), resgatar o governante desse ambiente de devaneios. Por isso é importante escutar os adversários, para, descontando seus eventuais exageros, o detentor do poder possa ter uma idéia aproximada do mundo real. Mas para isso, é preciso tê-los pelo menos.

Se por um lado era previsível que a parceria entre o PSDB cearense e o cirismo se mantivesse, por outro, a forma como os obstáculos foram superados para que isso ocorresse, evidenciam as fragilidades e as incongruências do partidarismo brasileiro. Afinal, o PSDB teve um candidato ao governo estadual e perdeu. Foram circunstâncias especiais, como todos sabemos - a candidatura do partido foi forçada, e a aliança com Cid não foi efetivada por causa de disputas internas. Recentemente o governador Lúcio Alcântara afirmou que ele mesmo estava disposto a apoiar Cid Gomes. Ou seja, seu adversário não foi seu aliado por muito pouco. Como vemos, o eleitor e as ideologias não figuram entre as maiores preocupações das lideranças partidárias quando das composições de chapas. São fatores secundários, diante da necessidade de acomodar interesses de grupos, ou então, de evitá-los. Sim. Diante de tantas fragilidades, muitas vezes é necessário que o partido não se faça uma prisão. Entre os interesses do partido e os do eleitorado, por exemplo, pode ser que a consciência individual do político tenha que prevalece sobre a vontade coletiva.

O deputado Nelson Martins (PT) criticou o governador eleito e os tucanos por causa da indicação do deputado Marcos Cals (PSDB) para o secretariado estadual. Para o petista, o fato muda a relação de forças na base aliada. Concordo com Nelson, pois penso que as alianças devem ser estabelecidas antes das eleições, de forma que os eleitores possam medir melhor as consequências de suas escolhas. No entanto, é preciso dizer, não me deixo enganar pelo pudor do deputado, que afinal, apóia o governo federal, e é, portanto, aliado objetivo e colega dos deputados Paulo Maluf e Jáder Barbalho, além do senador Collor de Melo. Fidelidade partidária e coerência ideológica, nos dias de hoje, são valores muito elásticos. As críticas ao governador Cid não passam de lamento de quem sonhava com mais espaços no futuro governo.

Cid agiu com habilidade e conseguiu, nesse início de mandato, eliminar qualquer força mais expressiva que viesse a hostilizá-lo ou mesmo fiscalizá-lo. Não há oposição no Ceará. A Assembléia Legislativa, nessa configuração, vai ganhando ares de Câmara Municipal gigante. O governador eleito faz o seu papel com desenvoltura. Não se pode cobrar dele a criação de adversários. Mesmo assim, a ausência destes deve ser vista com desconfiança pela imprensa e pelo povo, pois o excesso de acordos, de acomodações, o loteamento do poder, tudo isso é ruim para a democracia, pois vicia. Sem oposição, a possibilidade de relaxamento, de descuido, ou mesmo de ilusões, é perigosamente maior.

PSDB no governo Cid - Análise

Imbróglio - óleo sobre acrílico de John Peart. As cores se misturam, as formas se alteram, mas a imagem resulta de uma técnica calculada.

Leiam os próximos três posts abaixo. Dão conta da adesão do PSDB estadual ao governo de Cid Gomes, inclusive com direito a, por enquanto, uma secretaria. Há boatos sobre uma segunda pasta que ficaria com os tucanos. Mas deixemos de lado as especulações e lidemos com os fatos. Não há surpresa alguma nisso. Como disse o deputado Heitor Férrer (PDT), só um tolo acreditaria que o PSDB faria oposição a Cid. No entanto, o pedetista erra nas motivações, ao dizer que os tucanos agiram guiados por um adesismo fútil e automático capaz de reunir os ex-companheiros supostamente rompidos. Na verdade, para que o PSDB de Tasso fizesse oposição a Cid Gomes (ou ao cirismo), seria necessário que a duas forças fossem adversárias, que ambas comungassem de valores contrários e inconciliáveis, ou ainda que tivessem histórias distintas. Essa conjunção de fatores não existe entre os dois grupos, pelo contrário, ela sempre se fez nítida em relação ao PT, esse sim, aliado circunstancial dos Gomes. Esse é o nó da questão, e não é tão difícil desatá-lo.

O jornalista e filósofo Olavo de Carvalho escreveu no Jornal do Brasil (clique aqui para ler), que “para saber a filiação ideológica de qualquer político brasileiro, não pergunte em que ele crê, mas com quem ele anda, a quais pressões e injunções ele é sensível, em quais esquemas de ação coletiva está metido.” O conselho cai como uma luva para avaliarmos as alianças partidárias celebradas nas últimas eleições estaduais. O PSDB rachou com o desentendimento de seus líderes Tasso e Lúcio. Os jornais afirmam que Tasso desejava manter a aliança com Ciro, mas que Lúcio não topou. O PT, fragilizado pelos escândalos nacionais e locais, não teve força para lançar um candidato próprio. O PSB de Cid sabia das possibilidades de vitória, mas precisava do apoio de uma sigla que pudesse garantir estrutura e tempo de propaganda. Foi essa conjuntura especial baseada em cálculos de curto prazo que possibilitou o arranjo das coligações estaduais. O inusitado não é o embarque do PSDB no governo de Cid, mas a união que pôs lado a lado, antigos rivais como Luizianne Lins e Mauro Filho, por exemplo. Seguindo o conselho de Carvalho, podemos concluir que esse foi um roteiro previsível. Com quem sempre andou o cirismo no Ceará?

PSDB no governo Cid - 3

Por Erivaldo Carvalho, no O Povo

Ida de Clas foi aprovada pelo PSDB - Muito mais do que um tucano na gestão Cid Gomes, a ida do presidente da Assembléia, deputado Marcos Cals, para a Secretaria da Justiça concretiza o apoio do PSDB ao futuro governo estadual. A revelação foi feita ontem pelo líder da bancada tucana na Casa, deputado João Jaime. Segundo ele, ao receber o convite, Cals resolveu consultar o partido, antes de dizer se aceitaria. Além de membros da bancada e da Executiva estadual, também teria sido procurado o presidente nacional da legenda, senador Tasso Jereissati.

PSDB no governo Cid - 2

Diário do Nordeste desta sexta.

Petista diz que Tasso terá influência - A indicação de um tucano para o governo Cid Gomes (PSB) não agradou a alguns setores do Partido dos Trabalhadores. O deputado Nelson Martins (PT) criticou Cid pela escolha do presidente da Assembléia Legislativa, deputado Marcos Cals (PSDB), para ocomando da secretatria de Justiça, sem a discussão prévia com o PT e demais partidos aliados e chegando a afirmar que o presidente nacional do PSDB, senador Tasso Jereissati, terá influência no novo governo. ´A indicação significa a adesão do PSDB ao governo. Nós, do PT, que fizemos a campanha de Cid Gomes, sequer fomos informados´, queixou-se o petista.

O deputado Heitor Ferrer, líder do PDT na Assembléia Legislativa diz que só um ´tolo´ acreditaria que o PSDB fosse fazer oposição ao governo Cid Gomes. Os tucanos, de acordo com o pedetista, não têm o perfil para ser contrários à próxima administração.

Oposição
Para Heitor Férrer, os tucanos não iriam ser do bloco de oposição a Cid Gomes, independente da entrada de Marcos Cals no secretariado, e que a escolha consolida a eleição do deputado Domingos Filho (PMDB) a presidência da Assembléia Legislativa. Apesar deste seu posicionamento, o líder pedetista defendeu que o PSDB deveria ser de oposição para ´contrabalançar´ as forças políticas com a base de sustentação, já que o deputado afirmou que manterá uma postura independente do novo governo.

O PSDB está no governo Cid

Por Érico Firmo, no O Povo desta quinta.

PT e PSDB lado a lado no governo Cid - Se o primeiro lote de secretários anunciados por Cid Gomes foi um primor de previsibilidade, o segundo grupo anunciado ontem traz um nome capaz de provocar uma hecatombe na política cearense. A confirmação do nome do tucano Marcos Cals no governo Cid Gomes - cuja possibilidade de ir para o governo foi antecipada ontem pelo O POVO - caiu como uma bomba tanto no PT quanto no PSDB. De um lado, o governador eleito assegura a presidência da Assembléia para o deputado estadual Domingos Filho (PMDB). Atrai também o PSDB para sua base - de forma mais antecipada do que se poderia supor. Ao mesmo tempo, provoca um potencial terremoto nos partidos de esquerda. Os principais aliados de Cid no PT terão trabalho para manter o partido unido. O governador eleito resolve seu problema na Assembléia, mas transfere um potencial caldeirão para dentro do próprio governo. A aliança dos Ferreira Gomes com o PT foi fechada a despeito de grande desconfiança por causa das relações da família com Tasso Jereissati. Agora, vai ser difícil explicar à militância a união com os tucanos antes mesmo da posse.

Paradigmas indesejáveis

Por Eliomar de Lima, no O Povo desta terça-feira.

Cota do PT na equipe de Cid Gomes não fica só em cidades
Cartaxo disse que o partido já expôs para o governador eleito Cid Gomes a preferência pelas secretarias da área social

O futuro secretário estadual de Cidades, arquiteto Joaquim Cartaxo, afirmou nesta manhã, ao programa Bom Dia Ceará (TV Verdes Mares), que a cota do PT não deverá se resumir a essa pasta. Cartaxo disse que o partido já expôs para o governador eleito Cid Gomes a preferência pelas secretarias da área social como Educação, Trabalho, Saúde, Esportes e até a área da ecomomia. (…) Cartaxo adiantou ainda que a pasta de Cidades nasce como forma de se adequar ao que existe no plano do governo federal, com objetivo de aumentar o entrosamento de projetos e recursos entre Estado e União.

Cid Gomes já conhece bem o petismo. Quando foi prefeito de Sobral, governou com o partido que continuará seu aliado no governo estadual. Mas é sempre bom ficar alerta para a fome de cargos e de verbas com a qual a sigla vem se notabilizando no plano federal. Essa conversa de preferência pela área social serve como propaganda, cuja mensagem subjacente é a de alardear uma suposta sensibilidade com os pobres que só um partido amigo das ong’s pode ter. Na verdade, trata-se de uma retórica que também serve para camuflar interesses bem mais… pragmáticos, se é que me entendem. Nessas pastas - as ditas sociais - é que o PT, como nenhum outro partido já fez na história do Brasil (nem Getúlio Vargas), conjuga aparelhamento do Estado com proselitismo eleitoral. Nas eleições passadas, vimos como entidades não governamentais entupidas de dinheiro governamental atuaram em prol da reeleição de Lula. Tendo em vista a dificuldade de fiscalizar a execução de projetos sociais, e o fato de que a oposição - que deveria ficar a cargo do omisso PSDB - não incomodará ninguém, o risco de ações inconsequentes (o predidente Lula falou da existência de “aloprados” na sigla) é grande.Se o petismo deseja a área social, é prudente que Cid lhes conceda outra área onde a expertise do partido não tenha causado tantos escândalos.

Outra coisa. Sobre as declarações de Cartaxo, é importante frisar que Cid já avisou, acertadamente, que pretende cortar custos e diminuir a máquina. Portanto, ter a estrutura administrativa do governo federal como modelo é um contra-senso, posto que o aumento do número de ministérios para abrigar companheiros em eleições é de conhecimento público.

"Reconhecer é aprender, meu amor."

Aprendemos com Santo Agostinho que o exame individual da consciência precede qualquer transformação social.

Pois é. Não deu para atualizar o blog durante os festejos natalinos. Mas não foi só isso. Fiquei sem micro justamente nesse final de semana. Isolado do mundo. Como a hora é de fazer balanços pessoais, pensar em novas metas, planejar novos rumos e estratégias, tal imprevisto veio mesmo a calhar.

De qualquer forma, esse é um período do ano que nos toca, e sempre temos vontade de partilhar esperanças e votos de otimismo, sempre ficamos mais desejosos de um mundo melhor. Às vezes corremos o risco de pecar pelo excesso de sentimentalismo, a ponto de perdermos de vista os nossos limites, ou a proteção da sensatez. Fica aquela coisa: “Que os nossos corações possam espalhar a paz pelo mundo, e que a felicidade nos acompanhe todos os dias” etc, etc. Ou pior: “No próximo ano serei paciente e caridoso com nunca fui, doarei generosas somas…” Promessas, promessas. Mas para fazermos um mundo melhor, é necessário nos melhorarmos individualmente. Como vocês sabem, o indivíduo é a primazia do liberalismo. Assim é que, antes de querer transformar os outros à força, como certos humanistas do naipe de um Che Guevara queriam, é preciso mudar a si mesmo. E para isso, é importante reconhcermos nossas fraquezas.

Nas Confissões de Santo Agostinho, aprendemos que refletir sobre nós mesmos não é tarefa fácil como nos ensinam os manuais de auto-ajuda. A obra de Agostinho transcende o ato de fé e alcança as alturas do pensamento filosófico pertinente e duradouro. Para o Santo católico (religião que não comungo), o exame da consciência não pode valer-se de subterfúgios, de pequenas mentiras, de relativismos, pois se cremos em Deus, é certo que Ele, sendo infititamente perfeito, é onisciente e onipresente. Não há como enganar a Justiça Divina. Esconder nossos erros de nós mesmos, portanto, é inútil. Essa lógica permitiu a Santo Agostinho ser severo consigo mesmo, quando a maioria de nós somos complacentes em relação aos nossos defeitos.

É isso. obviamente eu não consigo fazer como Santo Agostinho. Faltam-me preparo analítico e estoicismo. Mas nesse Natal pensei que essa seria uma boa régua para tentar identificar os meus erros e medir a valia dos meus atos - que a rigor, são os únicos que posso realmente mudar. Como diz o roqueiro Nasi: “Reconhecer é aprender, meu amor”.

A hora da escolha

Diário do Nordeste

O governador Cid Gomes (PSB) está com dificuldade de montar a sua equipe em razão de algumas indicações de nomes feitas pelos partidos aliados que não correspondem com o perfil estabelecido por ele para o secretariado. Os correligionários fizeram indicações, mas não sabem em que cargos alguns deles podem ser aproveitados. O próprio Cid, segundo correligionários do PT, do PC do B, do PMDB e do PSB, não tem tratado especificamente sobre esse ou aquele cargo com nenhum dos dirigentes partidários.

Os critérios adotados para a composição da equipe de governo de Cid Gomes, serão a base moral da futura gestão. Se escolher acomodar interesses e disputas partidárias cedendo cargos de menor importância para aliados, ou então se lotear pastas para que líderes partidários indiquem nomes, Cid estará rifado. Perderá a autoridade de cobrar e de impôr suas próprias determinações. Por outro lado, se optar por um perfil técnico para compor o secretariado, arrisncando-se a descontentar esse ou aquele grupo de pressão, manterá o comando e garantirá a qualidade das ações governamentais. Dividir o poder com correligionários é legítimo e justo, mas deixar que uma secretaria vire objeto de barganha é a perdição da administração. Na esfera federal, o espaço de manobra para o chefe do executivo é menor, dada a complexidade das relações intitucionais. Mas no âmbito estadual, e ainda mais com uma Assembléia Legislativa que lhe é simpática, o governador Cid não deve ter outra coisa em mente, que não seja metas e resultados. No fim, esse será o seu trunfo político.

Jornalismo investigativo

Não adianta culpar Renan Calhaeiros e Aldo Rebelo pela tentativa de aumentão para deputados e senadores. É injusto. Na verdade, foi o cantor Ed Motta quem distorceu o entendimento e as expectativas sobre a real natureza da atividade política. Reparem na letra do sucesso Manuel, gravado em 1987, especialmente na parte grifada em vermelho - por favor, não liguem para a dislexia do texto, é música para jovens… Curiosamente, embora tenha pervertido corações e mentes, Ed Motta preferiu ganhar dinheiro honestamente.

Manuel… Foi pro céu
Manuel… Foi pro céu
Ia pro trabalho cansado, às 6 da manhã.
Ouvia no seu rádio, calcinhas e sutiã.
No rádio era um funk, o trem tava lotado.
Pensou no seu salário, ficou desanimado.
Se eu fosse americano minha vida não seria assim.
Manuel… Foi pro céu
Manuel… Foi pro céu
Dia após dia, ouvia a sua vó lhe falar,
O mundo é fabuloso, o ser humano é que não é legal.
No rádio era um funk, o trem tava lotado,
Pensou no seu salário, ficou desanimado.
Se eu fosse um político, minha vida não seria assim.
Não,não, não, não.
Manuel… Foi pro céu
Manuel… Foi pro céu

Revelações de um dossiê fajuto

Tem circulado na internet uma carta do jornalista Rodrigo Vianna, escrita após ser ele ter sido demitido da Rede Globo e divulgada no último dia 19. Para conferí-la na íntegra, clique aqui. Declarando-se ingênuo, Vianna afirma acreditar que o jornalismo da Globo foi bom somente enquanto ele esteve lá, mas que nas últimas eleições não houve equilíbrio jornalístico e a candidatura de Geraldo Alckimin teria sido beneficiada por uma cobertura tendenciosa. Vianna não pediu demissão na ocasião, e só resolveu tornar público as supostas trapaças que aponta, depois de ter sido demitido. Essa denúncia de que existe uma obstinada rede de sabotagens contra a democracia e especialmente contra o PT, casa perfeitamente com os argumentos de setores que defendem o “controle social” da mídia - ou seja, a censura. Como no momento em que Vianna afirma ter perguntado aos seus chefes “por que não vamos repercutir a matéria da IstoÉ, mostrando que a gênese dos sanguessugas ocorreu sob os tucanos?”

Por esse trecho, podemos constatar que Vianna continua tão ingênuo no presente quanto julgava ser no passado. Sempre que um petista deseja evitar explicar a origem do dossiê - que é a questão relevante do caso -, ele sai pela tangente alegando um complô, cuja prova seria a omissão da denúncias contidas no tal dossiê.

O melhor comentário sobre esse tipo de impostura está no site do filósofo Olavo de Carvalho, que a rigor não fala de Vianna, e sim de uma disposição mais generalizada dos críticos da imprensa, o qual reproduzo a seguir. Serve como uma luva para esse episódio.

“[Queixam-se] de que a mídia, fazendo alarde do dossiê ilegal comprado pelo PT para desgraçar seus concorrentes eleitorais, se omitiu, criminosamente, de divulgar o mais importante: o conteúdo do documento, as acusações levantadas nele contra o tucanato. Aí o fingimento hipócrita já se eleva às alturas de um arrebatamento místico. Pois se o dossiê foi forjado justamente para ser divulgado e fazer barulho na mídia, e se a polícia comprovou o caráter criminoso da operação, divulgar o seu conteúdo seria simplesmente dar execução cabal ao plano depois de denunciado e condenado, neutralizando a ação policial que o abortou em tempo. Para fazer isso, a mídia, originariamente escolhida pelo PT como instrumento passivo do delito, teria de consentir em praticá-lo, agora, como cúmplice ativa e consciente.

***

O diretor de jornalismo da Rede Globo Luiz Claudio Latgé enviou um comunidado à imprensa com esclarecimentos da emissora para a demissão de Rodrigo Vianna. O diretor afirma que “Os motivos da não renovação nada têm a ver com a cobertura das eleições, como ele especula. Em respeito a ele, jamais pretendi torná-los públicos nem farei isso agora. Rodrigo, porém, nem os quis conhecer. Ao ouvir de mim que o contrato não seria renovado, saiu intempestivamente de minha sala e enviou um e-mail para a Redação”. (…) “Lamento que tenha perdido o equilíbrio e tentado transformar um assunto funcional interno numa questão política, que jamais existiu.” (…) “A confusão de idéias que o Rodrigo Vianna expressa deve ter razões pessoais e compromissos que não nos cabe julgar. Peço desculpas aos colegas pelos ataques e ofensas por ele dirigidos.” Para ler o comunicado na íntegra, clique aqui.

Tentação autoritária na AL

Algumas correntes políticas acreditam que o Poder Legislativo deve ser encabrestado.

Por Vicente Gioielli, no j
ornal O Povo - Os grifos são meus.
AL aprova mudanças no Regimento Interno
- A Assembléia Legislativa aprovou ontem os projetos de resolução que modificam e atualizam o Regimento Interno da Casa e o Código de Ética Parlamentar. A tensão ficou por conta de emenda apresentada pelo deputado Artur Bruno (PT), que previa votação aberta para a Mesa Diretora da Casa. Durante três anos, a Assembléia, por iniciativa da Mesa Diretora, trabalhou na atualização dos documentos que regem os trabalhos dentro do parlamento cearense. A poucos dias da votação do texto final do projeto, entretanto, duas emendas modificativas do Regimento Interno foram encaminhadas. (…) Marcos Cals chegou a apelar para que o petista desistisse de tentar aprovar sua emenda, por defender o voto secreto. Em vão. Ela foi a votação e acabou sendo rejeitada pela maioria do plenário.

É difícil não ser áspero com situações assim. Somente depois que a coligação do seu partido ganhou as eleições para o executivo estadual, foi que o deputado Artur Bruno (PT) resolveu, às pressas, manifestar-se contra o voto aberto para a Mesa Diretora da AL. O desejo indisfarçável de Bruno é o de patrulhar os votos dos seus colegas, para ver quem é leal ao novo governo. Antes, os outros governos que se resolvessem com os “traidores”. Agora não, é preciso saber quem vota contra, quem é amigo ou inimigo, pois deputado bom é deputado encabestrado. É incrível um parlamentar expressar tamanho desprezo pelo parlamento. É típico do pensamento autoritário querer constranger o legislativo dessa forma. Não creio que Cid Gomes (que já foi presidente da AL) pense assim, até porque o futuro governador não deverá ter oposição forte. Artur Bruno agiu precipitadamente, de improviso, e fez papel de militante adestrado, que vê o mundo unicamente através dos interesses do partido.

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