A hora da escolha

Diário do Nordeste

O governador Cid Gomes (PSB) está com dificuldade de montar a sua equipe em razão de algumas indicações de nomes feitas pelos partidos aliados que não correspondem com o perfil estabelecido por ele para o secretariado. Os correligionários fizeram indicações, mas não sabem em que cargos alguns deles podem ser aproveitados. O próprio Cid, segundo correligionários do PT, do PC do B, do PMDB e do PSB, não tem tratado especificamente sobre esse ou aquele cargo com nenhum dos dirigentes partidários.

Os critérios adotados para a composição da equipe de governo de Cid Gomes, serão a base moral da futura gestão. Se escolher acomodar interesses e disputas partidárias cedendo cargos de menor importância para aliados, ou então se lotear pastas para que líderes partidários indiquem nomes, Cid estará rifado. Perderá a autoridade de cobrar e de impôr suas próprias determinações. Por outro lado, se optar por um perfil técnico para compor o secretariado, arrisncando-se a descontentar esse ou aquele grupo de pressão, manterá o comando e garantirá a qualidade das ações governamentais. Dividir o poder com correligionários é legítimo e justo, mas deixar que uma secretaria vire objeto de barganha é a perdição da administração. Na esfera federal, o espaço de manobra para o chefe do executivo é menor, dada a complexidade das relações intitucionais. Mas no âmbito estadual, e ainda mais com uma Assembléia Legislativa que lhe é simpática, o governador Cid não deve ter outra coisa em mente, que não seja metas e resultados. No fim, esse será o seu trunfo político.

Jornalismo investigativo

Não adianta culpar Renan Calhaeiros e Aldo Rebelo pela tentativa de aumentão para deputados e senadores. É injusto. Na verdade, foi o cantor Ed Motta quem distorceu o entendimento e as expectativas sobre a real natureza da atividade política. Reparem na letra do sucesso Manuel, gravado em 1987, especialmente na parte grifada em vermelho – por favor, não liguem para a dislexia do texto, é música para jovens… Curiosamente, embora tenha pervertido corações e mentes, Ed Motta preferiu ganhar dinheiro honestamente.

Manuel… Foi pro céu
Manuel… Foi pro céu
Ia pro trabalho cansado, às 6 da manhã.
Ouvia no seu rádio, calcinhas e sutiã.
No rádio era um funk, o trem tava lotado.
Pensou no seu salário, ficou desanimado.
Se eu fosse americano minha vida não seria assim.
Manuel… Foi pro céu
Manuel… Foi pro céu
Dia após dia, ouvia a sua vó lhe falar,
O mundo é fabuloso, o ser humano é que não é legal.
No rádio era um funk, o trem tava lotado,
Pensou no seu salário, ficou desanimado.
Se eu fosse um político, minha vida não seria assim.
Não,não, não, não.
Manuel… Foi pro céu
Manuel… Foi pro céu

Revelações de um dossiê fajuto

Tem circulado na internet uma carta do jornalista Rodrigo Vianna, escrita após ser ele ter sido demitido da Rede Globo e divulgada no último dia 19. Para conferí-la na íntegra, clique aqui. Declarando-se ingênuo, Vianna afirma acreditar que o jornalismo da Globo foi bom somente enquanto ele esteve lá, mas que nas últimas eleições não houve equilíbrio jornalístico e a candidatura de Geraldo Alckimin teria sido beneficiada por uma cobertura tendenciosa. Vianna não pediu demissão na ocasião, e só resolveu tornar público as supostas trapaças que aponta, depois de ter sido demitido. Essa denúncia de que existe uma obstinada rede de sabotagens contra a democracia e especialmente contra o PT, casa perfeitamente com os argumentos de setores que defendem o “controle social” da mídia – ou seja, a censura. Como no momento em que Vianna afirma ter perguntado aos seus chefes “por que não vamos repercutir a matéria da IstoÉ, mostrando que a gênese dos sanguessugas ocorreu sob os tucanos?”

Por esse trecho, podemos constatar que Vianna continua tão ingênuo no presente quanto julgava ser no passado. Sempre que um petista deseja evitar explicar a origem do dossiê – que é a questão relevante do caso -, ele sai pela tangente alegando um complô, cuja prova seria a omissão da denúncias contidas no tal dossiê.

O melhor comentário sobre esse tipo de impostura está no site do filósofo Olavo de Carvalho, que a rigor não fala de Vianna, e sim de uma disposição mais generalizada dos críticos da imprensa, o qual reproduzo a seguir. Serve como uma luva para esse episódio.

“[Queixam-se] de que a mídia, fazendo alarde do dossiê ilegal comprado pelo PT para desgraçar seus concorrentes eleitorais, se omitiu, criminosamente, de divulgar o mais importante: o conteúdo do documento, as acusações levantadas nele contra o tucanato. Aí o fingimento hipócrita já se eleva às alturas de um arrebatamento místico. Pois se o dossiê foi forjado justamente para ser divulgado e fazer barulho na mídia, e se a polícia comprovou o caráter criminoso da operação, divulgar o seu conteúdo seria simplesmente dar execução cabal ao plano depois de denunciado e condenado, neutralizando a ação policial que o abortou em tempo. Para fazer isso, a mídia, originariamente escolhida pelo PT como instrumento passivo do delito, teria de consentir em praticá-lo, agora, como cúmplice ativa e consciente.

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O diretor de jornalismo da Rede Globo Luiz Claudio Latgé enviou um comunidado à imprensa com esclarecimentos da emissora para a demissão de Rodrigo Vianna. O diretor afirma que “Os motivos da não renovação nada têm a ver com a cobertura das eleições, como ele especula. Em respeito a ele, jamais pretendi torná-los públicos nem farei isso agora. Rodrigo, porém, nem os quis conhecer. Ao ouvir de mim que o contrato não seria renovado, saiu intempestivamente de minha sala e enviou um e-mail para a Redação”. (…) “Lamento que tenha perdido o equilíbrio e tentado transformar um assunto funcional interno numa questão política, que jamais existiu.” (…) “A confusão de idéias que o Rodrigo Vianna expressa deve ter razões pessoais e compromissos que não nos cabe julgar. Peço desculpas aos colegas pelos ataques e ofensas por ele dirigidos.” Para ler o comunicado na íntegra, clique aqui.

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