Tem circulado na internet uma carta do jornalista Rodrigo Vianna, escrita após ser ele ter sido demitido da Rede Globo e divulgada no último dia 19. Para conferí-la na íntegra, clique aqui. Declarando-se ingênuo, Vianna afirma acreditar que o jornalismo da Globo foi bom somente enquanto ele esteve lá, mas que nas últimas eleições não houve equilíbrio jornalístico e a candidatura de Geraldo Alckimin teria sido beneficiada por uma cobertura tendenciosa. Vianna não pediu demissão na ocasião, e só resolveu tornar público as supostas trapaças que aponta, depois de ter sido demitido. Essa denúncia de que existe uma obstinada rede de sabotagens contra a democracia e especialmente contra o PT, casa perfeitamente com os argumentos de setores que defendem o “controle social” da mídia – ou seja, a censura. Como no momento em que Vianna afirma ter perguntado aos seus chefes “por que não vamos repercutir a matéria da IstoÉ, mostrando que a gênese dos sanguessugas ocorreu sob os tucanos?”
Por esse trecho, podemos constatar que Vianna continua tão ingênuo no presente quanto julgava ser no passado. Sempre que um petista deseja evitar explicar a origem do dossiê – que é a questão relevante do caso -, ele sai pela tangente alegando um complô, cuja prova seria a omissão da denúncias contidas no tal dossiê.
O melhor comentário sobre esse tipo de impostura está no site do filósofo Olavo de Carvalho, que a rigor não fala de Vianna, e sim de uma disposição mais generalizada dos críticos da imprensa, o qual reproduzo a seguir. Serve como uma luva para esse episódio.
“[Queixam-se] de que a mídia, fazendo alarde do dossiê ilegal comprado pelo PT para desgraçar seus concorrentes eleitorais, se omitiu, criminosamente, de divulgar o mais importante: o conteúdo do documento, as acusações levantadas nele contra o tucanato. Aí o fingimento hipócrita já se eleva às alturas de um arrebatamento místico. Pois se o dossiê foi forjado justamente para ser divulgado e fazer barulho na mídia, e se a polícia comprovou o caráter criminoso da operação, divulgar o seu conteúdo seria simplesmente dar execução cabal ao plano depois de denunciado e condenado, neutralizando a ação policial que o abortou em tempo. Para fazer isso, a mídia, originariamente escolhida pelo PT como instrumento passivo do delito, teria de consentir em praticá-lo, agora, como cúmplice ativa e consciente.“
***
O diretor de jornalismo da Rede Globo Luiz Claudio Latgé enviou um comunidado à imprensa com esclarecimentos da emissora para a demissão de Rodrigo Vianna. O diretor afirma que “Os motivos da não renovação nada têm a ver com a cobertura das eleições, como ele especula. Em respeito a ele, jamais pretendi torná-los públicos nem farei isso agora. Rodrigo, porém, nem os quis conhecer. Ao ouvir de mim que o contrato não seria renovado, saiu intempestivamente de minha sala e enviou um e-mail para a Redação”. (…) “Lamento que tenha perdido o equilíbrio e tentado transformar um assunto funcional interno numa questão política, que jamais existiu.” (…) “A confusão de idéias que o Rodrigo Vianna expressa deve ter razões pessoais e compromissos que não nos cabe julgar. Peço desculpas aos colegas pelos ataques e ofensas por ele dirigidos.” Para ler o comunicado na íntegra, clique aqui.