Todo governo precisa de oposição

Como Tirar Proveito de seus Inimigos, do filósofo grego Plutarco. O governante preso num círculo restrito de amigos, bajuladores e aduladores, deixa de ver os aspectos desagradáveis da realidade e passa a crêr em miragens fabricadas por elogios sinceros ou interesseiros. Os inimigos podem, através das críticas (justas ou não), resgatar o governante desse ambiente de devaneios. Por isso é importante escutar os adversários, para, descontando seus eventuais exageros, o detentor do poder possa ter uma idéia aproximada do mundo real. Mas para isso, é preciso tê-los pelo menos.

Se por um lado era previsível que a parceria entre o PSDB cearense e o cirismo se mantivesse, por outro, a forma como os obstáculos foram superados para que isso ocorresse, evidenciam as fragilidades e as incongruências do partidarismo brasileiro. Afinal, o PSDB teve um candidato ao governo estadual e perdeu. Foram circunstâncias especiais, como todos sabemos – a candidatura do partido foi forçada, e a aliança com Cid não foi efetivada por causa de disputas internas. Recentemente o governador Lúcio Alcântara afirmou que ele mesmo estava disposto a apoiar Cid Gomes. Ou seja, seu adversário não foi seu aliado por muito pouco. Como vemos, o eleitor e as ideologias não figuram entre as maiores preocupações das lideranças partidárias quando das composições de chapas. São fatores secundários, diante da necessidade de acomodar interesses de grupos, ou então, de evitá-los. Sim. Diante de tantas fragilidades, muitas vezes é necessário que o partido não se faça uma prisão. Entre os interesses do partido e os do eleitorado, por exemplo, pode ser que a consciência individual do político tenha que prevalece sobre a vontade coletiva.

O deputado Nelson Martins (PT) criticou o governador eleito e os tucanos por causa da indicação do deputado Marcos Cals (PSDB) para o secretariado estadual. Para o petista, o fato muda a relação de forças na base aliada. Concordo com Nelson, pois penso que as alianças devem ser estabelecidas antes das eleições, de forma que os eleitores possam medir melhor as consequências de suas escolhas. No entanto, é preciso dizer, não me deixo enganar pelo pudor do deputado, que afinal, apóia o governo federal, e é, portanto, aliado objetivo e colega dos deputados Paulo Maluf e Jáder Barbalho, além do senador Collor de Melo. Fidelidade partidária e coerência ideológica, nos dias de hoje, são valores muito elásticos. As críticas ao governador Cid não passam de lamento de quem sonhava com mais espaços no futuro governo.

Cid agiu com habilidade e conseguiu, nesse início de mandato, eliminar qualquer força mais expressiva que viesse a hostilizá-lo ou mesmo fiscalizá-lo. Não há oposição no Ceará. A Assembléia Legislativa, nessa configuração, vai ganhando ares de Câmara Municipal gigante. O governador eleito faz o seu papel com desenvoltura. Não se pode cobrar dele a criação de adversários. Mesmo assim, a ausência destes deve ser vista com desconfiança pela imprensa e pelo povo, pois o excesso de acordos, de acomodações, o loteamento do poder, tudo isso é ruim para a democracia, pois vicia. Sem oposição, a possibilidade de relaxamento, de descuido, ou mesmo de ilusões, é perigosamente maior.

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