Tasso concede entrevista ao O Povo
Na edição deste domingo, o jornal O Povo publica uma entrevista com o senador Tasso Jereissati, concedida ao jornalista Érico Firmo. Alguns trechos revelam um olhar aguçado e realista sobre as questões políticas do Ceará. No conjunto, os temas são tratados alternadamente com a objetividade típica do executivo ou com a ambigüidade do político. Talvez seja esse o segredo de Tasso. Fosse o ex-governador um cientista político, um historiador ou um sociólogo formado nas escolinhas de doutrinação marxista que são as nossas universidades, muito provavelmente lhe faltariam clareza e organização. Ele acerta quando diz que a eleição de Cid Gomes foi uma derrota política para o PSDB (natural em democracias) que não significa uma ruptura administrativa com o modelo das “mudanças”. Pelo contrário, seria uma forma de evolução do projeto iniciado em 1986. Ou quando afirma que a esquerda hoje defende, com atraso, as posições que o senador adotou há 20 anos atrás. Em alguns pontos, porém, o pensamento do senador carece de maior aprofundamento, como nas explicações para o fato de o PSDB compor o governo estadual juntamente com o PT. Segue abaixo momentos da entrevista. Para ler a íntegra, clique aqui.
O Povo – De todo modo, pela primeira vez se vê o PSDB com integrantes em um governo ao lado de PT, PSB, PCdoB. Qual a simbologia dessa grande aliança em torno do governo que começa agora. Esse momento pode ser um marco histórico na política do Ceará?
Tasso – Eu tenho dito, e tenho sido até criticado pela imprensa do Sul, que pra mim o Ceará está acima de tudo. Qualquer questão política fica em segundo plano quando o Ceará está em questão. E eu acho que o Ceará vive um momento importante. Na sua infra-estrutura básica, na sua política estratégica de desenvolvimento. Existe uma série de impasses que é preciso que haja muita força política para que esses problemas sejam resolvidos. E não tem sentido que nós, que começamos um projeto que mudou e transformou o estado do Ceará nos últimos 20 anos, não colaboremos no sentido de que pontos estratégicos, obras e ações estratégicas do Estado de longo prazo sejam executadas. (…)
OP – Ainda em relação a essa aproximação de tucanos com o governo Cid, pela primeira vez em décadas o Estado não tem uma oposição orgânica e estruturada como foi, por exemplo, o PT.
Tasso – Nós não vamos fazer nunca oposição como o PT. De tentar empatar tudo que o governo estava fazendo mesmo que fosse bom. O Ceará vive um momento de impasse. Nós estivemos na frente nesses anos todos. Nós estivemos na frente no processo de industrialização, nos tornamos um Estado que estava se industrializando com maior rapidez. Saímos na frente no processo da atração do turismo no Estado, nós saímos na frente no processo de reforma fiscal e reforma administrativa, tivemos os maiores avanços na educação e na saúde. Recebemos prêmios. Redução da mortalidade infantil, e fomos o estado que mais avançou em Índice de Desenvolvimento Humano (IDH). Estamos ficando para trás. Se nós perdermos mais quatro anos, nós vamos ficar novamente para trás e vamos voltar para a rabeira dos estados do Nordeste. (…)
OP – A não-reeleição do PSDB e a eleição de Cid Gomes representa um encerramento do ciclo político do “Governo das Mudanças”? Até que ponto esse governo é o rompimento de um ciclo, até que ponto ele é uma renovação?
Tasso – Evidente que há um ciclo, do ponto de vista estritamente político. Pode ser considerado um ciclo que chega a um momento de mutação. Porque, afinal de contas, o PSDB que estava no poder até agora. Depois de 20 anos, entra outro partido, com outra base de sustentação política. Justamente o que vinha fazendo oposição ao PSDB. No entanto, quanto ao projeto, não (se encerra). É uma evolução do projeto. (…) E dentro desse projeto de modernização e reestruturação do Estado, a alternância de poder é fator essencial. Não existe uma democracia moderna sem uma alternância de poder. (…)
OP – O senhor foi eleito numa aliança com a frente de esquerda, mais ou menos como a que hoje elegeu Cid. Aquele rompimento foi um desses erros políticos?
Tasso – O rompimento hoje da esquerda que me apoiou comprova que eu tinha razão porque tudo aquilo que eles eram contra quando eu estava fazendo, hoje eles fazem no governo. Quando nós fizemos uma política muito dura em relação aos excessos de benesses a alguns apadrinhados de funcionários públicos, aquilo foi considerado uma perseguição. Quando fizemos um ataque a vantagens indevidas e casuísticas construídas durante anos de política clientelista, aquilo foi considerado um desastre, um erro. Quando fizemos uma reforma fiscal forte contendo despesa, também. A esquerda era muito generosa com relação aos gastos do Estado. E hoje estamos vendo essa mesma esquerda no poder adotando todas essas bandeiras, algumas até com mais rigor. E com bastante atraso.
OP - Falando sobre futuro, o que o senhor espera do governo Cid?
Tasso – Não é uma questão partidária, nem política. Eu conheço o Cid, e acho que é um rapaz inteligente, bem intencionado, bem preparado, que tem condições de fazer um bom governo. Ele vai precisar de suporte político e de quadros. Se ele tiver essas duas coisas, eu acho que acho que ele tem condição. O Ceará, como eu disse, está num momento difícil, nós estamos ficando para trás com relação ao turismo. A nossa industrialização praticamente parou. A nossa infra-estrutura não tem nada que possa atrair, principalmente na área tecnológica. Então, nós temos o risco de perder essa liderança que nós conquistamos nos últimos 20 anos. Você deixa de ser a primeira grande opção de investimento. E isso aconteceu no Ceará. Éramos disparado a primeira grande opção no nordeste de investimento e hoje já não somos mais. Então, esse momento nós não podemos consolidar como verdadeiro. Tem que recuperar isso e tem que ser rápido. E eu acredito que o Cid tem condições de fazer isso.
OP- E o futuro do senador Tasso Jereissati?
Tasso – Meu grande desejo é reconstruir o partido, e um partido bom, de qualidade, que tenha quadros. As pessoas falam muito que – e eu acho que é injusto de dizer – que eu não deixei quadros. O Ciro é oriundo, o próprio Cid é oriundo (do projeto mudancista), o Beni Veras que foi ministro, que foi governador; o Sérgio Machado, que foi um líder. O próprio Moroni. Nós geramos muitos quadros. (…) Com certeza governador eu não sou candidato, não tem mais sentido isso. Mas tenho aí quatro anos (de mandato no Senado) para fazer uma reflexão maior sobre fazer esse trabalho de reconstruir o partido e fazer uma reflexão maior sobre o futuro. Vai depender também muito do que ocorrer nesses quatro anos. Ainda tem muita água para correr debaixo da ponte.
