Questão de postura e transparência

“Essa combinação entre certo senador do Ceará, vereadores de oposição à administração do povo de Fortaleza e presidente de instituição pública que tem a prerrogativa de fiscalizar, não pode estar correta. Não vamos admitir nenhum tipo de chantagem ou interesses políticos eleitoreiros que tentam ofuscar a beleza da maior, mais tranqüila e segura festa popular e democrática da história de Fortaleza. Isso é apenas um sinal de que a campanha de 2008 já começou”. - Luizianne Lins (PT), sobre as denúncias de gastos elevados com a festa de reveillon, em resposta ao jornalista Fábio Campos, do O Povo.

As afirmações da prefeita nada explicam. Nem sequer entram no mérito da questão. A administração municipal ficou acuada com um simples questionamento. Afinal, como foi gasto o dinheiro do reveillon? Na falta de respostas convincentes, o Ministério Público deve agir. Assim espero. Reveladora mesmo, é a maneira como a prefeita argumenta. É notória a manifestação de uma disposição autoritária. Reparem que Luizianne afirma que a oposição é contra a “administração do povo de Fortaleza”. O velho eles, a elite, contra nós, o povo. O poder pode até emanar do povo, mas a responsabilidade é do gestor eleito e das instituições. Em certas situações, o pudor e a compostura são obrigações inerentes à posição que se ocupa.

Um “certo senador” trama às escondidas com vereadores? A informação não esclarece sobre os gastos mencionados. Parece fofoca. Quando e onde? Além do mais, numa democracia, reunião de opositores não é trama, nem crime, nem sujeira. É trabalho. Se as cobranças feitas pelos adversários são descabidas e desleais, a melhor forma de desmoralizá-los é demonstrando, com a máxima transparência, a natureza dos fatos. Simples. De outro modo, fica o dito pelo não dito. E vale lembrar que as denúncias tem por base os dados oficiais do Diário Oficial. Mas voltemos. Chantagem visando as eleições? Chantagem é crime que, para se eficaz, necessita de um segredo comprometedor. Supondo que não haja nada a ser escondido, a polícia deveria ser acionada. Portanto, dadas as circunstâncias, seria melhor não usar essa palavra.
***

Um estadista vê na ação da oposição, algo natural, necessário, e responderia as indagações dos vereadores com presteza. Nada havendo de errado, o caso se transformaria num atestado de idoneidade valioso. Um democrata autêntico diria: “A oposição faz o seu dever de fiscalizar as ações do executivo. Da nossa parte, não há problemas em relação a isso, tanto que estaremos divulgando toda a documentação pertinente ao episódio, com os devidos recibos, notas fiscais e assinaturas”. A não ser que tais documentos fossem, hipoteticamente, secretos e impublicáveis, podendo vir a ser até motivo de… chantagem. Aí o negócio então seria mesmo espernear e gritar contra o mensageiro, para que a mensagem seja esquecida.

Maioridade penal: um debate que não pode ser interditado

Continuando o post abaixo, ainda sobre a maioridade penal, o jornal O Povo publicou, no último sábado, um artigo do senador Tasso Jereissati (PSDB) que alerta para a necessidade do debate franco e responsável. Diz Tasso:

“O que não se justifica é o medo de debater questões tais como: o que fazer com os adolescentes que praticam crimes bárbaros e que, seja pela fragilidade da lei, deficiências do judiciário ou falta de implementação das diretrizes do Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA), não recebem a punição adequada”.

“É claro que temos que dar toda a proteção à criança, inclusive os limites adequados para que ela não se estimule ao crime. E cabe ao Congresso debater as alternativas com serenidade, mas sem medo de patrulhamento”.

Pois é. A patrulha está atenta para rotular de insensível quem quer que ouse questionar os seus dogmas politicamente corretos. É sintomático que o senador venha à público reclamar o democrático direito ao debate. Assim como no referendo sobre as armas, existem pessoas preocupadas e sinceras com opinões divergentes.

A maioridade penal e a generalização da culpa

Se todos somos culpados, então niguém é inocente. Num mundo assim, a autoridade moral para combater o crime é nula, e a intenção de proibir a ação dos indivíduos violentos, uma injustiça.

A questão sobre a maioridade penal no Brasil continua em pauta. De um lado, os que defendem a sua redução, do outro, os que desejam que tudo fique como está na legislação. A coluna Comunicado, do Diário do Nordeste de hoje, volta ao assunto.

“Falhamos: ‘Está estabelecido na Constituição que a rede de proteção à criança é responsabilidade de todos nós, da família, do Estado, da sociedade. Isso não é cumprido. Falhamos. Digo com vergonha, mas sem medo de errar’.”

As intenções da senadora Patrícia Saboya certamente são boas. Este Blog já elogiou o seu trabalho na defesa dos interesses do Ceará mais de uma vez. No entanto, a declaração da parlamentar é por demais genérica. Dá margem para que qualquer gestor público diga que não pode fazer nada, que somente no futuro as coisas irão se ajeitar. Se assemelha às análises sociológicas das nossas universidades, mas é irrelevante do ponto de vista operacional. Segurança pública é dever do Estado, e socializar a culpa dificulta a cobrança de responsabilidades, um dos deveres do Senado.

O perfil ideológico de Patrícia autoriza esse tipo de pensamento, e isso é legítimo. Eu, por exemplo, não me incluo entre os que “falharam”. Objetivamente, a minha parte eu faço. Trabalho, pago meus impostos, educo minha filha, não cometo violência contra ninguém. Em caso de litígio, recorro à mediação da Justiça. Agora, se aqueles que são responsáveis por reverter minha contribuição em benefício geral não o fazem, se em vez disso priorizam outras atividades ou praticam corrupção, devem eles responder por isso. Eles.

Problemas técnicos

Durante todo o último final de semana o Blog não pôde ser atualizado por conta de problemas técnicos no acesso à rede. Tudo resolvido, vamos em frente.

Malandragem: devedor cobra credor

Jornal O Povo:
O deputado federal José Guimarães (PT), criticou a ação dos colegas do Estado [os deputados da comissão suprapartidária pela siderúrgica]. Segundo ele, atirar para todo lado, tentando em um momento reunião com a Petrobras e depois com o governo federal, não ajuda em nada. “Tem que ter uma ação conjunta, unir forças. Não adianta me ligar pedindo uma audiência com a Petrobras se já tem uma com o governo naquele dia”, destacou. Guimarães também atacou os investidores por tentarem impor um prazo. “Investidor não tem que dar prazo não. Isso é balela. O governo não pode agir sob pressão da iniciativa privada. Quem mais tem interesse na siderúrgica são eles que terão os maiores lucros”, disparou. Clique aqui para ler o texto completo.

O trabalho da base de apoio a Lula no Ceará consiste em dar ares de questão técnica, ou de arranjo parlamentar, ao estelionato eleitoral perpetrado pelo PT nas eleições presidenciais. Reparem no texto da matéria reproduzida acima: as obrigações do presidente viraram uma “luta” de todos. A viabilização da siderúrgica depende exclusivamente da vontade política e da ação executiva do governo federal, assim como foi no caso do gás da Bolívia. Não foram o ministro ou o presidente da Petroras que pediram votos aos cearenses. Foi Lula, o chefão, que veio aqui prometer a siderúrgica mais de uma vez. O filho é dele.

Mas a opereta não para por aí. O deputado José Nobre Guimarães agora acusa seus os colegas da comissão de atrapalhar, e os investidores, que, segundo ele, só querem lucro em vez de prejuízo. Na visão dele, esses inescrupulosos capitalistas querem definir um prazo para poder planejar os investimentos que farão. Em vez de dar explicações, ou de se desculpar, Guimarães faz cobranças. Esse senhor foi o único deputado estadual do país implicado pela Procuradoria Geral da República no caso do mensalão. É o mesmo cujo assessor foi preso com a cueca rechada de dólares. É o mesmo que confessou, no plenário da Assembléia, que operou um caixa 2 abastecido com dinheiro do valerioduto, alegando ainda, como defesa, não ter enriquecido quado fraudou as eleições. Guimarães é a face expressa do petismo no poder. São muitos o que não o merecem como companheiro.

E para completar a inversão de responsabilidades, o deputado sentencia: “Quem mais tem interesse na siderúrgica são eles que terão os maiores lucros”, como se isso fosse ilegtimo ou criminoso. O interesse maior deveria ser do presidente Lula, que garantiu viabilizar o projeto. Deveria ser de Guimarães, em nome da palavra empenhada conjuntamente por ele, pelo seu partido e por seus aliados. O interesse maior também é do Ceará, que necessita de investimentos como nunca para gerar emprego. O interesse é do eleitor que deseja ser respeitado. Mas Guimarães é governista e não desiste nunca. Em breve vai tecer comentários sobre as desvantagens da siderúrgica. Anotem: ainda vão dizer que a não implantação da siderúrgica no Ceará salvou o nosso ecossistema. E que por isso Lula é um herói.

Siderúrgica: comissão suprapartidária quer socializar o ônus da farsa

Na hora de pedir votos, a base aliada de Lula no Ceará reforçou a imagem de parceria promissora. Na hora de cumprir o que prometeu, ou de não cumprir, como é o caso da siderúrgica, convoca a oposição para ajudar a disfrçar.

Diário do Nordeste desta sexta:
“Deputados cobram audiência no Planalto - Os senadores cearenses Inácio Arruda (PC do B), Patrícia Saboya (PSB) e Tasso Jereissati (PSDB) foram acionados pelos deputados estaduais cearenses para, juntamente com os deputados federais garantirem uma audiência com a ministra da Casa Civil da Presidência da República, Dilma Roussef. É a primeira movimentação da comissão suprapartidária em defesa da siderúrgia para o Ceará. Domingos Filho (PMDB), presidente da Assembléia Legislativa, conversou na manhã de ontem com os senadores Inácio e Patrícia e pediu ao deputado João Jaime (PSDB) que fosse o intermediário da Assembléia junto ao senador Tasso Jereissati. Segundo ele, a comitiva vai cobrar que o presidente Lula cumpra o prometido em campanha e em discurso no município de Crateús.” Para ler a matéria completa, clique aqui.

Quem foi eleito garantindo que a parceria com Lula daria resultados maravilhosos? Quem pediu votos para Lula? Inácio Arruda, Cid Gomes e a patota da cueca do PT. Eles que tratem de explicar o calote eleitoral que deram nos cearenses. Essa comissão suprapartidária serve somente aos interesses da base aliada de Lula no Ceará, e não ao Estado. É manobra diversionista para ganhar tempo e diluir responsabilidades, é uma forma de socializar entre os parlamentares de todos os partidos, o ônus da farsa que os governistas motaram para angariar votos. Lembram da imagens da siderúrgica funcionando no programa eleitoral do PT?

A oposição não pode aceitar fazer parte desse teatro, receosa de ser acusada de não ter feito nada. PSDB, PPS, PFL ou PDT não precisam de convite para criticar o governo, pois esse é o seu dever natural. Participar da tal comissão é fazer o jogo da inversão das obrigações assumidas pelos governistas, que no final, irão responsabilizar a oposição de sempre. É passar a tênue fronteira que separa a inapetência da pusilanimidade. Não há o que o senador Tasso Jereissati e os demais parlamentares da oposição possam fazer, a não ser denunciar a impostura. Os investimentos em infra-estrutura não vieram no primeiro governo Lula e tudo indica que não virão agora, e os interlocutores do governo federal no Ceará sequer são recebidos pela ministra Dilma Roussef. Cid Gomes, na condição de gestor do Executivo, não deve mesmo se expôr, pois necessita manter diálogo institucional com Brasília. Mas se o PT e o senador Inácio (o senador do Lula, na campanha), e seus aliados parlamentares quisessem mesmo agir, deveriam comunicar ao presidente que, caso a siderúrgica não venha, eles serão obrigados a informar aos seus eleitores que também foram enganados.

Quando a convicção e a conveniência andam de mãos dadas

Nas democracias modernas, uma das funções dos códigos legislativos é justamente o de delimitar o poder do Estado, preservando os direitos individuais. Mas existem ideologias que não concordam com essa idéia.

Na edição de ontem, bem como na de hoje, a coluna Política, escrita por Fábio Campos no jornal O Povo, trata de um assunto que pode ser revelador quanto aos procedimentos operacionais da coligação que hoje está no comando do governo estadual. Diz o jornalista:
“A indicação [do ex-deputado Mário Mamede para a Escola de Saúde Pública -ESP] se concretizou após o governador Cid Gomes (PSB) baixar um decreto que mudou os critérios de ocupação do cargo. Antes, era preciso possuir mestrado ou doutorado. Além disso, havia uma lista tríplice, formada pelo Conselho da ESP, que era submetida ao governador. O decreto baixado por Cid para encaixar Mamede determina que é necessário apenas uma especialização. O decreto também extinguiu a lista tríplice.”

A referida coluna analisa a possibilidade de casuísmo na mudança da lei. Mas a questão engloba outros aspectos menos visíveis num primeiro instante. Geralmente, problemas que envolvem essas listas tríplices terminam chamando a atenção do público quando as galerias da Assembléia Legislativa são tomadas por servidores indignados com tal dispositivo. Curiosamente, as reações hoje se restrigem a comentários de jornal.

Em 2005, por exemplo, o ex-governador Lúcio Alcântara (PSDB) foi duramente criticado por não ter nomeado o primeiro colocado de uma lista tríplice para o cargo de defensor-geral do estado, embora essa fosse uma prerrogativa grantida por lei. A oposição alardeava o autoritarismo do governo e clamava por democracia. O apoio de sindicalistas dava ao expediente ares de luta justa e desinteressada, disfarçando a verdadeira origem daquelas ações, que é a tradição do pensamento esquerdista de ver a lei produzida por um parlamento representativo como empecilho, como obstáculo, opressão imposta pela democracia burguesa. Na verdade, os instrumentos de limitação e de fiscalização do poder estatal (especialmente das ações do Executivo) sempre foram desprezados por essa turma.

Não digo que o governador Cid Gomes (PSB) partilhe essa concepção, mas parece que isso, nesse momento, lhe interessa. Em certos momentos, a conveniência de uns pode caminhar com as convicções de outros.

Agora, imaginem se um governador tucano propusesse alterações na legislação que beneficiassem amigos seus. O mundo viria abaixo. Quantos artigos não lotariam as páginas dos jornais. Até agora, ninguém veio pedir respeito ao Conselho da ESP, ou defender o nome mais votado da lista. Parece que isso é coisa do passado. É importante dizer: os esquerdistas nunca quiseram mais democracia, querem é enfraquecê-la para substituir processos definidos legalmente por nomeações diretas. Consideram o aparelhamento da máquina algo moralmente justificável. Por isso se mobilizaram naquela época, e é por isso que ficam caladinhos agora.

PS. Via de regra, um ou dois companheiros vão reclamar, dizer que está errado, que irão questionar o governador, fazendo o peculiar movimento pendular que esvazia o discurso da oposição. Mas disso não passa.

"Depois do Carnaval"

Cecília Meireles, autora de Depois do Carnaval. “Mas, agora que o Carnaval passou, que vamos fazer de tantos quilos de miçangas, de tantos olhos faraônicos, de tantas coroas superpostas, de tantas plumas, leques, sombrinhas…? (…) Mas os homens gostam da ilusão.”


Durante o carnaval o blog deixou a política um pouco de lado e se dedicou a outras questões, como cultura e cinema. Um descanso. Mas agora refaço a pergunta de Cecília Meireles: “Que vamos fazer de tantos quilos de miçangas?”. Não sou contra o carnaval, embora não me anime com a quadra. Os problemas do Brasil não seriam resolvidos, nem agravados, com a ausência do carnaval. Acho-o mesmo inócuo, sem efeito prático, porém revelador de um estado de espírito. Quando a festa expressa uma tradição, ou uma alegria genuína, como nos tempos de Chiquinha Gonzaga, é bom. Mas quando se torna simples apologia do hedonismo inconsequente, ou a celebração da fuga dos deveres, dos problemas ou da realidade, como parece ser hoje em dia, é preocupante.

Dica de filme: Dogville

Uma jovem estranha de nome Grace, sozinha e perdida, chega assustada a uma minúscula cidade no interior dos EUA, nos anos 30. Seu passado misterioso se resume à informação de que ela foge desesperadamente de gângsters violentos. Os moradores do vilarejo Dogville aceitam escondê-la. No início, a bela mulher é recebida com generosidade e sua obstinada fé na bondade humana a consola. No entanto, seu medo de perder a confiança daquela comunidade a faz vulnerável e submissa, e com o tempo ela se transforma em objeto de exploração e maltratos.

Esse é um pequeno resumo do filme Dogville, dirigido pelo polêmico Lars Von Trie, com uma interpretação convincente de Nicole Kidman, que faz o papel de Grace. Uma atração à parte é a ausência de elementos cênicos na trama. As ruas da cidade são representadas por uma planta baixa desenhada no chão; as casas não têm paredes, nem portas; as árvores são indicadas por nomes. O cenário de Dogville se restringe a móveis, lembrando um imenso palco de teatro. O efeito dessa opção é forte. As formas e as aparências são subtraídas e a essência dos personagens aflora com mais vigor, justamente o contrário do que ocorre nas festas de carnaval, por exemplo, onde a exuberância dos aspectos externos tendem a disfarçar sentimentos.

Dogville fala do dualismo antagônico sujacente à relação sociedade e indivíduo, e da índole supostamente boa das pessoas simples. Muitos críticos exergaram no filme um exame depreciativo do capitalismo, o que é um despropósito, pois é uma análise da natureza humana. A história revela que a opressão e a exploração são elementos da alma humana que se mostram até em comunidades compostas apenas de miseráveis. O final é arrebatador e ao mesmo tempo constrangedor, por despertar no espectador o desejo de vingança e a vontade de aceitar que a justiça pode e deve ser feita com as próprias mãos.

Carnaval e relativismo cultural

Carnaval: festa rudimentar elevada à condição de arte. Obra do ideário relativista, segundo o qual Chopin, Villa-Lobos, Durval Lelis e Carlinhos Brown, são músicos de igual valor. Tudo se resume a uma questão de gosto.

Como a regra no mundo de hoje é o relativismo que iguala o bom ao ruim, o belo ao tosco, o especial ao vulgar, podemos dizer que o carnaval é uma expressão superior da cultura como se essa fosse uma verdade auto-evidente. Não falo do aspecto moral da festa - que é bem discutível - , mas da sua concepção estética. Experimente dizer a uma platéia formada de sociológos, antropólogos, psicólogos, progressistas e aspirantes a intelectuais em geral, que o carnaval é um fenômeno primitivo, ou que as letras das músicas carnavalescas são pobres e incompreensíveis, e você correrá o risco de ser considerado um terrível conservador elitista que despreza as origens do povo. Afinal, segundo o dogma relativista, questão de gosto não se discute. O ápice da apoteose momesca no Brasil é o desfile das escolas de samba do deflagrado Rio de Janeiro, com ampla cobertura de mídia, dinheiro abundante e sucesso de público. Pois bem. Pesquisei na internet as músicas desse evento grandioso, que tão bem expressa a maturidade do nosso povo alegre e pacífico, trabalhador e inteligente. Eis algumas amostras do que encontrei.

BEIJA-FLOR - "Do Berço Real à Corte Brasiliana"Olodumarê, o deus maior, o rei senhorOlorum derrama a sua alteza na Beija-florOh! Majestade negra, oh! mãe da liberdadeÁfrica: o baobá da vida ilê ifé (...)Um canto pro meu orixá tem magiaMachado de Xangô, cajado de OxaláOgun yê, o Onirê, ele é odaraÉ Jeje, é Jeje, é QuerebentãA luz que bem de Daomé, reino de Dan ESTÁCIO DE SÁ - "O Ti Ti Ti do Spoti"(...) D. João achou bomDepois que o sapoti saboreouDeu pra Dona LeopoldinaA Corte se empapuçou (...)E hoje no quintal da vida sou criançaMe dá que o sapoti é meu

IMPERATRIZ - "Teresinhaaa, uhuhuuu!!! Vocês querembacalhau?"(...)Que maravilha o Chacrinha imaginouNo fom fom da sua buzinaUma geração emocionou (...)(...)O choque do gelo do norteCom o fogo ardente do sulImir sonhou, suou e surge a vidaE a Noruega, amanheceu em florMonstros gigantes, raios, vulcõesVikings dos mares (...)SALGUEIRO - "Majestosa África"(...)Odoyá Iemanjá; Saluba Nanã!Eparrei OyáOrayê Yêo, Oxum!Oba Xi Obá 

Charge

Hoje é carnaval no Brasil - por Silvino, no Charge Online

Maioridade penal: agressores vistos como vítimas?

Rousseau - o suíço autor da tese do “Bom Selvagem”, baseado num conceito do século XVIII, segundo o qual o homem é originalmente bom e perfeito, sendo corrompido pelos erros sociais. Dessa forma, somente um trabalho crítico na estrutura da sociedade poderia resgatá-lo. Em nome dessa transformação revoluções foram feitas e ditaduras se instalaram. Muitos ainda se imaginam portadores dessa incumbência. O problema é que estamos no século XXI.

Os jornais estão cheios de artigos condenando a redução da maioridade penal para 16 anos. Os progressistas bacanas, cheios de amor e compreensão, dizem que tal medida de nada adianta. O governo federal, uma das partes responsáveis pela ausência de segurança pública no país, já se manifestou contra a redução, e trata de continuar fazendo de conta que não tem nada a ver com a questão. Outros cidadãos, mais assustados, e logo rotulados de conservadores insensíveis pela patrulha ideológica da esquerda, acreditam que é perfeitamente possível um sujeito de 16 anos saber o que está fazendo - tanto que pode votar - sendo assim responsável pelos seus atos. Com efeito, qual a diferença entre uma pessoa com 18 anos e uma com 16?

Ora, realmente a dinimuição da maioridade penal não vai resolver o problema da violência, isso é óbvio, mas dizer que a medida não serve de nada é piada. Trata-se de uma ação complementar, uma contribuição do poder Legislativo. Pergunte a um traficante de drogas, e ele responderá que é contra, pois esses jovens, protegidos pela lei, são os seus melhores vendedores.

É repugnante ver gente defendendo bandidos, tratando-os como vítimas, perdoando-lhes os crimes. Claro que esses ainda não foram vítimas de jovens drogados que assaltam, estupram, torturtam e matam. É fácil desculpar e compreender quando não se é ofendido. No Brasil, os “progressistas” querem que tudo fique como está, e os “conservadores ” querem mudar a lei. Eis o nosso estado mental atual, cheio de si e ao mesmo tempo impotente.

Idiotices politicamente corretas

Nelson Rodrigues: “Toda unanimidade é burra”. Às vezes, a burrice não precisa ser unânime, basta ser hegemônica.

Da Folha Online

“O presidente Luiz Inácio Lula da Silva criticou a proposta de redução da maioridade penal, que tramita no Congresso. O projeto voltou a ser discutido no Senado após a morte do menino João Hélio Fernandes Vieites, 6, arrastado por um percurso de 7 km em Osvaldo Cruz, na zona norte do Rio. Entre os criminosos havia um menor de 18 anos.

Eu fico imaginando que se a gente aceitar a diminuição da maioridade penal para 16 anos, amanhã estarão pedindo para 15 [anos], depois para 10 [anos] e depois para 9 [anos]. Quem sabe um dia queiram [culpar] até o feto se souberem o que pode acontecer no futuro’, afirmou ele hoje em São Paulo após participar da inauguração de um call center da Atento.”

Já repararam que para todo problema social existe uma solução que todos conhecem e com qual a maioria concorda? Como se uma sabedoria telúrica cobrisse a todos? Curiosmente, apesar do sucesso de público, tais diagnósticos não produzem resultados concretos. Todos admitem o problema, a maioria concorda com as causas e com as fórmulas prontas, e ainda assim nada muda. Acontece que, para essas questões, quando não existem divergências significa que algo está errado.

O que vai acima é a pura expressão do progressismo politicamente correto que adora substituir o enfrentamento dos problemas por discursos de auto-ajuda, e que tomou conta do debate público. Nesse caso, serve ainda para transferir o ônus de ser governo para terceiros. Ora o problema é o Legislativo ou o Judiciário, ora é a economia ou mesmo a história. A defesa de um adolescente sociopata que não vacila na hora de esfolar uma criança é mais do que o presidente Lula falando bobagens; é a explicitação do fato de que já não somos mais capazes de discernir entre o certo e o errado. Cadê o combate ao crime organizado? Cadê desmantelamento do tráfico de armas e de drogas? Os anos de hegemonia cultural (ver o teórico comunista Antônio Gramsci) das esquerdas nas escolas brasileiras anestesiaram por completo a consciência nacional sobre o papel do indivíduo na sociedade. Marcola e Fernandinho Beira-Mar, de acordo com essa concepção, são doces criaturas que se peverteram por conta do capitalismo e, claro, pelo azar de terem nascido antes de Lula ser o presidente.

Agora reparem o final:

“Nós não conseguimos alfabetizar no tempo certo, não conseguimos fazer a reforma agrária no tempo certo.”

Pois é. Então não tem jeito no presente. Só no futuro incerto. Essa é a essência da mistificação comunista: negar os erros e justificar os próprios fracassos vendendo o porvir da felicidade.

Cumprimento das leis: o exemplo vem de cima

O assunto da moda agora é mudar a legislação para acabar com a violência e o crime de uma canetada só. Ótimo, as coisas podem e devem ser aprimoradas, tudo bem, nada contra. Mas, convenhamos, o problema no Brasil é o não cumprimento da legislação, que gera impunidade. Relembrando: os mensaleiros foram reeleitos, Palloci conseguiu imunidade e por isso não está na cadeia, Lula foi eleito com dinheiro sujo, conforme a confissão do seu marqueteiro Duda Mendonça, Valdomiro Diniz sumiu, e a ciosa Polícia Federal não descobriu nem descobrirá de onde veio o dinheiro do dossiê fajuto e dos dólares da cueca. Como dizer a um “adolescente desprotegido” que fumar maconha é errado? Uma república democrática tem como instrumento normativo máximo a constituição, e todos - t o d o s - devem cumprí-la. No entanto… Vejam essas acintosas declarações do presidente Lula, transcritas no blog do Reinaldo Azevedo.

“Reconheço a justeza de todos os pleitos bolivianos”. “Eu não esqueço que somos chefes de Estado de países soberanos, que precisamos agir como chefes de Estado, cada um em defesa de seu país; mas, antes de ser presidente da República, tu, na Bolívia, e eu, aqui no Brasil, nós éramos companheiros no movimento sindical, e não podemos permitir que essa nossa primeira relação seja diminuída porque hoje somos presidentes”.

Entenderam? O presidente da Bolívia - país apto a produzir apenas artesanato - Evo Morales, ordenou a expropriação (roubo) das instalações da Petrobrás naquele país, que eram investimentos legais feitos com o dinheiro dos contribuintes brasileiros, gerando emprego e transferindo tecnologia para os nossos vizinhos. Não satisfeito, Morales impôs ao Brasil um aumento de preço no gás à revelia dos contratos assinados. E qual a nossa reação? Foi a que vimos acima. Diferentemente das privatizações, onde os interessados compram por um preço fixado, investem na ampliação dos serviços e pagam impostos, a agressão de Morales e a pusilanimidade de Lula é que configuram entreguismo. Em nome da soberania da Bolívia, Lula confessa, publicamente, que interesses anteriores e alheios à sua condição de Chefe da Nação orientam o seu governo. As ações de Estado, portanto, se submetem às ações políticas de companheiros. Por lei, a incumbência da defesa dos interesses nacionais é do Presidente da República, que não podem ser definidos por considerações de natureza particular. Mas no Brasil, a lei, para alguns, é apenas um detalhe.

A América Latina, sob a liderança dos bons companheiros Fidel, Chavez e Lula, caminha na contramão da história. Estatização, falta de investimentos, corrupção, enfraquecimento das instituições democráticas, redes de assistencialismo populistas, ineficiência econômica, tudo isso é o prelúdio de um tempo de autoritarismo e mais pobreza.

Para terminar, leiam o comentário de Azevedo.

“Se vocês querem ter uma dimensão do tamanho e da importância do Brasil no mundo, peço que façam um exercício: imaginem um presidente americano, qualquer um, que dissesse dever mais fidelidade à sua condição anterior do que à Presidência da República. No dia seguinte, o Congresso proporia uma moção de impeachment. E ele iria pra casa. No Brasil, faremos o quê?”.

Viramos a Colombiela - soma de Colômbia com Venezuela

Foto de um narcoguerrilheiro marxista das FARC - Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia. Sequestros, tráfico de drogas e armas, assassinatos, guerrilhas e muito dinheiro no bolso: tudo em nome da igualdade social.

Notícia da Folhapresss, publicada pelo jornal O Povo.
O presidente Lula pediu a líderes de sua base no Congresso que tentassem impedir a redução da maioridade penal. Para ele, essa medida poderia “desproteger os adolescentes” e não resolveria o problema da violência.

***

Alguém já viu a legislação sair à rua e prender criminosos? Óbvio que não, pois para isso são necessárias ações concretas, é preciso gestão operacional, papel do poder Executivo. As leis são matéria dos poderes Legislativo e Judiciário. Lula, da mesma forma que taxistas e barbeiros, gosta de opinar sobre qualquer assunto. A diferença é que um presidente da república é o responsável pelo encaminhamento das soluções que afligem a sociedade. Não pode se portar como mero expectador. A onda de crimes que assola o país, desafia o Estado, controla espaços públicos, intimida autoridades e cidadãos comuns, tem uma raiz evidente: o crime organizado responsável pelo tráfico de drogas. Cabe ao governo federal combatê-lo, controlando as fronteiras, rastreando os financiamentos ilegais, descontengiciando o orçamento para a segurança, construindo presídios de segurança máxima etc. Mas, como isso não acontece, o negócio é ficar desviando o assunto para o desmoralizado Congresso Nacional.

***

A questão também encerra um viés ideológico. O presidente tem o direito de achar que “adolescentes desprotegidos” arrastam crianças pelas ruas amarradas em carros porque não sabem o que estão fazendo, ou porque foram induzidos ao crime pela sociedade, magicmente privados de qualquer livre-arbítrio. A idéia subjacente é que criminosos são vítimas do sistema. Eu não concordo - existem pessoas pobres e sofridas que resolvem, por motivos insondáveis para alguns, estudar e trabalhar honestamente. Um marmanjo de 16 anos sabe muito bem o que é certo e o que é errado, e as condições de vida desse indivíduo podem atenuar ou agravar os seus atos, mas não isentá-lo de responsabilidade. O indivíduo precede o social. Existe crime no Brasil? Sim, em doses alarmantes. Mas se isso é excusivamente um problema social, repressão e leis duras não adiantam. Foi pensando assim que chagamos a esse ponto.

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O Brasil hoje virou uma Colombiela, a triste soma dos defeitos da Colômbia - a consolidação de um poder paralelo chefiado pelo crime organizado - e da Venezuela - um discurso socialista atrasado, de meados do século passado. O resultado é que nem diminuímos a violência, nem resolvemos os problemas sociais. Mas todos posam de progressistas bacanas.

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