A eleição de Chinaglia e a concentração de poder

A mão que segura o poder quer e atrai mais poder. Por isso o sistema estabeleceu limites como o mandato por tempo determinado e a divisão dos poderes. Sem isso, tudo parece ao seu alcançe e ao seu dispor. E assim, a democracia vai definhando.

Jornal O Povo
O governador do Ceará, Cid Gomes (PSB), reforçou ontem as críticas do deputado Aldo Rebelo (PCdoB-SP), que considerou um erro o PT lutar pela presidência da Casa Legislativa porque isso representa uma “concentração de poder” nas mãos do partido. “Defendi a candidatura do Aldo justamente por isso (…)”, disse. Texto completo

O governador Cid Gomes e o deputado Aldo Rebelo (PCdoB) apóiam o governo Lula. Por ocasião da eleição para a presidência da Câmara, votaram contra o candidato do PT, Arlindo Chinaglia, que no final, foi eleito. De modo geral, os jornais de hoje falam em crise na oposição e na base aliada. A maioria erra por precipitação, e acabam repetindo o discurso que interessa ao Planalto.

Subserviência
O candidato Aldo cobrava pelos serviços que prestou ao governo, e esperava o devido reconhecimento. Ele perdeu, mas continua na base de sustentação de quem o traiu (comunista é bom nisso – Carlos Prestes apoiou Getúlio Vargas que entregou sua mulher, a espiã soviética Olga Benário, aos nazistas). Rebelo aprendeu que a prática da subserviência não autoriza ninguém a exigir respeito. O governo agora vai tratar de recompensar seus burros de carga com o feno das verbas oficiais, de modo semelhante ao que fazia o romano Marco Antônio com o general Lépido (leiam Júlio César, de Shakespeare). No final, o governo consolida o próprio poder na mão de um correliogionário e ainda mantém uma maioria folgada para aprovar, quem sabe?, o projeto da re-releição de Lula.

No Ceará
E quanto a Cid? O deputado Domingos Filho (PMDB) foi eleito presidente da Assembléia Legislativa do Ceará por aclamação. Significa dizer que não existe oposição no parlamento estadual. O objetivo legítimo do político é a luta para a obtenção do poder. Por isso o sistema democrático criou certos limites, como o mandato com tempo determinado e a divisão dos poderes. O governador se mostra preocupado com a concentração de poder nas mãos de um só partido em Brasília. Eu também, principalmente de um partido gramscista, como é o PT. Mas tão grave quanto isso é a concentração excessiva de poder nas mãos do executivo.

A oposição, fraquinha, ainda respira
A oposição iria apoiar o governista Aldo contra o governista Arlindo. Alguns queriam votar mesmo em Chinaglia! Um desastre. Um grupo de parlamentares – a Terceira Via – optou por uma candidatura alternativa, representada por Gustavo Fruet (PSDB). Perderam, como era de se esperar. Isso quer dizer crise? Não, pelo contrário. A oposição demonstra que mesmo com as dificuldades de sempre ainda existe para, pelo menos, marcar posição. Claro que muito ditos oposicionistas votaram com o governo, mas não foram capaz, como tentaram, de submeter suas siglas ao adesismo automático, mais um passo rumo à transformação da democracia brasileira num simulacro no estilo chavista. Não é muito, mas poderia ser pior.

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