Anistia virou eufemismo para Certificado de Impunidade ou Permissão para Corromper
O fictício agente-secreto inglês James Bond, o 007, tem permissão para matar. Na trama, para defender o país e a Rainha, Bond pode agir acima das leis que vigoram para os demais cidadãos. Alguns parlamentares brasileiros imaginam ser como ele. A diferença é que James Bond é incorruptível, justamente a regra que os nossos representantes querem ferir. Eles querem permissão para corromper e serem corrompidos.
Cezar Britto, presidente nacional da OAB (Ordem dos Advogados do Brasil), afirmou nesta segunda-feira (05.02) que a população vai repudiar qualquer tentativa de conceder anistia política aos envolvidos no escândalo do mensalão. O recado foi claramente dirigido ao deputado cassado José Dirceu, que vê na eleição de Arlindo Chinaglia (PT-SP) para a presidência da Câmara uma oportunidade para reaver seus direitos políticos.
“Uma medida dessas (…) representaria (…) um retrocesso inaceitável para a cidadania, que condenou expressamente o esquema de cooptação conhecido como mensalão”, afirmou Britto. “(…) Anistiar e não punir mensaleiros são erros que se equivalem (…). O Brasil não merece a reprise do dramalhão político que pautou o parlamento em tempos tão recentes”, arrematou.
A crítica de Cezar Britto acerta ao repudiar mais essa pizza, mas escorrega em dois pontos. Primeiro, o uso da palavra “anistia” serve aos propósitos de José Dirceu, cassado num processo político legal e legítimo, em plena vigência democrática. O ex-deputado busca reconstruir sua imagem de “perseguido”, de vítima de um processo truculento e autoritário. Quer refazer a própria mística. E o pior é que o termo emplacou na imprensa. Por isso faço um alerta: toda vez que você ouvir ou ler a palavra”anistia” para Dirceu e mensaleiros, substitua pela expressão Permissão para Corromper ou Certificado de Impunidade. O segundo erro é reportar todo o escândalo do mensalão para o parlamento. Não custa lembrar que não pode existir corrompido sem corruptor, e que o caso é mais grave quando o corruptor usa dinheiro público para obter vantagens. Na verdade, o “dramalhão político que pautou o parlamento” deveria ser chamado pelo que é, um golpe contra a democracia.
Dirceu opera de forma eficiente, e até as críticas que fazem a ele, em sua maioria, estão contaminadas com o viés que lhe interessa. Vai ser “anistiado”, ou melhor, premiado pelos serviços que prestou. Depois é lutar pelo terceiro mandato de Lula, tudo em nome da democracia.