O Ovo da Serpente

O filme O Ovo da Serpente (Das schlangenei), 1977, do suéco Ingmar Bergman, é um clássico do cinema mundial. Bem observada, a trama não se resume à denúncia das origens do nazismo. Na verdade, a experiência alemã serve de base para uma reflexão bem mais profunda: os regimes de excessão, baseados na administração das frustações e do ódio, não são criados da noite para o dia, pelo contrário, são gestacionados com técnica e persistênca. Seus discursos precisam ser testados ao limite, para depois serem legitimados, são formas de experimentar e preparar a aceitação de parâmetros ideológicos que justifiquem agressões à democracia.

O presidente Lula afirmou que refuta a idéia de um terceiro mandato seguido, mas na prática, suas declarções serviram como uma forma de suscitar o tema. Agora o seu partido fala abertamente na possibilidade. Não estranhem se, em breve, as entidades prosélitas da sociedade civil organizada pedirem um novo mandato para Lula, como se fosse um sacrifício. Nessas circunstâncias, o Congresso Nacional poderia, “sensibilizado”, alterar a constituição. Mas talvez nem isso seja necessário, como podemos ver no texto abaixo, do jornalista Fábio Campos, publicado no O Povo.

“Vejam essa: um grupo de parlamentares e líderes petistas paulistas ligados à ex-prefeita Marta Suplicy preparou um documento com 90 itens de propostas para apresentação no 3º Congresso do PT. Entre os itens, o que concede ao presidente da República o direito de convocar plebiscitos sem autorização do Legislativo. É exatamente o mesmo procedimento que permitiu a Hugo Chávez convocar um plebiscito que lhe deu a condição de disputar o terceiro mandato na Venezuela.

No Brasil, a iniciativa para convocar plebiscitos e referendos precisa ser submetida ao Congresso Nacional. Correto. É essa intermediação que o grupo petista quer eliminar. (…) A tentação autoritária da esquerda é parte da História política mundial. Até quando pegou em armas para derrubar a ditadura militar, a esquerda trabalhava a idéia de instituir outra ditadura em seu lugar. A democracia representativa, com parlamento, equilíbrio de poder e eleições livres, não estava nos planos. A idéia era a tomada do poder. A trajetória da esquerda em todo o mundo e na América Latina reforça a suspeita de que pode haver sim uma articulação para criar mecanismos que permitam a viabilização de um terceiro mandato de Lula. Por que não um quarto? Lembrem-se que a esquerda nunca atacou líderes dito comunistas sem limites de mandatos.”

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