Dica de filme: Dogville
Uma jovem estranha de nome Grace, sozinha e perdida, chega assustada a uma minúscula cidade no interior dos EUA, nos anos 30. Seu passado misterioso se resume à informação de que ela foge desesperadamente de gângsters violentos. Os moradores do vilarejo Dogville aceitam escondê-la. No início, a bela mulher é recebida com generosidade e sua obstinada fé na bondade humana a consola. No entanto, seu medo de perder a confiança daquela comunidade a faz vulnerável e submissa, e com o tempo ela se transforma em objeto de exploração e maltratos.
Esse é um pequeno resumo do filme Dogville, dirigido pelo polêmico Lars Von Trie, com uma interpretação convincente de Nicole Kidman, que faz o papel de Grace. Uma atração à parte é a ausência de elementos cênicos na trama. As ruas da cidade são representadas por uma planta baixa desenhada no chão; as casas não têm paredes, nem portas; as árvores são indicadas por nomes. O cenário de Dogville se restringe a móveis, lembrando um imenso palco de teatro. O efeito dessa opção é forte. As formas e as aparências são subtraídas e a essência dos personagens aflora com mais vigor, justamente o contrário do que ocorre nas festas de carnaval, por exemplo, onde a exuberância dos aspectos externos tendem a disfarçar sentimentos.
Dogville fala do dualismo antagônico sujacente à relação sociedade e indivíduo, e da índole supostamente boa das pessoas simples. Muitos críticos exergaram no filme um exame depreciativo do capitalismo, o que é um despropósito, pois é uma análise da natureza humana. A história revela que a opressão e a exploração são elementos da alma humana que se mostram até em comunidades compostas apenas de miseráveis. O final é arrebatador e ao mesmo tempo constrangedor, por despertar no espectador o desejo de vingança e a vontade de aceitar que a justiça pode e deve ser feita com as próprias mãos.