Questão de postura e transparência

“Essa combinação entre certo senador do Ceará, vereadores de oposição à administração do povo de Fortaleza e presidente de instituição pública que tem a prerrogativa de fiscalizar, não pode estar correta. Não vamos admitir nenhum tipo de chantagem ou interesses políticos eleitoreiros que tentam ofuscar a beleza da maior, mais tranqüila e segura festa popular e democrática da história de Fortaleza. Isso é apenas um sinal de que a campanha de 2008 já começou”. – Luizianne Lins (PT), sobre as denúncias de gastos elevados com a festa de reveillon, em resposta ao jornalista Fábio Campos, do O Povo.

As afirmações da prefeita nada explicam. Nem sequer entram no mérito da questão. A administração municipal ficou acuada com um simples questionamento. Afinal, como foi gasto o dinheiro do reveillon? Na falta de respostas convincentes, o Ministério Público deve agir. Assim espero. Reveladora mesmo, é a maneira como a prefeita argumenta. É notória a manifestação de uma disposição autoritária. Reparem que Luizianne afirma que a oposição é contra a “administração do povo de Fortaleza”. O velho eles, a elite, contra nós, o povo. O poder pode até emanar do povo, mas a responsabilidade é do gestor eleito e das instituições. Em certas situações, o pudor e a compostura são obrigações inerentes à posição que se ocupa.

Um “certo senador” trama às escondidas com vereadores? A informação não esclarece sobre os gastos mencionados. Parece fofoca. Quando e onde? Além do mais, numa democracia, reunião de opositores não é trama, nem crime, nem sujeira. É trabalho. Se as cobranças feitas pelos adversários são descabidas e desleais, a melhor forma de desmoralizá-los é demonstrando, com a máxima transparência, a natureza dos fatos. Simples. De outro modo, fica o dito pelo não dito. E vale lembrar que as denúncias tem por base os dados oficiais do Diário Oficial. Mas voltemos. Chantagem visando as eleições? Chantagem é crime que, para se eficaz, necessita de um segredo comprometedor. Supondo que não haja nada a ser escondido, a polícia deveria ser acionada. Portanto, dadas as circunstâncias, seria melhor não usar essa palavra.
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Um estadista vê na ação da oposição, algo natural, necessário, e responderia as indagações dos vereadores com presteza. Nada havendo de errado, o caso se transformaria num atestado de idoneidade valioso. Um democrata autêntico diria: “A oposição faz o seu dever de fiscalizar as ações do executivo. Da nossa parte, não há problemas em relação a isso, tanto que estaremos divulgando toda a documentação pertinente ao episódio, com os devidos recibos, notas fiscais e assinaturas”. A não ser que tais documentos fossem, hipoteticamente, secretos e impublicáveis, podendo vir a ser até motivo de… chantagem. Aí o negócio então seria mesmo espernear e gritar contra o mensageiro, para que a mensagem seja esquecida.

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