Incompetência e COLAPSO

Faltam recursos para satélites e para a Base de Alcântara. Os aeroportos brasileiros protagonizam um vexame internacional. Até agora, o maior feito do governo Lula no setor aéreo foi mandar um astronauta de carona para o espaço. Incompetência, irresponsabilidade, improvisação e desrespeito são marcas de uma administração que se jacta de ensinar como acabar com a fome mundial e como reformar o capitalismo.

Os aeroportos do país fecharam por conta da “greve” dos controladores de vôo, que durou menos de cinco horas, mas que bastou para evidenciar o colapso administrativo do governo Lula. Estão brincando com a vida das pessoas. A palavra greve vai entre aspas para ressaltar que os controladores são militares, portanto, impedidos de fazer paralisações. O nome correto para o ato é insurreição.

Reproduzo abaixo, trechos de um post publicado no blog do Reinaldo Azevedo.

Depois de seis meses de desordem, sem que o governo tivesse produzido ao menos um diagnóstico da crise, Lula cedeu à chantagem dos controladores, aceitando todas as suas reivindicações, quebrou a disciplina na Aeronáutica e levou a sindicalização para o seio das Forças Armadas (…).
(…) Lula é mesmo um prodígio. Percebam que esta é, a rigor, a primeira crise séria do seu governo que não foi causada por uma acusação de corrupção. Todas as outras tinham petistas metidos em lambança e, a rigor, eram casos tanto de política como de polícia. Desta feita, um movimento reivindicatório assume contornos que flertam com uma crise institucional. Há seis meses, a patética figura do ministro Waldir Pires, da Defesa, perambula pelos corredores de Brasília produzindo explicações e nenhuma solução. Ele foi o primeiro, é bom lembrar, a tocar no delicado assunto da “desmilitarização” do setor e a defender que se ouvissem as “lideranças”.
Sou contra a desmilitarização em meio a essa balbúrdia e já disse por quê: os céus do Brasil serão entregues à CUT — que vive a sua fase pelega porque o governo do PT. E depois? Todos sabem qual é a resposta.

Os “progressistas” que apóiam o governo dos companheiros alegam que não há fato definido para uma CPI do Apagão Aéreo, pois querem evitar investigações na Infraero. O resultado é o estabelecimento de um retrocesso embalado pela incompetência. Andamos para trás. A referência ao Apagão Energético do governo passado faz sentido pela imprevidência. A diferença é que no caso da energia, providências (amargas) foram tomadas. Hoje, passageiros e o país viram reféns. Lula ainda não culpou FCH, mas esperem um pouco mais para ver…

Charge

Charge do Clauro, no Imparcial (SP)

Música popular comparada

Braguinha: genialmente simples, popular e profundo. Autor de mensagens positivas e imagens inesquecíveis, como os “olhos sorrindo” de Carinhoso. Uma época de auto-estima elevada.

No post abaixo mostrei “letras” de duas “composições” de Marcelo D2, 40 anos de idade, ídolo dos adolescentes que fatura com a velha imagem de rebeldia juvenil. Notem que uma – vá lá – de suas canções se chama “Vai vendo”, em vez de “Veja”, como seria o correto. O uso indiscriminado do gerúndio revela uma adesão inconsciente à sintaxe da língua inglesa, em detrimento das normas do português (síntese da nossa identidade cultural). Aí a rebeldia vira uma dócil submissão. Mas o que é isso diante da luta pela liberdade de fumar maconha?

Sei. Corro o risco de parecer ranzinza ou intolerante, talvez elitista e pedante. São os riscos próprios do exercício da crítica. Quero deixar claro que não tenho nada contra as artes populares, nem espero que compositores sejam gramáticos ou maestros. Ocorre que tudo tem limite, e muitas vezes, artistas auto-intitulados populares são ruins demais. Dependendo da importância que artistas menores adquiram, podem ainda expressar um momento de apatia intelectual de uma sociedade.

Arte popular de qualidade
Ontem, dia 29, o compositor Braguinha faria 100 anos se estivesse vivo. Mesmo sem ter estudado música e sem saber tocar nenhum instrumento, ele é um dos maiores autores da Música Popular Brasileira. Vejam e comparem com Marcelo D2 (ô covardia!).

Carinhoso

Letra: Braguinha
Música: Pixinguinha e João de Barro

Meu coração
Bate feliz, quando te vê
E os meus olhos ficam sorrindo
E pelas ruas vão te seguindo
Mas mesmo assim, foges de mim
Ah! Se tu soubesses
Como sou tão carinhoso
E o muito e muito que te quero
E como é sincero o meu amor
Eu sei que tu não fugirias mais de mim

Vem, vem, vem, vem
Vem sentir o calor
Dos lábios meus
À procura dos teus
Vem matar esta paixão
Que me devora o coração
E só assim então
Serei feliz, bem feliz.

Vamos fazer silêncio, p…

Em Fortaleza, 85 outdoors que divulgavam shows dos “cantores” Marcelo D2 e Pitty, promovidos pela casa de espetáculos Siará Hall, terão que ser retirados por ordem judicial. Questões legais de regulamentação e o teor slogan “Vamos fazer barulho, porra”, que segundo a liminar da Justiça agride agrede a moral e os bons costumes, foram os motivos da proibição.

Marcelo D2 se notabilizou como defensor da liberação do uso de drogas, especialmente a maconha. É um senhor que veste bermudas de adolescente e posa de intelectual por causa de versinhos pueris. E o sujeito é tido nos programas de auditório como um pensador arguto. É o fundo do poço, é a vingança da mediocridade e da preguiça intectual contra o talento e o esforço. Duvidam? Querem ver a profundidade da poesia de D2? Respirem fundo.

Legalize Já
“Digo foda-se as leis e todas regras
Eu não me agrego a nenhuma delas
Me chamam de marginal só por fumar minha erva
Porque isso tanto os interessa
Já está provado cientificamente
o verdadeiro poder , que ela age sobre a mente
Querem nos limitar de ir mais além
É muito fácil criticar sem se informar
Se informe antes de falar e legalizem ja”

Vai vendo
“Versos à procura da batida perfeita
Eu Sei que pau que nasce torto se endireita
E eu exemplo vivo continuo na luta
Graças ao Stephan, Lurdes e Luca.
Eu Tô ligado na parada e sem crocodilagem
Safado é safado de humilde á malandragem
… Marcelo D2, boné, ou cabelo black,
não sei se o beck me fuma ou sou eu é que fumo o beck
MD2 é a sigla que vem no tag
Não sei se sigo o Rap ou é o Rap é que me serve
… Á procura da batida eu continuo rimando
Burn Baby Burn Eu continuo queimando
Saca só todo mundo que eu não vou repetir
Intelecto da rua pronto prá se divertir…
Falei que eu vivo o pesadelo do Pop
Eu sei que no Samba represento o Hip Hop”

O Haiti não é aqui

Notícia postada no blog do jornalista Eliomar de Lima:

O deputado federal José Pimentel (PT) afirmou que a CPI do Apagão seria sem sentido, porque o Ministério Público já está apurando responsáveis pelo caos no transporte aéreo. Mesmo assim, Pimentel disse que a situação confusa porque, entre alguns motivos, é “relexo do crescimento da economia” que permitiu que mais gente voasse de avião no País.

Como é que é? A taxa de crescimento do Brasil é a segunda mais baixa da América Latina, ficando a frente apenas do Haiti, e o Pimentel afirma que essa é causa do colapso aéreo. Pelo visto, para o deputado, que foi o relator da reforma da Previdência (que Lula disse jamais fazer), tamanho desempenho é uma surpresa. Fôssemos mais lentos que o Haiti - país conturbado por uma guerra civil - e os nossos aeroportos seriam uma beleza. Ou então, fosse o governo dele mais eficiente, e todos voltaríamos a andar de carroças. Definitivamente essa gente não respeita a inteligência alheia.

Nota de pesar

O jornalismo cearense está de luto. Morreu Blanchard Girão, homem lúcido, trabalhador e corajoso. Esquerdista íntegro (sim, tenho amigos entre eles), que nunca precisou justificar as “mãos sujas” de ninguém (v. peça de Sartre), e para quem o meios não justificavam os fins. Deixará saudades.

Apagão biográfico

Diário do Nordeste

O vice-presidente da República, José Alencar, disse hoje que não é favorável à instalação da Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) para investigar a crise no setor aéreo - chamada de CPI do Apagão Aéreo -, porque ela “não tem um foco”. Mas definiu como “preocupante” a situação do tráfego aéreo no País.

“É preciso que ela esteja focando alguma coisa específica e tem outros detalhes que não foram preenchidos. Daí a razão pela qual o governo não pôde aceitar alguma coisa que pudesse extravasar para outras áreas, perturbando a própria governabilidade (…)”, disse Alencar.

José Alencar é um dos homens mais ricos do Brasil. Sua vida pode servir como modelo de sucesso profissional para muita gente. Ele aceitou compor chapa com o “operário” Lula da Silva para demonstrar, na prática, que capital e trabalho podem andar de mãos dadas, conferindo efeito ao conto de fadas apresentado na propaganda eleitoral. Lula se beneficiou com a parceria ao consolidar o conteúdo da Carta aos Brasileiros, de não promover rupturas na economia. O radical “sapo barbudo” (by Leonel Brizola) se transformou, com o beijo do industrial, no príncipe dos sonhos do mercado financeiro.

Mas, e José Alencar, o que ganhou? Até agora, nada que pudesse enriquecer a própria biografia. Idoso e realizado, o poderoso empresário vive agora a defender um governo enodoado pela corrupção e ineficiência. Ocupa-se em dar desculpas esfarrapadas para o que não tem explicação. É triste. Diz que não há um ponto específico para instalar a CPI do Apagão Aéreo, indo contra todas a evidências. Mais um pouco o homem garante que não existe problema algum no sistema aeronáutico brasileiro. As filas, os passageiros amontoados, os pontos cegos dos radares, tudo isso não lhe basta. Ele reconhece que existe uma situação preocupante (sem dizer os motivos), mas conclui que investigar isso comprometeria a governabilidade. Entenderam? Resolver problemas atrapalha o governo Lula, segundo o vice-presidente. Dessa forma, o negócio é deixar como está, apesar dos colapsos que se repetem aos montes.

Não faz tempo que o programa Fantástico, da Rede Globo, mostrou que os controladores do tráfego aéreo no Brasil trabalham sobrecarregados, e que o sistema tem buracos na cobertura. Diogo Mainardi, na site da revista Veja, especulou que os deputados e os partidos que trabalharam contra a CPI serão responsáveis por eventuais acidentes que venham acontecer em razão do caos aéreo hoje instalado. Concordo. Só viajo em último caso. Pelo visto, Alencar se encarrega de criar um apagão para a sua própria imagem, tudo em nome da governabilidade.

Modelo pedagógico ultrapassado

Medo e frustração fazem de modelos antigos, categoricamente reprovados, objetos de louvação messiânica.

A seção Opinião do jornal O Povo desta sexta abre espaço para um artigo que mistura ignorância histórica, obscurantismo, esquematismo analítico e acomodação intelectual. E isso se partirmos do princípio de que o texto publicado foi escrito com boas intenções. Dramaticamente intitulado Ou a tragédia total, é assinado por Gilvan Rocha, presidente do Centro de Atividades e Estudos Políticos (Caep). Desconheço ambos, mas isso não basta para desmerecê-los, é verdade. Também não sei quais “atividades” ou “estudos políticos” são realizados pelo tal Centro, nem mesmo (isso não é informado no jornal) a profissão do autor. No entanto, baseado no mencionado artigo – cujos trechos reproduzo abaixo intercalados com comentários meus – posso afirmar que os chavões caducos apresentados nele como teoria apenas revelam ressentimento ideológico (que é diferente de debate). A cantilena vale como expressão de um pensamento bem influente e atrasado no Brasil, que deseja responsabilizar o capitalismo pelos males da alma humana, apresentando como solução o socialismo, não aquele que foi praticado no século passado, mas um outro ainda amorfo que deverá surgir no porvir, é claro. Rocha se pretende o seu arauto, ou para usar uma imagem própria dos arquétipos religiosos, um profeta do novo sistema. É sintomático que o presidente de um grupo de estudos reproduza, em jornal de grande circulação, as mesmas teses que alunos de ginásio bem adestrados repetem há pelo menos 30 anos. Nada de novo. Mais grave do que a superficialidade da análise é o fato de a mesma passar como pensamento profundo e atual. A prosa de Rocha segue em vermelho, e meus comentários em azul.

Há mais de cem anos, Frederico Engels afirmou viver a sociedade capitalista um dilema: “o socialismo ou o caos”. Quarenta anos depois, a socialista Rosa Luxemburgo disse que o dilema da sociedade capitalista era “o socialismo ou a barbárie”. Essas afirmações soavam como coisas longínquas. Hoje, não há exagero em se dizer que estamos diante de uma encruzilhada cujos caminhos são: o socialismo ou a tragédia total, pois a barbárie já está instalada.
No século XX, o mais sangrento da história, o socialismo de Engels e Luxemburgo foi responsável por cerca de 100 milhões de mortes (v. O Livro Negro do Capitalismo e Stálin – A corte do czar vermelho). Caos, barbárie, ditadura, intolerância, miséria e perseguição em níveis incomparáveis foram características comuns a todos, repito, todos os países que experimentaram a solução socialista.

A cada dia surgem mais mazelas sociais. Dentre elas, destaca-se a violência desatinada e a agressão ao meio ambiente, ameaçando frontalmente a própria vida. Não estamos nos dando conta de que o capitalismo marcha celeremente para o desastre. Buscam-se soluções dentro dos marcos do sistema. Isso é impossível, uma vez que a causa de tudo isso tem um único nome - capitalismo. Aí está a matriz das nossas tragédias, o que nos leva a encarar a seguinte sentença: ou a humanidade destrói o capitalismo ou o capitalismo destrói a humanidade.
Notem bem, a violência e as mazelas sociais surgiram com o advento do capitalismo. Podemos concluir que antes disso, portanto, somente o amor campeava entre os homens e a natureza. Eis uma farsa de contornos psicologicamente patológicos. Restou dizer que as noções acerca da igualdade de direitos e preservação ambiental surgiram no rastro dos avanços do capitalismo.

Precisamos, com urgência, construir uma consciência anticapitalista e uma nova ordem econômica e social que pode ser chamada de socialismo. Dito isso, vem logo uma contestação, levanta-se o argumento de que o projeto socialista fracassou. Isso é um grande equívoco. Na verdade o capitalismo logrou uma vitória diante da revolução socialista e, depois de a isolar, matou por asfixia a experiência posta. Porém, não são os insucessos, que põem por terra uma teoria. Os diversos fracassos nas experiências da arte de voar não significavam que o avião seria um projeto condenado ao insucesso. Não foram as experiências mal sucedidas do socialismo que se pode dizer que o socialismo é inviável. Não é, então, o socialismo um sonho, um capricho, um desejo. Não. O socialismo é a única alternativa viável que deve ser levada a cabo, com desesperadora urgência, sob pena de sucumbirmos na tragédia total.
Entendi. O socialismo é puro na origem, mas uma vez sabotado pelo perverso capitalismo, comete enganos bobos, como o de ceifar milhões de vidas. Os indivíduos não passam de peões na partida entre esses entes abstratos. Foi a contragosto que Iejov, um dos carrascos mais temidos de Stálin dizia que era “melhor ir longe demais, do que não ir longe o bastante”, para justificar o morticínio imposto aos camponeses soviéticos. E notem que, falando em nome dos interesses do povo, Rocha reproduz um desprezo intrínsseco à doutrina socialista. Se o capitalismo é fonte de caos e barbárie, e o socialismo o remédio que tudo cura, somente um povo ignorante ou masoquista (ou os dois) não substitui um pelo outro. Para guiar essa gentalha sem discernimento, é que líderes bondosos como Fidel, Mao Tsé Tung (esse matou entre 60-70 milhões de chineses), Pol Pot (exterminou 20% da população do Camboja), Lênin, entre muitos, optaram pelo anticapitalismo. Não resolveram nenhum problema, mas deixaram um legado de mortes, dores e traumas incomparáveis. Os socialistas não aceitam ser cobrados pelas desgraças que produziram. Querem comparar unicamente o mundo idealizado que vendem com as dificuldades do presente. É pura covardia.

PS. Santos Dumont testou suas aeronaves arriscando o próprio pescoço e o de mais ninguém. Aí reside a diferença do genial inventor para os prosélitos do comunismo. O preço dos sonhos com os quais estes esperam fugir das suas próprias frustações só pode ser pago pelos outros. E com sangue, pelo que prova a história.

Violência no Brasil: um debate de mão única

A questão da violência tem gerado debates inúteis, cansativos e repetitivos. Fica a impressão que todos sabem as raízes e a complexidade do problema, que a ninguém escapa as soluções e, no entanto, apesar de tanta sapiência, nada muda. Ora, a própria falta de divergências mais nítidas e profundas sobre as causas da violência comprova que o assunto é tratado de forma incompleta. A sociedade brasileira não consegue, por deficiência de formação, sequer enxergar que existem motivos para violência que nunca foram discutidos publicamente.

No resto do mundo, os debates sobre as causas da violência alcançam diferenças muito mais abrangentes e intensas que no Brasil. Na verdade, em última instância, o que está em jogo é saber a natureza do comportamento violento, ou mais especificamente, a relação de responsabilidade entre indivíduos e sociedade. Gostamos de analisar acaloradamente as implicações morais e culturais que derivam desse ponto central; falamos sobre os acessórios e esquecemos o principal.

No Brasil, com a hegemonia cultural do materialismo socialista, principalmente nas ciências sociais, a grande maioria dos formadores de opinião e dos cidadãos em geral acredita que a sociedade é a responsável pela produção de criminosos. Esses indivíduos, portanto, seriam vítimas dos erros coletivos, e por isso sua culpa deveria ser relativizada. O homem nasce bom e é corrompido pelo meio. Para os partidários dessa visão, as leis não devem buscar punir os criminosos, mas sim reeducá-los, e as cadeias devem ser locais de recuperação. Esse discurso, como vemos, possui uma matriz ideológica bem definida. Acontece que aqui esse pensamento é de tal forma unânime, que poucos atentam a estranha ausência de uma antítese para a tese.

Na verdade, existe uma outra forma de ver a questão, e isso é suprimido na educação brasileira, desde o ensino fundamental até o universitário. Consiste em atribuir a responsabilidade dos atos aos indivíduos que os cometem. Os problemas sociais pode até influenciar o sujeito, mas não é determinante. A prova seriam os pobres que não viram criminosos. Para os defensores dessa tese, os indivíduos prevalecem sobre o social. Nesse grupo reúnem-se os conservadores, os religiosos e os liberais clássicos, para os quais, a noção de culpa não pode ser projetada no coletivo. Destarte, as leis devem punir com o objetivo de proteger (segregar o sujeito violento) e de ensinar pelo exemplo (inibir outros sujeitos).

Em outros países, é precisamente a síntese produzida pelo choque dessas correntes que produz o equílbrio necessário para preservar um mínimo de paz e segurança. Em Nova York, o Tolerância Zero nasceu de uma confrontação dessas. Num ambiente de criminalidade alta, as autoridades resolveram apertar. Cuspiu no chão, vai preso. O crime diminuiu drasticamente. Mas lá as cadeias funcionam e o Estado se preparou para dar suporte ao programa.

Sem saber que existem formas diferentes de tratar o assunto, estamos condenados a reproduzir os mesmos diagnósticos e os mesmíssimos prognósticos, sem resolver o problema. Ficamos como o cachorro que corre atrás do próprio rabo.

A banalização do crime e da vida

O noticiário local destaca o assassinato dos irmãos Marcelo (26) e Leonardo Moreno Teixeira (24), ocorrido na madrugada de sábado (17/03), numa churrascaria em Iguatu. Foram mortos pelo capitão PM Daniel Bezerra Gomez, com uma arma de uso da polícia. Os jornais informam que, segundo testemunhas, o motivo do crime foi banal. O jornal O Povo publicou matéria com diversos relatos sobre o comportamento agressivo e desequilibrado do policial, trazendo inclusive o testemunho do prefeito de Iguatu Agenor Neto, que confessou evitar andar nos mesmos locais que o capitão.

Houve um tempo que briga de bar era algo comum nas reminicências dos mais velhos. Era um tipo de ritual de afirmação masculina - beber e trocar alguns sopapos. Os brigões geralmente terminavam de ressaca e com pequenos hematomas, no máximo, passavam uma noite no xadrez. Hoje, com a consolidação do sentimento de impunidade, qualquer sociopata covarde anda com um revólver esperando pela menor oportunidade, pelo menor motivo, um olhar que seja, para matar. É certo que a lei lhe facultará mil artimanhas para evitar a cadeia, principalmente se for réu primário. Há casos que o sujeito não passa um dia preso, outros, os criminosos passam apenas alguns meses. E o discurso é que não devemos puní-lo, mas recuperá-lo. E assim, todas as semanas, um crime bárbaro choca a sociedade.

Vivemos, literalmente, numa espécie de terra sem lei, expressão usada não por acaso nos filmes de faroeste, onde todos portavam armas à cintura para garantir a própria proteção. Pelo menos existiam os mocinhos… O negócio é o seguinte. Cuidado com o sujeito da mesa ao lado, ou com o motorista do carro parado no sinal, ou o pedestre, o ciclista, o vizinho, o colega, o guarda… Cuidado! Eles podem estar armados, prontos para destruir a sua vida e de seus familiares, e nada vai acontercer com eles para intimidar outros assassinos. Todos sabem onde comprar um revólver irregular. Sei que parece exagero. Mas infelizmente não é. O mal e vida foram banalizados, sob o olhar complacente das nossas autoridades. Basta ver como os gastos com seguranças foram percentualmente reduzidos no orçamento federal e estadual. O Brasil registra uma média de 50 mil mortes violentas por ano (fora o que não é registrado). Três vezes mais que a guerra do Iraque. A violência é o principal problema do país hoje, mas vivemos de discutir a texa selic. Em vez de construir mais presídios e endurecer as leis para constranger os violentos, falamos em penas alternativas. violência é o principal problema do país, e a impunidade é mãe dela.

Projeto das Mudanças 20 anos - parte 3

Hoje em dia, equilibradas as contas do Estado, sedimentado o prestígio do Ceará perante o mercado de investimentos e na própria Federação, políticos sem expressão, nem trabalho, adoram dizer que o modelo do Projeto das Mudanças. A prova seria a vitória de Cid e Luizianne. Como sabemos, Luizianne foi candidata contra a vontade do comando nacional do PT, que apoiou a volumosa campanha de Inácio Arruda. As circunstâncias fizeram dela, uma petista sem projeto de governo delineado, a própria contestação do PT no poder. Eleita prefeita de Fortaleza, Luizianne não promoveu rupturas com o modelo administrativo que combatia.

Quanto a Cid… Vejam parte de um artigo que escrevi em fevereiro de 2006, portanto, antes das eleições passadas.

“Em 2006, tudo faz crêr que o PT cearense, desgastado pelo seu envolvimento direto no episódio do mensalão, pode optar por apoiar o provável candidato do PSB Cid Gomes. (…) Depois de tantos anos lutando nas trincheiras oposicionistas, essa turma só ameaça a tucanada se tirar do bolso um candidato criado pelos… tucanos! É isso. O grupo cirista ganhou dimensão e prestígio estadual graças a parceria que mantiveram com o PSDB de Tasso Jereissati, que os fez beneficiários, sem desmerecer os méritos próprios de cada um, de uma imagem positiva perante o eleitorado. Colaboraram com afinco com os governos estaduais dos tucanos e auferiram dividendos políticos com isso.”

“A esquerda estadual critica o modelo econômico adotado pelos tucanos de forma genérica, não por didatismo, mas por absoluta carência de propostas para uma ação substituta. Eis aí a essência de uma empulhação: se dizem adversários de algo que não sabem como mudar. (…) Assim, sem poder fornecer respostas para as cobranças que fazem aos outros, sem poder falar mal de medidas como a responsabilidade fiscal, a oposição cearense, junto com o PMDB, espera vencer os tucanos com a ajuda dos ciristas, eles mesmos operadores e signatários de primeira hora desse modelo por ela criticado. Esperam, ao indicar os ciristas, poder sugerir aos eleitores, sem criar constrangimentos, que eles podem gerir melhor esse modelo que aí está.”

“No Ceará, gostando ou não, existe um grupo político que assumiu o governo com um projeto baseado em valores bem explicitados, capaz de modular discursos e ações, como o da gestão fiscal austera, e que por isso criou uma marca que o identifica facilmente. Independente de quem ganhe as próximas eleições estaduais, o projeto das mudanças lançado pelo CIC de Tasso Jereissati e Beni Veras ainda não encontrará o seu contraponto nem a sua superação. Não subestimo niguém, muito menos o PT, que é o partido político mais poderoso e rico da história do Brasil, mas também não o superestimo como portador de um novo tempo. Com efeito, as oposições podem até vencer as próximas eleições no Ceará, mas ainda não terão a sua própria marca.”

Projeto das Mudanças 20 anos - parte 2

O Projeto das Mudanças conseguiu, em duas décadas, criar, preservar e estimular procedimentos administrativos, como o controle das contas e os programas de atração de investimentos, mas não logrou o mesmo êxito na chamada guerra de valores contra os seus adversários. Enquanto os governos do PSDB cearense esmeravam-se em cumprir metas que primavam pela gerência eficiente da máquina, a esquerda – militantes e simpatizantes – centrava foco na corrosão da imagem do principal líder tucano, Tasso Jereissati, e na desconstrução das ações do governo estadual.

As críticas ao modelo mudancista foram trabalhadas com a sutil e permanente colaboração dos agentes de influência na sociedade civil, principalmente nas escolas e na mídia. O resultado foi que, de tanto repetirem, sem provas, que a privatização da Coelce foi uma negociata, que hoje é quase impossível encontrar pessoa de classe média que não desconfie da lisura do processo; de tanto dizerem que as empresas de Tasso estavam falidas, que é difícil não encontrar formador de opinião que não imagine que a figura do empresário tirou proveito do cargo de governador; de tanto alardearem que Tasso seria autoritário, que para uma parte da população, principalmente na capital, se fez uma imagem de prepotência e arrogância, de inimigo da democracia; tanto repetiram que Maria Luiza Fontenele foi sabotada por Tasso, que até ela acredita nisso. A comentada “quebra” do BEC é outro exemplo de como essas acusações se espalham mediante a divulgação de boatos mentirosos, que ganham status de provas pelo simples fato de serem corroboradas por tagarelas que nas salas de aula falam o que jamais falariam publicamente. Chamam isso abertamente de “engajamento” intelectual.

O PSDB subestimou o poder dessa tática porque vencia as eleições. Acomodou-se. Mas com o passar dos anos, as vitórias eleitorais descuidaram de preservar na memória coletiva os valores do início do projeto, de forma que as novas gerações de eleitores sequer sabem como era o Ceará 20 anos atrás, nem dos sacrifícios feitos para recuperá-lo.

Projeto das Mudanças 20 anos - Parte 1

15 de Março de 1987 - Tasso Jereissati assumia, pela primeira vez, o Governo do Estado do Ceará.

A ascensão de Tasso Jereissati ao comando do executivo estadual no Ceará em meados dos anos 80 foi marcada por dois desafios; o econômico: recuperar as contas públicas arruinadas e a capacidade de investimento do Estado; e o político: promover a ruptura com uma tradição política disseminada em todo o Brasil, em especial no nordeste, caracterizada pelo patrimonialismo – que toma o público por privado –, e pelo clientelismo – que é a necessidade de intermediação pessoal para obter acesso a bens e serviços que deveriam ser universais e impessoais.

O primeiro objetivo foi alcançado com sucesso, tanto que nem o mais empedernido opositor jamais acusou Tasso de incompetência. De resto, não houve contemporâneo nem antecessor de Tasso que tenha executado ações concretas em torno de um projeto claro, e com tanta intensidade. Já o segundo objetivo foi atingindo apenas em parte. Apesar de medidas saneadoras terem diminuindo consideravelmente a força e o tamanho do patrimonialismo e do clientelismo, hoje podemos perceber que estes não foram totalmente eliminados na cultura política cearense, conseguindo sobreviver tal como os vírus que resistem aos antibióticos, assumindo novas formas para se legitimar, camuflados sob a capa de um discurso pretensamente “progressista”. Usando os velhos pretextos da igualdade, da solidariedade e da coesão controlada, o pensamento de esquerda que se opõe ao racionalismo tassista operou a transformação retórica e semântica desses métodos de apropriação do Estado, injetando na população, sempre em doses homeopáticas e constantes, conceitos com significados invertidos capazes de fazer parecer virtuoso o que é imoral. Foi assim que o patrimonialismo passou a ser sinônimo de “defesa do patrimônio do povo”, e que o estatismo virou patriotismo. Em função disso, para as classes médias urbanas, as maiores provas de falta de respeito a esses valores distorcidos são as privatizações e a adoção de ações de responsabilidade fiscal e monetária, jocosamente apelidadas de neoliberalismo. Quanto ao clientelismo, este somente mudou os seus beneficiários. A antiga solidariedade que dividia os recursos e os favores do Estado obedecendo a relações de parentesco e compadrio, foi transferida para um novo grupo composto de pessoas unidas pela mesma “ideologia” e filiação partidária. Some-se a isso a mistificação de que somente um petista seria honesto, e o corolário é de que nada seria mais justo e necessário do que aparelhar a máquina com os “companheiros”.

As conquistas do Projeto da Mudanças não podem ser encaradas como valores definitivos. É preciso estar alerta para que velhas práticas não retornem.

Vida e arte

Trapaceiros: Filme de Woody Allen, no qual ele interpreta Ray Winkler, um lavador de pratos ambicioso que acredita ter de idéias geniais, mas que na verdade é um fracassado. Seu novo plano é assaltar um banco, e para tanto, conta com comparsas tão incompetentes quanto o próprio Winkler. Eles não fazem nada certo, improvisam, batem cabeça e, por motivos que lhes são alheios, terminam ricos. O segredo dessa comédia leve, é que a inépcia leva ao sucesso. Mas quando isso acontece na realidade, aí não tem graça.

Tarso genro foi nomeado ministro da Justiça no lugar do criminalista Márcio Tomáz Bastos. O prefeito do Rio de Janeiro César Maia (PFL) distribuiu, na internet, um currículo interessante do novo membro da Esplanada. Qualquer semelhança com o filme…

CURRÍCULO DO MINISTRO TARSO GENRO QUE O CREDENCIA PARA A FUNÇÃO!
1. Candidato a governador do RGS em 2002 no rastro de Lula-presidente: perdeu a eleição.
2. Designado para presidir o Conselho de Desenvolvimento Econômico e Social. Esse nunca funcionou.
3. Nomeado ministro da Educação. Disse que faria uma revolução no ensino superior. Nada aconteceu. O fato de maior relevo foi ter contratado a gráfica que fez sua campanha para governador e lhe dar serviço, que disseram era compensação de dívidas de campanha.
4. Designado presidente do PT na crise do mensalão. Depois de algumas semanas, desistiu.
5. Nomeado ministro de coordenação política. A base do governo desintegrou em 2006 e o governo perdeu todas.
6. Coordenador junto à câmara de deputados do processo sucessório. Seu candidato só não perdeu pelo conchavo paulista de parte do PSDB.
7. Coordenador da reforma ministerial. Uma trapalhada que até agora não culminou.
8. Nomeado ministro da Justiça. Que Deus nos proteja!

A ética deles

O Povo de hoje publicou uma resposta assinada pelo coordenador de Jornalismo da Prefeitura Municipal de Fortaleza Demétrio Andrade ao artigo-carta da professora Adísia Sá Calma, prefeita, calma, veiculado ontem no mesmo jornal (ver post abaixo), elencando os equívocos cometidos pela PMF no caso do réveillon. A réplica veio com uma paródia do título original: Calma, professora, calma. O texto tenta, em vão, desmerecer a arrasadora e elegante análise de Adísia. Reproduzo abaixo uma pequena amostra da dificuldade de argumentação do jornalista, que não consegue sustentar uma tese sequer por uma parágrafo sem entrar em contradição. Com efeito, o coordenador escorrega feio no quesito lógica.

“Em primeiro lugar, a prefeita Luizianne Lins não só pode como deve pensar nas eleições 2008. Só há um jeito de ela se credenciar à disputa: fazendo uma boa administração. Os opositores - benditos ou malditos -, por sua vez, optam por outro caminho: pôr em xeque a honra de pessoas de bem para antecipar esse debate.”

No início, antes do parágrafo aqui reproduzido, Demétrio afirma que sua motivação é a defesa da ética. Não duvido. O texto expressa a essência da ética gramsciana (v. Antonio Gramsci), segundo a qual a virtude ou o crime são definidos pelos interesses do Partido, livres, portanto, das amarras da moral judaico-cristã. É a mesma ética que justificou o PT não expulsar dos mensaleiros.

Kant ensina que só o que pode ser universalizado é ético. Concordo. Não pode existir uma ética que, dependendo das circunstâncias, valha para uns, mas não para outros. Adísia disse que a prefeita não pode acusar políticos de agirem com interesses eleitoreiros, uma vez que isso vale para ela também. Demétrio finge concordar com parte desse pensamento para ganhar a simpatia do público, mas deturpa as premissas, ao insinuar que a prefeita só pensa em eleições na medida em que executa uma boa administração, enquanto a oposição é exclusivamente movida a interesses mesquinhos. Equivale a dizer que a Luizianne pode fazer campanha indefinidamente porque é governo, enquanto a oposição deve esperar caladinha o período eleitoral, para não correr o risco de parecer uma gangue de difamadores tarados. Um silogismo com premissas falsas constitui um engano.

No fim, o artigo afirma que a Prefeitura solicitou à empresa organizadora dos shows do réveillon, uma prestação de contas detalhada, pois quer “tudo esclarecido”, confessando, involuntariamente, que os gastos foram ordenados sem controle e que nada foi esclarecido.

PS. Gostaria de saber quem são os opositores “benditos” e os “malditos” que o artigo destaca. Tendo em vista o conceito de ética exposto no texto, de cara eu começaria a desconfiar dos benditos e passaria a admirar os malditos.

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