A ética deles

O Povo de hoje publicou uma resposta assinada pelo coordenador de Jornalismo da Prefeitura Municipal de Fortaleza Demétrio Andrade ao artigo-carta da professora Adísia Sá Calma, prefeita, calma, veiculado ontem no mesmo jornal (ver post abaixo), elencando os equívocos cometidos pela PMF no caso do réveillon. A réplica veio com uma paródia do título original: Calma, professora, calma. O texto tenta, em vão, desmerecer a arrasadora e elegante análise de Adísia. Reproduzo abaixo uma pequena amostra da dificuldade de argumentação do jornalista, que não consegue sustentar uma tese sequer por uma parágrafo sem entrar em contradição. Com efeito, o coordenador escorrega feio no quesito lógica.

“Em primeiro lugar, a prefeita Luizianne Lins não só pode como deve pensar nas eleições 2008. Só há um jeito de ela se credenciar à disputa: fazendo uma boa administração. Os opositores – benditos ou malditos -, por sua vez, optam por outro caminho: pôr em xeque a honra de pessoas de bem para antecipar esse debate.”

No início, antes do parágrafo aqui reproduzido, Demétrio afirma que sua motivação é a defesa da ética. Não duvido. O texto expressa a essência da ética gramsciana (v. Antonio Gramsci), segundo a qual a virtude ou o crime são definidos pelos interesses do Partido, livres, portanto, das amarras da moral judaico-cristã. É a mesma ética que justificou o PT não expulsar dos mensaleiros.

Kant ensina que só o que pode ser universalizado é ético. Concordo. Não pode existir uma ética que, dependendo das circunstâncias, valha para uns, mas não para outros. Adísia disse que a prefeita não pode acusar políticos de agirem com interesses eleitoreiros, uma vez que isso vale para ela também. Demétrio finge concordar com parte desse pensamento para ganhar a simpatia do público, mas deturpa as premissas, ao insinuar que a prefeita só pensa em eleições na medida em que executa uma boa administração, enquanto a oposição é exclusivamente movida a interesses mesquinhos. Equivale a dizer que a Luizianne pode fazer campanha indefinidamente porque é governo, enquanto a oposição deve esperar caladinha o período eleitoral, para não correr o risco de parecer uma gangue de difamadores tarados. Um silogismo com premissas falsas constitui um engano.

No fim, o artigo afirma que a Prefeitura solicitou à empresa organizadora dos shows do réveillon, uma prestação de contas detalhada, pois quer “tudo esclarecido”, confessando, involuntariamente, que os gastos foram ordenados sem controle e que nada foi esclarecido.

PS. Gostaria de saber quem são os opositores “benditos” e os “malditos” que o artigo destaca. Tendo em vista o conceito de ética exposto no texto, de cara eu começaria a desconfiar dos benditos e passaria a admirar os malditos.

1 Comentário

  • By Denise Gurgel, 15/03/2007 @ 20:50

    Não culpo o jornalista pela falta de originalidade do título do texto. Criatividade não se aprende em panfletos; os que criam possuem antes de tudo mente livre e uma certa dose de sensibilidade. Ele é culpado por tentar colar o rótulo de tarefeira na mais inoperante administração municipal que esta capital já teve. E também por tentar vitimizar a prefeita, atingida em sua honra de pessoa de bem por pessoas do mal. É muita desfaçatez…

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