Modelo pedagógico ultrapassado
Medo e frustração fazem de modelos antigos, categoricamente reprovados, objetos de louvação messiânica.
A seção Opinião do jornal O Povo desta sexta abre espaço para um artigo que mistura ignorância histórica, obscurantismo, esquematismo analítico e acomodação intelectual. E isso se partirmos do princípio de que o texto publicado foi escrito com boas intenções. Dramaticamente intitulado Ou a tragédia total, é assinado por Gilvan Rocha, presidente do Centro de Atividades e Estudos Políticos (Caep). Desconheço ambos, mas isso não basta para desmerecê-los, é verdade. Também não sei quais “atividades” ou “estudos políticos” são realizados pelo tal Centro, nem mesmo (isso não é informado no jornal) a profissão do autor. No entanto, baseado no mencionado artigo – cujos trechos reproduzo abaixo intercalados com comentários meus – posso afirmar que os chavões caducos apresentados nele como teoria apenas revelam ressentimento ideológico (que é diferente de debate). A cantilena vale como expressão de um pensamento bem influente e atrasado no Brasil, que deseja responsabilizar o capitalismo pelos males da alma humana, apresentando como solução o socialismo, não aquele que foi praticado no século passado, mas um outro ainda amorfo que deverá surgir no porvir, é claro. Rocha se pretende o seu arauto, ou para usar uma imagem própria dos arquétipos religiosos, um profeta do novo sistema. É sintomático que o presidente de um grupo de estudos reproduza, em jornal de grande circulação, as mesmas teses que alunos de ginásio bem adestrados repetem há pelo menos 30 anos. Nada de novo. Mais grave do que a superficialidade da análise é o fato de a mesma passar como pensamento profundo e atual. A prosa de Rocha segue em vermelho, e meus comentários em azul.
Há mais de cem anos, Frederico Engels afirmou viver a sociedade capitalista um dilema: “o socialismo ou o caos”. Quarenta anos depois, a socialista Rosa Luxemburgo disse que o dilema da sociedade capitalista era “o socialismo ou a barbárie”. Essas afirmações soavam como coisas longínquas. Hoje, não há exagero em se dizer que estamos diante de uma encruzilhada cujos caminhos são: o socialismo ou a tragédia total, pois a barbárie já está instalada.
No século XX, o mais sangrento da história, o socialismo de Engels e Luxemburgo foi responsável por cerca de 100 milhões de mortes (v. O Livro Negro do Capitalismo e Stálin – A corte do czar vermelho). Caos, barbárie, ditadura, intolerância, miséria e perseguição em níveis incomparáveis foram características comuns a todos, repito, todos os países que experimentaram a solução socialista.
A cada dia surgem mais mazelas sociais. Dentre elas, destaca-se a violência desatinada e a agressão ao meio ambiente, ameaçando frontalmente a própria vida. Não estamos nos dando conta de que o capitalismo marcha celeremente para o desastre. Buscam-se soluções dentro dos marcos do sistema. Isso é impossível, uma vez que a causa de tudo isso tem um único nome – capitalismo. Aí está a matriz das nossas tragédias, o que nos leva a encarar a seguinte sentença: ou a humanidade destrói o capitalismo ou o capitalismo destrói a humanidade.
Notem bem, a violência e as mazelas sociais surgiram com o advento do capitalismo. Podemos concluir que antes disso, portanto, somente o amor campeava entre os homens e a natureza. Eis uma farsa de contornos psicologicamente patológicos. Restou dizer que as noções acerca da igualdade de direitos e preservação ambiental surgiram no rastro dos avanços do capitalismo.
Precisamos, com urgência, construir uma consciência anticapitalista e uma nova ordem econômica e social que pode ser chamada de socialismo. Dito isso, vem logo uma contestação, levanta-se o argumento de que o projeto socialista fracassou. Isso é um grande equívoco. Na verdade o capitalismo logrou uma vitória diante da revolução socialista e, depois de a isolar, matou por asfixia a experiência posta. Porém, não são os insucessos, que põem por terra uma teoria. Os diversos fracassos nas experiências da arte de voar não significavam que o avião seria um projeto condenado ao insucesso. Não foram as experiências mal sucedidas do socialismo que se pode dizer que o socialismo é inviável. Não é, então, o socialismo um sonho, um capricho, um desejo. Não. O socialismo é a única alternativa viável que deve ser levada a cabo, com desesperadora urgência, sob pena de sucumbirmos na tragédia total.
Entendi. O socialismo é puro na origem, mas uma vez sabotado pelo perverso capitalismo, comete enganos bobos, como o de ceifar milhões de vidas. Os indivíduos não passam de peões na partida entre esses entes abstratos. Foi a contragosto que Iejov, um dos carrascos mais temidos de Stálin dizia que era “melhor ir longe demais, do que não ir longe o bastante”, para justificar o morticínio imposto aos camponeses soviéticos. E notem que, falando em nome dos interesses do povo, Rocha reproduz um desprezo intrínsseco à doutrina socialista. Se o capitalismo é fonte de caos e barbárie, e o socialismo o remédio que tudo cura, somente um povo ignorante ou masoquista (ou os dois) não substitui um pelo outro. Para guiar essa gentalha sem discernimento, é que líderes bondosos como Fidel, Mao Tsé Tung (esse matou entre 60-70 milhões de chineses), Pol Pot (exterminou 20% da população do Camboja), Lênin, entre muitos, optaram pelo anticapitalismo. Não resolveram nenhum problema, mas deixaram um legado de mortes, dores e traumas incomparáveis. Os socialistas não aceitam ser cobrados pelas desgraças que produziram. Querem comparar unicamente o mundo idealizado que vendem com as dificuldades do presente. É pura covardia.
PS. Santos Dumont testou suas aeronaves arriscando o próprio pescoço e o de mais ninguém. Aí reside a diferença do genial inventor para os prosélitos do comunismo. O preço dos sonhos com os quais estes esperam fugir das suas próprias frustações só pode ser pago pelos outros. E com sangue, pelo que prova a história.