Dica de leitura: Stalin - A Corte do Czar Vermelho
As ideologias podem, muitas vezes, funcionar como verdadeiras prisões do pensamento, limitando visões e adaptando interpretações dos fatos, para se amoldarem ao discurso teórico. E quando uma idelogia predomina hegemonicamente sobre as outras, inclusive nas universidades, o debate político corre o risco de perder vitalidade, até o ponto de se transformar em pura propaganda doutrinária.
A sutil impressão de que esquerdistas são inerentemente bons e direitistas são maus, por exemplo, não decorre de constatação determinada pelo exame de fatos concretos. Resulta antes de um processo de distorção e manipulação das informações, submetidas o crivo da propaganda ideológica. É, em suma, uma criação de pensadores esquerdistas, que conta com a omissão dos pensadores direitistas (esses, no Brasil, só gostam de discutir economia).
Por isso a leitura de obras que nos ajudem a contrapor essa catequização do pensamento torna-se cada vez mais necessária. O livro STÁLIN – A CORTE DO CZAR VERMELHO, do jornalista argentino Simon Sebag Montefiore, Companhia das Letras, 2006, é uma preciosa oportunidade de aprender que a suposta pureza ideológica da esquerda não tem amparo na História. Trata-se de uma monumental pesquisa sobre a intimidade do núcleo do poder na União Soviética, sob a bandeira do comunismo. As fontes variam entre cartas, diários, bilhetes, jornais, revistas, entrevistas, livros, documentos oficiais, confissões e biografias. O cruzamento dessas informações foi compilado em 860 páginas de fácil leitura.
Não há julgamentos ou comparações ideológicas no livro, mas a narração objetiva dos fatos daquele período ajuda a evidenciar que o discurso comunista da igualdade plena é a capa que pode esconder uma natureza intrinsecamente desigual, violenta, e opressora. Via de regra, intelectuais de esquerda preferem renegar o passado como se fosse um desvio de conduta de indivíduos, que nada tem a ver com a ideologia. Mas na verdade, longe de ter sido um acontecimento fortuito da história, em todos os lugares onde esse sistema foi implantado, o terrorismo de Estado, a morte, a violência, o medo, a pobreza extrema da população, o totalitarismo e a ditadura, tudo isso se manifestou simultaneamente em níveis incomparáveis. Cuba, China, Camboja, com seus líderes Fidel e Che, Mao Tse-Tung, e Pol-Pot, apenas confirmam que os acontecimentos funestos ocorridos da Rússia de Stálin não foram meros acidentes de percurso. Tudo o que rejeita a primazia do indivíduo, a liberdade, a moral e a democracia, até os dias de hoje, se mostrou essencialmente maligno.
Passagens do livro Stálin – A corte do czar vermelho
Entre 1931 e 1932, cerca de 5 milhões de pessoas morreram de fome na Ucrânia. A fome aconteceu para que o governo socialista levantasse “dinheiro a fim de fabricar fundidores de ferro-gusa e tratores”. O líder soviético Stálin, nunca esquecera o ensinamento do revolucionário Lênin: “O camponês deve passar um pouco de fome”. (Pág. 114)
Sobre a hipótese de haver divergências no sistema: “Uma revolução sem pelotão de fuzilamento não faz sentido”. – Lênin. (Pág. 114)
Comentário de Stálin ao saber que Hitler havia massacrado seus adversários no partido nazista, no episódio conhecido como a Noite dos Longos Punhais, em 1933: “Você soube o que aconteceu na Alemanha? Que sujeito esse Hitler! Esplêndido! Essa é uma façanha que exige muita habilidade!” Stálin também mandou assassinar seus opositores (Pág. 163)
Justificando a prisão de um milhão e meio de poloneses e o fuzilamento de outros 700 mil, todos com a autorização de Stálin, Iejov, chefe da polícia secreta (NKVD) disse: “Melhor ir longe demais do que não ir longe o suficiente”. (Pág. 265) Obs. Quando os massacres passaram a constranger o governo, Stálin mandou matar Iejov, a quem culpou por tudo.
“Quem vai lembrar de toda essa gentalha dentro de dez ou vinte anos? Quem lembra agora dos nomes dos boiardos de que Ivan (o Terrível) se livrou? Ninguém… O povo sabia que ele estava se livrando de todos os seus inimigos. No fim, todos ganharam o que mereciam”. Stálin, sobre suas vítimas (Pág. 268)
Instruções escritas de Stálin para um interrogatório, no Terror de 1937: “Bater, bater! Está na hora de espremer este cavalheiro e forçá-lo a contar sobre o seu pequeno negócio sujo. Onde ele está – numa prisão ou num hotel?”. “A prática do NKVD do uso da pressão física [...] permitida pelo Comitê Central (era um) método totalmente correto e oportuno”. (Pág. 283)
“Se vivêssemos em um Estado capitalista, eles estariam falando de nós no Parlamento e nos jornais” – Vorochílov, ministro e membro do partido, escarnecendo a democracia em carta para Stálin. (Pág. 285)
Ordem de Stálin, emitida às 23h38 de 20 de julho de 1937: “O Comitê Central concorda com suas propostas sobre processar e fuzilar ex-trabalhadores da fábrica de tratores”. Vinte operários foram fuzilados, acusados de sabotagem e lentidão no trabalho.
No início da 2ª Guerra Mundial, Stálin, que nesse momento estava em desvantagem contra os alemães, editou a Ordem nº 270: “Ordeno que (1) [...] quem se render deve ser considerado um desertor maligno cuja família deve ser presa como a de um transgressor do juramento e da pátria. Esses desertores devem ser fuzilados no local”. (Pág. 425)
Quando Churchill disse que Deus estava do lado dos Aliados, Stálin gracejou: “E o diabo está do meu lado. O diabo é comunista, e Deus um bom conservador!”.
“Bata neles até que confessem! Bata, bata, e bata de novo. Ponha-os nos ferros, moa-os até transformá-los em pó!”. Stálin, paranóico, ordenando a tortura de seus antigos médicos, acusados de serem espiões judeus a serviço dos EUA. (Pág. 697)
“[Estou] mergulhado até os cotovelos de sangue”. Nikita Khruchióv, sucessor de Stálin. (Pág. 724).
O regime socialista na ex-URSS foi responsável por:
20 milhões de pessoas mortas;
28 milhões deportadas, da quais;
18 milhões escravizadas nos Gulags (campos de concentração).



