A praga da classe média

Uma reportagem veiculada hoje no O Povo sobre as taxas de evasão e repetência escolar no Ceará, fez referência ao artigo “Entre os piores do mundo” de autoria do sociólogo André Haguette, publicado no dia 1º de abril passado. Fiquei um pouco surpreso com a superficialidade de algumas colocações, postura que não combina com alguém da estatura de Haguette, a quem admiro. Se fosse o Lula falando… Segundo a matéria, professor afirmou o seguinte: “A grande causa da fraqueza da escola pública é que a classe média a abandonou. Se a classe média voltasse, ela melhoraria, mas isso é um fenômeno totalmente irreversível”. Para ler, clique aqui.

O argumento é frágil, pois toma o efeito pela causa. Na verdade, por não oferecer ensino de boa qualidade é a escola pública viu a classe média migrar para a particular. No fim, a classe média paga duplamente ao ser obrigada a sustentar um serviço ruim e ainda buscar a iniciativa privada para fugir dele. A questão então seria: A classe média abandonou a escola pública porque gosta de gastar dinheiro? Porque acha que paga poucos impostos? Porque é esnobe? E os políticos, como ficam? E os professores, são bons? São bem remunerados e estudam? O material didático é adequado ou não? Se não, é por culpa da classe média? Qual o papel da universidade? Nos orçamentos, as verbas destinadas ao ensino superior são proporcionais às do ensino médio e fundamental? Qual a responsabilidade dos pais desses jovens? As políticas compensatórias não bastam para que os filhos dos pobres estudem?

Se tem um lugar comum hoje em dia no Brasil é esse negócio de culpar a classe média por tudo. Chico Buarque, não faz muito tempo, a culpou pela violência. Alguns países já conseguiram eliminar (pela pobreza ou pelo assassinato) suas classes médias. O Cambodja, o Vietnã, a Coréia do Norte, Cuba, a Albânia… Todos se livraram dessa praga, fosse estatizando a propriedade privada (roubando), fosse fuzilando os infelizes. Invariavelmente esses governos combinavam esses métodos. E advinhem? Nenhum melhorou de vida, pelo contrário, afundaram no ostracismo, na violência, na tirania e na corrupação típica das sociedade em que só existem os pobres e uma elite burocrática, que o iuguslavo Milovan Djilas chamou de burgueses sem capital.

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