Lição de jornalismo: A culpa é de quem cobra explicações e noticia fatos
Era uma vez uma prefeita que só queria fazer o bem e enfrentar o capital. Um dia, ela contratou artistas para uma festinha, e para ajudar esses trabalhadores explorados, pagou-lhes mais do que o normal. Acontece que a burguesia covarde, a imprensa servil e autoridades desocupadas queriam desestabilizar a prefeita e cobraram dela uma prestação de contas.
Arthur Ferraz [O Povo] – Prefeita, nesse aniversário de Fortaleza, a gente imagina várias situações para a cidade. O POVO trouxe hoje uma edição mostrando as promessas que foram feitas, muitas delas ainda não realizadas, problemas e virtudes de Fortaleza. (…) O que podemos esperar de presente para os 282 anos da cidade?
Luizianne Lins – Primeiro lugar, o fato de que essa cidade, inegavelmente, não é mais a mesma de quando assumimos há dois anos. Isso eu não tenho dúvida. Talvez, até, o mais ácido crítico da administração tenha consciência disso. Se não quer ver, aí é outro problema. Acima de tudo, a “Fortaleza Bela” é um outro olhar sobre a cidade e eu acho que todo fortalezense, hoje, tem um outro olhar sobre a cidade. A “Fortaleza Bela”, que é nossa utopia de cidade, que não está, que está para ser. É possível, é concreto, é real. (…).
Porque num sistema capitalista, onde a segregação se dá pela origem do sistema – está na raiz dele -, não se pode enganar o povo de que os problemas, principalmente os da pobreza, serão resolvidos com os recursos públicos municipais. (…).
Vamos lá. Primeiro a prefeita diz que a cidade não é mais a mesma, e que se deve desconfiar de quem não acredita nisso de olhos fechados. Depois diz que o seu projeto é uma utopia de cidade a ser concretizada (?), e termina dizendo que a Prefeitura não pode resolver os problemas do capitalismo malvado. Ora, ninguém pediu isso a ela. Nem isso, nem novos olhares poéticos. A população quer obras, serviços e transparência. Luizianne perdeu uma oportunidade de listar as realizações do seu governo, para dizer que o pouco que poderá fazer será feito no tempo eterno das utopias, ou seja, no futuro.
Arthur – É isso que eu lhe pergunto. Quando a senhora assumiu a Prefeitura, em janeiro de 2005, se fosse possível fazer uma perspectiva, era essa Fortaleza de hoje a que a senhora esperava ter para a população em 2007?
Luizianne – Nem eu acho que 2007, nem daqui a 2010, nem 2020. (…) Porque o processo de transformação, principalmente estrutural, de uma cidade como a nossa, que vive no semi-árido, que tem ainda o êxodo rural, que recebe 150 mil moradores a cada dois anos, que as políticas públicas muitas vezes não conseguem se adequar devido à velocidade de crescimento. Então, esta cidade que a gente sonha, esta “Fortaleza Bela” que está em construção, daí o slogan da Prefeitura é “você construindo a Fortaleza Bela”, porque nós fortalezenses sabemos que a cidade é bonita e morremos de orgulho dela. Pela beleza, pela hospitalidade. A coisa mais bonita na cidade é o nosso povo. É o povo, o desprendimento, a luta, a garra. Agora, que nós vamos deixar para a cidade uma outra forma de ver a cidade, de administrar o dinheiro público, eu não tenho a menor dúvida. E nesse momento nós vamos entrar nessa fase das grandes obras.
Essa foi para a galera. O povo é lindo e a cidade é também. No entanto, existem problemas de caixa… É muita gente e pouco dinheiro, meu Deus. A ex-vereadora (e ex-deputada estadual) somente agora percebeu que existem dificuldades orçamentárias na capital. Eu já sabia, e nem precisei ser eleito prefeito para descobrir isso. Antes o discurso de seus correligionários era outro: o problema não era falta de dinheiro, era a corrupção. Mais adiante, na resposta, o futuro volta a brilhar num amanhã grandioso. O “vamos entrar nessa fase das grandes obras” lembra certo “espetáculo do crescimento”. Faltam dois anos, vamos ver. Por fim, notem que além de uma “outra forma de ver a cidade”, o fortalezense pode constatar, segundo a prefeita, uma nova forma de administrar o dinheiro público. Talvez seja uma referência ao Orçamento Participativo, que é uma inutilidade. Talvez não seja nada.
Felipe Araújo – Quando a senhora assumiu, a Prefeitura estava numa situação muito debilitada do ponto de vista administrativo e financeiro. Nesses dois primeiros anos, o tom da sua gestão foi de arrumar a casa para que na segunda metade do mandato houvesse essa fase de intervenções urbanas. No entanto, a gente sabe que o segundo semestre de 2008 vai ser voltado para o processo eleitoral. Então, temos aí pouco mais de um ano para realizar obras extremamente relevantes. (…) É tempo suficiente para se realizar tantas obras de vulto?
Aqui não vou publicar a resposta de Luizianne. O próprio jornalista fez isso por ela. Ele é quem afirma que a gestão passada estava debilitada e que a atual resolveu o problema. Não citou valores nem nomes. Se os problemas administrativos e financeiros foram sanados, como ele afirma, é natural supor que haja dinheiro em caixa, e de tal forma, as obras “extremamente relevantes” serão construídas. Relevantes para quem? Para quem perguntou. Quando? No futuro, claro. Reparem no “temos aí pouco mais de uma ano para realizar obras extremamente relevantes”. “Temos” quem? O jornal e a prefeitura? O entrevistador e a entrevistada? É o que chamam por aí de isenção jornalística.
Felipe – Gostaria de colocar um outro assunto. É inegável que, com sua gestão, Fortaleza passou a respirar novos ares do ponto de vista da seriedade no trato com a coisa pública. No entanto, o episódio do Réveillon ainda causa muita celeuma, desperta muita polêmica pela cidade. E, no entanto, a Prefeitura ainda não conseguiu dar plenamente respostas à sociedade nesse sentido. O que falta para que esse episódio seja finalmente esclarecido?
Luizianne – O que eu acho é que há uma intenção de alguns setores da imprensa. Porque você sabe que a imprensa tem dono, a imprensa não é uma coisa livre como a gente sonha como jornalista e como a gente ensina para os nossos alunos. Ela tem donos e servem a interesses, dos donos – em especial. E você tem aí alguns donos da imprensa, juntamente com outros setores, que têm feito questão de desinformar a população e de apostar na desinformação.
De novo Felipe Araújo. De novo não seria necessária a resposta, pois a pergunta já traz embutida a sua própria refutação. Se a atual gestão está acima de qualquer suspeita, o superfaturamento na contratação de artistas no caso Reveillon só pode ser mesmo uma “celeuma”, uma “polêmica”. E se a Prefeitura, tão séria no trato com a coisa pública, como afirma o jornalista, ainda não explicou “plenamente” o episódio, podemos concluir que insistir demasiadamente nos pedidos de esclarecimentos é fruto de um mal-entendido ou de má-fé. Eu teria perguntado como é que se gasta cerca de 500 mil reais com um show da Elba Ramalho, e por quais motivos artistas locais alegam que ter recebido valores menores do que aqueles publicados no Diário Oficial corrigido. Só isso.
Quanto ao floreado da pergunta, o tiro saiu pela culatra. Luizianne reagiu como uma boa petista e responsabilizou a imprensa. A deixa para que a prefeita pudesse acusar os opositores criadores de “celeuma”, se transformou num pito geral, numa acusação generalista e vazia a respeito de “interesses” que ela não especifica. Se existem os “donos da imprensa”, que deliberadamente desinformam a população, os jornalistas que a entrevistaram, funcionários que são de empresa de comunicação privada, e portanto com dono, só podem ser, segundo a lógica da prefeita, serviçais desprovidos de ética. Ou só os donos dos outros jornais têm “interesses”? Bem feito. Para fazer justiça, na seqüência do assunto, outros repórteres, como Érick Guimarães, foram um pouco mais incisivos e pertinentes.
2 Comentários
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By Anonymous, 18/04/2007 @ 19:30
Mais um pouco e tinham pedido um autógrafo pra Lôra.
By Anonymous, 22/04/2007 @ 7:21
Depois dessa entrevista, até eu pediria um autógrafo. É uma artista! Vai ver foi por isso que ela ficou com o dinheiro do Reveillon.