Resposta a um desabafo

Candido Portinari: Dom Quixote Atacando um Rebanho de Ovelhas [1956] / Desenho a lápis de cor (clique na imagem): Rebanhos são conduzidos sem que niguém manifeste opinião pessoal ou exerça julgamentos próprios. Às vezes, tentar dispersá-los é como lutar contra moinhos de vento; às vezes é inevitável e imprescindível.

Um leitor deste blog escreveu o seguinte:
“Acabei de me formar e passar em um concurso (…). Mal entrei e já senti o clima do Lulismo, o sufocamento (pra não dizer intolerância) de opiniões diversas a que não seja a deles. Se digo a minha opinião, sou tachado NEOLIBERAL. Depois da primeira rotulagem, a gente se cala. Não quero ser sabotado no trabalho. (…) A CUT, atrávés do sindicato, envia uns folhetos que são distribuídos nas assembléias que (…) com conteúdo fora do dia-a-dia dos trabalhadores da empresa. (…) Por essas e outras ainda não me sindicalizei, não concordo com o pagamento de 2% do salário, gostaria de ver os gastos do sindicato. E ainda não concordo com sua “política”. (…) Ainda no primeiro dia de palestra, eles falam como devemos agir em dia de greve. Me senti tratado como mais um em um rebanho. Na primeira assembléia eles perguntaram se nós queríamos que a carga horária que já de 7h30min fosse diminuída para 6 hs e ainda queriam que o trabalho as segundas fosse voluntário. (…) Quais os conselhos que você dá pra conviver com os petralhas e você acha que devo ou não me sindicalizar?

É um relato fiel de como a patrulha do pensamento único age nas empresas estatais e nos sindicatos. Trata-se de uma fórmula velha, reacionária, que mescla obscurantismo e má-fe. Consiste em cooptar os que ingressam na categoria usando o discurso da defesa dos interesses coletivos, para fazer deles meros ativistas de partidos políticos de esquerda. No movimento estudantil também é assim. É a privatização das entidades de classe. Um desvirtuamento. A rigor, tais entidades existem para representar determinado grupo profissional e zelar pelos princípios gerais da classe, ou seja, condições de trabalho, liberdade de opinião, dissídio coletivo, ajuste salarial, entre outros, não importando a cor, o sexo, a idade, a filiação partidária ou a ideologia dos seus membros. No entanto, na prática, quem não proclamar voto nos candidatos da esquerda é mal visto e rotulado de 1) alienado; 2) traidor; 3) neoliberal; 4) burguês; 5) direitista. Muitas vezes pode haver sobreposição de rótulos. A idéia é intimidar as vozes dissonantes. Se mesmo assim o sujeito teimar em querer pensar de forma autônoma, aí outras medidas podem ser tomadas, como 1) isolamento; 2) boicote, 3) sabotagem. Nesses casos, os caminhos para as promoções ou para o bom desempenho das funções ficam mais difíceis.

Digo ao leitor amigo que cada um sabe até onde está disposto ou é possível ir. O primeiro passo você já deu, que é o de saber preservar a independência do seu pensamento. Agora, é preciso ter consicência de que existe um discurso dominante que não admite contestações, ou como diz o Reinaldo Azevedo, um espírito do tempo que é influente e intolerante, cujos defensores cobram nada menos que o alinhamento automático e servil. De outra forma, o sujeito vira inimigo.

Sobre os sindicatos, eu não me sinto representado por nenhum. O modelo brasileiro é velho e viciado. O pagamento compulsório do imposto sindical e o monopólio da representação são as bases para a transformação dos sindicatos em filiais partidárias. O ideal seria a adesão voluntária e a pluraridade de sindicatos para a mesma categoria.

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