Dubiedade premeditada - ou Ética de ocasião
Parecem duas caras mirando lados diferentes, mas na verdade é uma estrutura única. O peso de equilíbrio que dá coesão ao conjunto é a chave para entendermos posturas premeditadamente dúbias. O Partido dos Trabalhadores é o ente de razão para seus militantes. Ele define que algo pode ser bom ou mal, certou ou errado, virtuoso ou defeituoso, a depender do seu próprio interesse. É a ética de ocasião.
Nota de desagravo que a Executiva Estadual o Partido dos Trabalhadores do Ceará divulgou em seu próprio site.
Nota de desagravo
A Executiva Estadual do Partido dos Trabalhadores do Ceará vem por meio dessa expressar deu desagravo à forma com que o companheiro Sergio Gabrielli foi publicamente achincalhado e ofendido, acusado com expressões de baixo calão, ao se pronunciar sobre a instalação de uma siderúrgica no Ceará.
Reconhecemos em Gabrielli um quadro dos mais capacitados, ao mesmo tempo um ativista das causas populares e um economista internacionalmente credenciado, para o governo Lula e para o Brasil. Sua gestão frente à Petrobrás tem sido marcada por um esforço bem sucedido em combinar eficiência econômica com o papel de propulsora do desenvolvimento de uma empresa estatal e a função social de uma empresa pública.
Ao mesmo tempo, conclamamos a sociedade cearense a se envolver no debate sobre o modelo de desenvolvimento para o estado, como o caminho para recolocar no patamar da racionalidade o debate sobre a siderúrgica. – Comissão Executiva Estadual PT – Ceará
Blog do Wanfil
Relembrando - Sérgio Gabrielli assinou, no dia 17 de outubro de 2005, contrato de fornecimento de gás natural para a Usina Siderúrgica do Ceará (USC), em solenidade realizada na sede da estatal, no Rio de Janeiro. O acordo garantiria o suprimento de 1,8 bilhão de metros cúbicos de gás por dia, durante 20 anos, para a produção 1,5 milhão de toneladas de placas de aço anuais. A estimativa do governo, na época, era de que a instalação da siderúrgica pudesse gerar US$ 400 milhões em divisas para o Ceará por ano, 1,6 mil empregos diretos e indiretos, além de elevar em 25% as exportações cearenses.
Todos sabem que o presidente Lula e o PT assumiram, publicamente, um compromisso que lhes rendeu uma enxurrada de votos nas últimas eleições. Àquela época, no calor do embate eleitoral, não vimos um só petista ou aliado dizerem que a siderúrgica era um mau negócio. Portanto, além do contrato moral estabelecido com os eleitores, um documento assinado também reforça a necessidade e a viabilidade do negócio. Lula e Gabrielli empenharam suas palavras, das quais o Ceará agora é credor.
Depois de reeleito Lula, e após aceitar a quebra o aumento abusivo do gás imposto pela Bolívia, o presidente da estatal brasileira mudou de opinião e passou a fazer campanha contra a siderúrgica no Ceará. Fala-se em pressão do lobby do aço, comandado pelo empresário Jorge Gerdau.
Diante disso, o que faz o PT cearense? Fica indignado com quem lhe cobra as promessas feitas pelo seu candidato. Não pode. O que faz o partido que captou votos assumindo o compromisso que Gabrielli quer ignorar? Defende o Ceará? Não, defende quem engana os cearenses com uma nota de desagravo.
Dissimulação
A Executiva do PT correu para defender a honra de Gabrielle. O pudor do partido é tão suscetível que a alegativa de não admitir “palavras de baixo calão” contra um “companheiro” enseja-lhe a ação pronta e inequívoca. Claro que é um despiste. Não lembro desse furor moralista quanto um petista cearense foi flagrado transpostando dólares na cueca. Aliás, por onde ele anda agora? Estará também solidário a Gabrielle? Aposto que sim. A manobra visa preparar terreno para a desqualificar todo o trabalho feito para trazer a siderúrgica. É uma forma de blindar o presidente Lula do desgaste por não cumprir o que promete.
No final, a nota apela à racionalidade como condição prévia para que haja um debate sobre o modelo de desenvolvimento para o estado. Isso mesmo, o PT não sabe o que quer, mas sabe que não quer: no caso, a siderúrgica.
Método
Não custa lembrar: é método. O PT consegue, com a maior naturalidade, ser contra e a favor de algo ao mesmo tempo. É um traço de caráter comum e imprescindível aos seus militantes. De acordo com as circunstâncias é que o partido toma suas decisões, que podem depois ser revogadas. No momento, a siderúrgica não vem mais, salvo uma reviravolta de bastidores. Definida a questão, cabe aos militantes e simpatizantes da sigla, criticarem o empreendimento. Em breve começarão a dizer que a siderúrgica seria uma agressão ao meio ambiente, para depois concluir que o PT, guiado pela sabedoria mágica de Lula, salvou os cearenses de uma catástrofe ecológica. É só esperar.


