Dubiedade premeditada – ou Ética de ocasião

Parecem duas caras mirando lados diferentes, mas na verdade é uma estrutura única. O peso de equilíbrio que dá coesão ao conjunto é a chave para entendermos posturas premeditadamente dúbias. O Partido dos Trabalhadores é o ente de razão para seus militantes. Ele define que algo pode ser bom ou mal, certou ou errado, virtuoso ou defeituoso, a depender do seu próprio interesse. É a ética de ocasião.

Nota de desagravo que a Executiva Estadual o Partido dos Trabalhadores do Ceará divulgou em seu próprio site.

Nota de desagravo
A Executiva Estadual do Partido dos Trabalhadores do Ceará vem por meio dessa expressar deu desagravo à forma com que o companheiro Sergio Gabrielli foi publicamente achincalhado e ofendido, acusado com expressões de baixo calão, ao se pronunciar sobre a instalação de uma siderúrgica no Ceará.

Reconhecemos em Gabrielli um quadro dos mais capacitados, ao mesmo tempo um ativista das causas populares e um economista internacionalmente credenciado, para o governo Lula e para o Brasil. Sua gestão frente à Petrobrás tem sido marcada por um esforço bem sucedido em combinar eficiência econômica com o papel de propulsora do desenvolvimento de uma empresa estatal e a função social de uma empresa pública.

Ao mesmo tempo, conclamamos a sociedade cearense a se envolver no debate sobre o modelo de desenvolvimento para o estado, como o caminho para recolocar no patamar da racionalidade o debate sobre a siderúrgica. Comissão Executiva Estadual PT – Ceará

Blog do Wanfil

Relembrando
– Sérgio Gabrielli assinou, no dia 17 de outubro de 2005, contrato de fornecimento de gás natural para a Usina Siderúrgica do Ceará (USC), em solenidade realizada na sede da estatal, no Rio de Janeiro. O acordo garantiria o suprimento de 1,8 bilhão de metros cúbicos de gás por dia, durante 20 anos, para a produção 1,5 milhão de toneladas de placas de aço anuais. A estimativa do governo, na época, era de que a instalação da siderúrgica pudesse gerar US$ 400 milhões em divisas para o Ceará por ano, 1,6 mil empregos diretos e indiretos, além de elevar em 25% as exportações cearenses.

Todos sabem que o presidente Lula e o PT assumiram, publicamente, um compromisso que lhes rendeu uma enxurrada de votos nas últimas eleições. Àquela época, no calor do embate eleitoral, não vimos um só petista ou aliado dizerem que a siderúrgica era um mau negócio. Portanto, além do contrato moral estabelecido com os eleitores, um documento assinado também reforça a necessidade e a viabilidade do negócio. Lula e Gabrielli empenharam suas palavras, das quais o Ceará agora é credor.

Depois de reeleito Lula, e após aceitar a quebra o aumento abusivo do gás imposto pela Bolívia, o presidente da estatal brasileira mudou de opinião e passou a fazer campanha contra a siderúrgica no Ceará. Fala-se em pressão do lobby do aço, comandado pelo empresário Jorge Gerdau.

Diante disso, o que faz o PT cearense? Fica indignado com quem lhe cobra as promessas feitas pelo seu candidato. Não pode. O que faz o partido que captou votos assumindo o compromisso que Gabrielli quer ignorar? Defende o Ceará? Não, defende quem engana os cearenses com uma nota de desagravo.

Dissimulação
A Executiva do PT correu para defender a honra de Gabrielle. O pudor do partido é tão suscetível que a alegativa de não admitir “palavras de baixo calão” contra um “companheiro” enseja-lhe a ação pronta e inequívoca. Claro que é um despiste. Não lembro desse furor moralista quanto um petista cearense foi flagrado transpostando dólares na cueca. Aliás, por onde ele anda agora? Estará também solidário a Gabrielle? Aposto que sim. A manobra visa preparar terreno para a desqualificar todo o trabalho feito para trazer a siderúrgica. É uma forma de blindar o presidente Lula do desgaste por não cumprir o que promete.

No final, a nota apela à racionalidade como condição prévia para que haja um debate sobre o modelo de desenvolvimento para o estado. Isso mesmo, o PT não sabe o que quer, mas sabe que não quer: no caso, a siderúrgica.

Método
Não custa lembrar: é método. O PT consegue, com a maior naturalidade, ser contra e a favor de algo ao mesmo tempo. É um traço de caráter comum e imprescindível aos seus militantes. De acordo com as circunstâncias é que o partido toma suas decisões, que podem depois ser revogadas. No momento, a siderúrgica não vem mais, salvo uma reviravolta de bastidores. Definida a questão, cabe aos militantes e simpatizantes da sigla, criticarem o empreendimento. Em breve começarão a dizer que a siderúrgica seria uma agressão ao meio ambiente, para depois concluir que o PT, guiado pela sabedoria mágica de Lula, salvou os cearenses de uma catástrofe ecológica. É só esperar.

Limites da aliança

Ainda sobre a proposta de referendo encaminhada à Câmara pela prefeita Luizianne Lins (PT), o jornal O Povo reproduziu declarações do federal Ciro Gomes (PSB), aliado da petista:

“Olhando um pouco de longe eu acho que há aí um componente de perseguição política que não é bom, não é justo e não é razoável”. (…) “O licenciamento de um prédio, seja ele qual for e de quem for, há de se fazer dentro da lei que está em vigor. Como é que você manda um assunto dessa natureza para referendo?” (…) “Vamos supor que no referendo o povo diga sim, pode construir. E se for ilegal, como é que pode o povo aceitar a construção de um prédio ilegal? De outra forma, vamos supor que seja legal, e aí, vamos lá que o povo, por alguma razão, diga que não pode. Como é que o povo pode dizer não pode se a lei diz que sim? Por isso que o licenciamento é um regramento legal e há de ser aperfeiçoado, praticado ou indeferido no tempo daquilo que está previsto na lei”. (…) “Acho que não é uma atitude generosa essa de usar o poder para perseguir adversário”.

Clique aqui para ler o texto completo.

Relembrando

O Pagador de Promessas, filme de Anselmo Duarte, de 1962.
Para Zé do Burro (Leonardo Villar), trabalhador humilde e homem de valor, promessas eram compromissos em nome dos quais valia arriscar até a vida, e as palavras tinham o peso de uma cruz. É que ele se levava a sério…

A semana que passou foi marcada por mais um capítulo da arrastada novela sobre a siderúrgica no Ceará. O presidente da Petrobrás, Sérgio Gabrielle, afirmou, numa reunião com membros da bancada federal cearense, que o negócio seria inviável e que o estado não teria condições de receber o investimento. As declarações contrariam a disposição de vários investidores dispostos a participar do empreendimento, e o próprio Gabrielle, em passado recente, assinou documentos oficiais que na prática atestavam positivamente o negócio. Chico Lopes (PCdoB) e Ariosto Holanda (PSB), deputados federais cearenses da base governista em Brasília, não ficaram calados, não: valentes representantes do povo, concordaram com a humilhação imposta ao Ceará.

Sobre todo esse imbróglio, não há muito o que ser dito. O presidente da Petrobrás é subordinado ao ministro da Minas e Energia, que é subordinado a Lula, que foi quem obteve votos com a promessa de viabilizar a siderúrgica. Fiz comentários a respeito, inclusive em artigos de jornal. Vejam alguns deles:

SinaO Brasil se acostumou a ver o Nordeste como um ente inferior, eternamente necessitado da ajuda dos mais prósperos, ou dos menos pobres. E mesmo quando um estado nordestino trabalha no intuito de se emancipar, poupando para aplicar em infra-estrutura e capacitação, desenvolvendo projetos de geração de renda, estabelecendo parcerias e fechando contratos, mesmo quando tudo isso é feito, as contrapartidas contratuais do governo federal são confundidas como concessão, como favor caridoso. (…) Cabe aos cearenses lembrar aos seus arrogantes parceiros que não estão suplicando bondades, mas cobrando, e exigindo, que se cumpra a palavra empenhada num acordo firmado. E não custa lembrar que promessa de camapanha é uma forma de contrato moral.

Promessa é dívida 1O governo não sabe para onde vai, está perdido, não tem planos para trabalhar a matriz energética, é refém de vizinhos, faz e depois desfaz, diz e depois desmente, e termina por prejudicar um Estado gratuitamente. (…) O Ceará deu uma das maiores votações proporcionais a Lula, mesmo depois de ter ficado quatro anos sem obras federais importantes. Nem a Sudene, nem o metrô, nem a transposição do Rio São Francisco, nem a refinaria (foi para Pernambuco), nada. Talvez isso tenha encorajado o governo a dispensar esse tratamento aos cearenses. Igual mulher de bêbado. Ela apanha sem motivos mas não tem coragem de ir embora. E por isso mesmo ele abusa.

Promessa é dívida 2A siderúrgica constava na relação de obras que o presidente “amigo dos nordestinos” ofereceu aos eleitores. Não foi uma promessa generalista, que poderia depois ser explicada como meta orientadora, feito os 10 milhões de empregos da outra eleição. Nada disso. Foi uma garantia concreta de investimento, objetiva, com lugar, parceiros e contratos definidos. A maioria acreditou no discurso. (…) Ainda que recue, o governo já demonstrou até onde é capaz de ir. Perdido, falta com a palavra; acuado, mente e culpa terceiros. Sem o cumprimento da promessa feita, ou seja, sem a siderúrgica no Ceará, o episódio será a consumação de uma fraude monumental, com amplo material comprovatório. Será mais um estelionato eleitoral. Será o apogeu do cinismo e da mentira. Depois reclamam da imprensa. Que respeitabilidade pode aspirar quem explora a boa-fé do público?

Sociologia de jornal

Nessa semana li uma reportagem no O Povo que não deu tempo de comentar no mesmo dia, quarta-feira 22. O título era “Muro baixo e cadeira na calçada”, e falava sobre a relação entre segurança e paisagem urbana. Mais precisamente, sobre a influência do tamanho dos muros nas mentes criminosas. Vejam trecho: A cidade cresceu, a violência também e o medo às vezes beira a paranóia. Sintomas da metrópole feita de contrastes, mercado lucrativo para a indústria da segurança. Tecnologia e arquitetura estão a serviço da proteção e modificam a paisagem urbana. Não que os tempos não exijam cautela, mas se enclausurar em fortalezas digitais nem sempre é a melhor solução. (…) Grades vazadas e muros baixinhos atrapalham a ação dos bandidos. Quem passa na rua pode flagrar a invasão. Sem falar na nostalgia do murinho baixo, que revela a fachada da casa, e do pessoal à toa na calçada. Para ler a íntegra, clique aqui.

A matéria se baseou numa pesquisa divulgada no Paraná, que afirma que 71% dos criminosos preferem assaltar residências com muros, contra 29%, com grades.

Pois é. Essa modernidade e o capitalismo não se emendam. Tudo para gerar lucro com essa “paranóia”. Por esse prisma, talvez seja mais seguro morar no Afeganistão ou no Zimbábue. A rigor, nesses países não existe nada moderno.

Não li a pesquisa mencionada, mas a forma como as conclusões foram tratadas no jornal revelam inconsistências lógicas nas deduções. Primeiro, porque o número de casas com muros altos é muito maior do que as com muros baixos. Não existe possibilidade matemática de haver mais assaltos nestas do que naquelas. Nos EUA e na Inglaterra, por exemplo, sempre haverão mais assaltos às casas sem muro nenhum, uma vez que nesses países esse é o padrão.

Concluir que muros baixos são mais seguros porque menos assaltados, equivale a dizer que no universo das vítimas de roubo, os albinos estão mais seguros, posto que são minoria nos boletins de ocorrência.

Por último, ainda resta a dúvida: se você fosse um bandido, qual casa lhe pareceria mais lucrativa, com mais produtos de valor para surrupiar: a que se protege com muros e cercas, ou a que deixa as portas abertas? Nesse caso, temos configurada uma ação de puro preconceito contra os pobres por parte dos senhores bandidos. Talvez seja o caso de pensar numa cota para os casa-sem-assalto.

Na verdade, todo assunto vira uma desculpa para os “progressistas” brasileiros exercitarem seus espírito crítico contra a modernidade e o capitalismo. Mesmo quando falam de algo que sempre existiu, muito antes do advento da idade moderna, como a violência urbana. É a mesma turma que defende penas menores e menos presídios para criminosos, bem como a não redução da maioridade penal. A ambição dessas mentes bacanas é transformar o Brasil num Afeganistão ou num Zimbábue.

Apesar de você

Site Ceará Agora:

O procurador Oscar Costa Filho reuniu jornalistas, há pouco, no Ministério Público Federal para anunciar uma Ação Civil Pública contra a realização do Referendo proposto pela prefeita Luizianne Lins (PT) para que a população de Fortaleza decida sobre a construção do empreendimento Iguatemi Empresarial na área ambiental no Parque do Cocó.

Segundo o Procurador Oscar Costa Filho, o legislativo municipal, caso prossiga legislando para a aprovação de Lei que garante o Referendo, estará invadindo as prerrogativas do Poder Executivo de Fortaleza que, através de seus órgãos ambientais, autorizou a construção do edifício ao lado do Shopping Iguatemi. “Este é um ato de violação à Constituição sobre a separação dos Poderes Legislativo e Executivo”, asseverou Oscar. Para ler mais, clique aqui.

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O procurador fala dos aspectos constitucionais do caso, naturalmente. Claro que existem questões morais, éticas e políticas também. A Prefeitura tenta distorcer o conceito de referendo, ou de democracia direta, para promover perseguição política contra um opositor. E o que menos importa é o alvo, nesse caso o tucano Tasso. Poderia ser qualquer outro: Juraci, Cid, Moroni, Heitor Ferrer, não interessa. Muito menos o fim alegado, que é a suposta preocupação o rio Cocó, é relevante. Nesse episódio, os meios utilizados é que são deploráveis.

Por mais que a Prefeitura deseje submeter o direito a propriedade (um dos pilares da civilização) àquilo o que a patota da cueca entende por questões sociais; ainda que lamente, em nota oficial paga, que as leis que protegem o patrimônio (público e privado) não lhes permita usufruir do que não é seu; mesmo assim – ó maldita democracia burguesa – o estado de direito não permite que esses “democratas” persigam adversários ao arrepio da lei. É… Vão ter que se contentar em obdecer à legislação e ao arbítrio do Judiciário, se for o caso, como todo mundo. Essa é a sutil diferença entre o totalitarismo e a democracia: o império das leis.

Falta do que fazer?

Ora, ora. Por alguns momentos, chequei a imaginar que a preocupação da Prefeitura em fazer referendos para tentar barrar obras legais fosse falta de outros problemas mais graves. Leiam notícia do O Povo:

Mais de 1.600 alunos da rede municipal de ensino, no Parque Santo Amaro, estão sem aula. O teto de uma das salas da Escola Municipal de Ensino Infantil e Fundamental (Emeif) Catarina Lima da Silva desabou. Computadores, mesas e cadeiras foram danificados. Ninguém ficou ferido no acidente. No entanto, pais e alunos estão apreensivos. Como as atividades escolares estão suspensas, muitos ainda não sabem quando ou onde as aulas serão retomadas. Com a aproximação do período de provas, outra preocupação é que a falta de aulas prejudique o aprendizado.

(…) Durante a entrevista, o diretor da escola, Francisco Siqueira Pedrosa, disse: “A gente tinha medo (de desabamento), porque a estrutura apresentava defeito, mas a gente não imaginava que seria desse porte. O que foi surpresa foi a laje não ter suportado o peso do trabalhador”.

Para ler a íntegra, clique aqui.

Diga-me com quem andas…

Por Erick Guimarães, no O Povo:

AS VOLTAS DO CASO DA CUECA

O deputado federal José Nobre Guimarães (PT) voltou a ser réu no caso dos “dólares na cueca”. Em junho do ano passado, o deputado havia obtido uma liminar, no Tribunal Regional Federal, retirando seu nome da ação. A liminar acabou se transformando em um trunfo importante para o deputado, que estava em plena campanha eleitoral.

Agora, o jogo virou. Na semana passada, os desembargadores federais Petrúcio Ferreira e Luiz Alberto Gurgel cassaram a liminar e colocaram o nome do deputado petista de volta à ação. Como o acórdão não foi publicado ainda, não se sabe se os bens do deputado voltam a ser bloqueados. Os advogados de Guimarães aguardam essa publicação para avaliar se cabe novo recurso.

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Dizer o quê? Não bastasse o episódio da cueca, o parlamentar confessou, na tribuna da Assembléia Legislativa, ser o operador do caixa 2 petista no Ceará. Alegou como defesa, não ter enriquecido com o dinheiro sujo. Foi o único deputado estadual citado pelo procurador-geral da República.

Agora pensem e observem: Quem Guimarães vai apoiar nas próximas eleições para a Prefeitura de Fortaleza? Ela mesmo.

Sugestões para referendos

Caso eu esteja enganado, e a prefeita de Fortaleza tenha proposto um referendo para decidir sobre a construção de um prédio, obra aprovada pela própria Prefeitura, motivada apenas por convicções superiores, ansiosa por deixar que a população participe de toda e qualquer ação produzida na cidade, tenho algumas sugestões para outros referendos.

  • Você concorda com a redução do valor do IPTU?
  • Multas efetuadas por radares eletrônicos devem ser ressarcidas?
  • É melhor gastar dinheiro público superfaturando cachês de artistas para a festa de Reveillon , ou com o aumento dos salários dos professores?
  • Você prefere que a Prefeitura compre champanhe ou merenda escolar?
  • Trabalhadores autônomos devem pagar ISS?

Desmoralização

Matéria veiculada no jornal O Povo, trata da proposta da prefeita Luizianne de fazer um referendo para que a população decida sobre a construção de um prédio comercial. A presepada visa prejudicar um adversário político, no caso, o senador Tasso Jereissati, responsável pelo empreendimento. Vejam o que diz a matéria:

A titular da Semam [Secretaria Municipal do Meio Ambiente], Daniela Valente, diz que a Secretaria atuou conforme a legislação e garante que tanto a Lei de Uso e Ocupação do Solo, quanto a legislação ambiental permitem a construção na área. “Atuamos de forma técnica e integralmente vinculados à lei. O prédio não está na área de preservação permanente do Cocó e nem é uma área de mangue, por isso concedemos a licença”, informou.

O advogado Luiz Roberto Barroso [do grupo Jereissati] afirma que não é possível uma revogação política de uma licença já concedida. “Numa democracia, a política deve estar submetida ao Direito. Ou o Direito protege os adversários, ou não protege ninguém. Os amigos já têm a amizade, não precisam do Direito”, afirma.

Viram? A própria secretária do Meio Ambiente reconhece a lisura da obra. Luizianne foi desmoralizada por sua equipe. E convenhamos, uma autoridade pública deve tomar suas decisões baseada no princípio da impessoabilidade e da universabilidade. Ou seja, o que ela decide deve valer para todos, não para um alvo escolhido. Ou o prédio pode ser construído, ou nenhum outro na área pode. Talvez seja inocência exigir ética pública de certos administradores.

Repito: em nenhum momento a preocupação de Luizianne foi a questão urbana ou ambiental. O debate sobre o Parque do Cocó serve de camuflagem para uma manobra política arbitrária. É muito improvável que o presidente da Câmara Municipal, vereador Tim Gomes, permita que o Legislativo municipal seriva de instrumento para um golpe contra a democracia.

Referendocracia populista e autoritária

Abaixo, reproduzo fragmenos de dois textos distintos, mas cujos conteúdos são conexos. Primeiro um nota postada no Blog do Eliomar, e depois, um artigo do jurista Paulo Bonavides, publicado no O Povo desta semana. Em seguida, comento um em função do outro.

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Eliomar – A prefeita Luizianne Lins (PT) enviou, na manhã desta quinta-feira, um ofício solicitando à Câmara Municipal a realização de um referendo. O objetivo é saber se a população fortalezense ratificará ou não a licença da Secretaria Municipal do Meio Ambiente (Seman) que assegurou ao Grupo Jereissati a construção da torre empresarial Iguatemi Business Center na área do Cocó.

Pelo ofício, a prefeita informa que a Seman “foi obrigada a conceder a licença porque a Lei de Uso e Ocupaçao do Solo de 1989 trazia um anexo excluindo o terreno do Iguatemi da área de proteção do Rio Cocó.”

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Paulo Bonavides – “Emenda à constituição por iniciativa popular” (clique para ler texto completo).

A democracia direta não é, porém, sem riscos. Assim como o sistema representativo pode cair num grau de decadência e degeneração irremediável, e os sintomas já indicam esse iminente desfecho na realidade brasileira, também os regimes que instauram formas plebiscitárias de atuação do poder podem, por igual, ficar sujeitos a deformações da legitimidade democrática. Nessa hipótese, ao invés da democracia participativa, que é, em verdade, a forma mais pura de aperfeiçoamento legítimo das instituições, ter-se-á, conforme as lições da História, pelos exemplos do cesarismo romano e do populismo plebiscitário de Napoleão já nos advertem, uma espécie abominável de caudilhismo carismático. E a lastimosa conseqüência aí gerada vem a ser o desvirtuamento do processo democrático , com o advento da referendocracia, isto é, a deslegitimação da vontade popular por abuso, distorção e manipulação dos instrumentos constitucionais da democracia direta.

Blog do Wanfil
Um referendo para tratar do uso e ocupação do solo equivale a um outro para tratar de tributação. Nesse caso, a prefeita vai propor um referendo para consultar a população sobre uma revisão de valores para o pagamento do IPTU?

É óbvio que não se trata de uma questão urbanística ou ambiental. Para isso já existe uma legislação. É pessoal. A manobra é escandalosa e deixa escapar uma profunda degeneração dos autores sobre o que deveria ser uma saudável distinção entre o que é público e o que é privado. O uso de instrumentos públicos para perseguir adversários políticos é uma violenta agressão à democracia. É autoritarismo travestido de democratismo.

Notem que a prefeitura foi quem concedeu a licença para a obra. Por que não a embargou? Ora, porque nada havia de ilegal. Pior ainda: o tal ofício se queixa da obrigatoriedade da lei, mal disfarçando um profundo desprezo pelo Estado de Direito. Mas a essa altura, todos sabemos que, para o petismo, a lei pode configurar, dependendo das circunstâncias, um obstáculo ao seu projeto de poder. Foi assim que o ex-ministro boa praça e bonachão Antônio Palloci não titubeou na hora de quebrar, sem autorização judicial, o sigilo bancário do caseiro que o denunciou. Se aproveitar da investidura de um cargo público contra indivíduos revela uma noção de mundo stalinista. E isso ammigos, não é pouca desgraça.

PrefeiTURismo

Notícia publicada no jornal O Povo, na coluna Vertical:

POIS, POIS – E o vice-prefeito de Fortaleza, Carlos Veneranda (PSB), encontra-se em Lisboa (Portugal) conferindo um seminário internacional sobre construção de estádios de futebol. Segundo o Diário Oficial do Município, além das passagens, Veneranda conta com uma diária de R$ 1.848,00. O período: do último sábado até hoje.

Veneranda é engenheiro à serviço do povo de Fortaleza? Possui trabalhos na área esportiva ou de construção civil? Qual o retorno que o passeio renderá à cidade? E por último, e pelo que se viu no caso Reveillon, o mais incômodo: quanto custou a estadia do vice-prefeito no velho continente?

Militante afro-descendente venerando (não resisti ao trocadilho) Portugal, não é crime, claro. Desde que o faça às próprias custas.

Lente da verdade

O deputado Clodovil Hernandes (PTC-SP) e a deputada Cida Diogo (PT-RJ), protagonizam, desde a semana passada, uma briga pessoal cujo palco é o Congresso Nacional. O episódio era para ser irrelevante, mas a deputada insiste em transformar o caso numa causa pública em defesa das mulheres, contra a discriminação sexual e outras bandeiras que não têm nada a ver com o fato. O deputado Clodovil adora falar bobagens com um ar de sapiência de fazer inveja ao presidente Lula, outro eminente acaciano. Não raro, é chato e mal educado. E esse é o seu crime. Mas como o parlamentar é um sujeito que atrai atenções, vira um alvo perfeito para quem deseja aparecer patrulhando o pensamento alheio.

Transformar problemas pessoais em questões sociais é um fenômeno típico desses dias de vigilância politicamente correta. Critique um negro, e você é racista; discorde de um gay, e a acusação de homofobia é automática; peça leis mais duras contra criminosos e classificação de reacionário é inevitável. E quanto mais as reações causam barulho, patrocinadas por grupos organizados, mais receosos ficam as pessoas de emitir simples opiniões, mais controladas e dóceis elas ficam. É a ditadura das minorias. Querer fazer de um indivíduo a representação de um grupo é pura arrogância.

Sobre a briga dos deputados, vale à pena ler parte do artigo “Mulheres ofendidas”, da jornalista Christina Fontenelle, publicado no site do Diego Casagrande.

O deputado havia dito que “as mulheres ficaram muito ordinárias, ficaram vulgares, cheias de silicone e hoje em dia as mulheres trabalham deitadas e descansam em pé”. (…) O deputado pronunciou uma frase que se encaixaria como verdade para muitas mulheres. Para outras não. Mas, o fato é que Clodovil emitiu eminentemente uma opinião pessoal. E está ficando cada dia mais difícil e perigoso emitir opiniões pessoais a respeito do que quer que seja. (…)

Ofensa por ofensa às mulheres, entretanto, na minha opinião, ficou mais qualificada na atitude histérica da deputada Cida Diogo quando, aos prantos, subiu à mesa diretora da Câmara, informando ao deputado Inocêncio Oliveira (PR-PE), que presidia a sessão, que Clodovil havia falado palavras de baixo calão a ela dentro do plenário. Ora, a nobre deputada não luta por direitos iguais entre homens e mulheres? Mulheres não podem ouvir palavrões? Mas, o pior mesmo foi a histeria. É de costume ancestral dizer que mulheres, quando lhes findam os argumentos, desandam a chorar para “vencer” as disputas. (…)

O líder do PT na Câmara, deputado Luiz Sérgio (RJ), tomou a “dor das mulheres” e protocolou, no último dia 11 de maio, na presidência da Câmara uma representação contra o deputado Clodovil Hernandes por quebra de decoro parlamentar. (…) Para o líder do PT, “O deputado Clodovil desrespeitou de forma veemente a Constituição Federal, o Código de Ética e o Regimento da Câmara, incorrendo, sem prejuízo da responsabilização pela prática de crime, em quebra de decoro”. Eu vou omitir neste artigo o nome de algumas dezenas de colegas do deputado Luiz Sérgio que poderiam ser enquadrados nos crimes apontados por sua excelência, por práticas bem piores e muito mais lesivas ao Estado brasileiro. Não por delicadeza, não. É que, no momento, não tenho condições financeiras de ser processada.

Sempre alerta

Um leitor amigo me pede para não ser “brando” com o senador Tasso Jereissati no epsódio da hipotética parceria entre PT e PSDB no futuro.

Quero dizer que a questão não é essa. A especulação sobre uma suposta união entre tucanos e petistas nasceu com o governador de Minas Gerais, o também tucano Aécio Neves. Foi uma espécie de chantagem: “Se eu não for candidato pelo PSDB, serei com o apoio do governo”. Nesse caso, ele é quem deve ser cobrado. Tasso poderia ter repreendido o mineiro? Poderia, mas o PSDB não é uma força unida no momento. Existem muitos candidatos à sucessão de Lula, e pequenas desavenças podem desaguar em dissensões traumáticas. Repito: Tasso disse que em 2010 a aliança entre esses partidos não é provável. Portanto, DISCORDOU de Aécio. Penso mesmo que o senador foi hábil pelos motivos que expus no post original, sem abdicar do seu legítimo papel de oposicionista. Aliás, Tasso trava uma luta meio quixotesca. É o único líder político com mandato, no PSDB, que critica o governo federal. Os demais calaram. Esse isolamento deve ensejar cuidados.

Pode ser que um dia PT e PSDB se aliem? Pode. No Brasil, tudo pode. É bom lembrar que, em tese, ambos são partidos de centro-esquerda. Hoje, o que separa as duas siglas é o modo como da um entende a máquina pública e os métodos políticos utilizados. O PT é herdeiro do voluntarismo autoritário das esquerdas revolucionárias do leste europeu. O PSDB tende mais à racionalidade reformista da esquerda da Europa ocidental. Mais objetivamente, aceitar a companhia de José Genuíno, João Paulo, Professor Luizinho, Delúbio Soares, entre outros, significa aderir àquilo que o Procurador Geral da República denominou de “quadrilha”.

Portanto, não se trata de ser condescendente com ninguém, mas de ser justo ao observar os fatos políticos com atenção. Nas atuais circunstâncias, se Tasso Jereissati ou qualquer outra liderança tucana propusesse uma imediata aliança do PSDB com o partido dos mensaleiros, eu seria o primeiro a condenar-lhe a traição contra seus eleitores e a falta de ética. Sem brandura nenhuma.

O papa, o marxismo e o capitalismo

Bento XVI demonstrou, na visita ao Brasil, que o caminho para o real exame das consciências é a fé, dissociada e distante das paixões políticas, das ideologias e do proselitismo. Não fez concessões a modismos. É o papel que cabe a um religioso consciente das suas atribuições: a de pensar no propósito universal e eterno da criação divina. A pregação do papa centrou a doutrina cristã sob o viés católico, obviamente. Mas seus atos e sua mensgem apelavam a um resgate de valores amplo. Ao assumir os postulados teológicos da igreja, o papa distinguiu o cristianismo do materialismo, do ateísmo, do hedonismo e da degeneração moral da sociedade, cujas bandeiras atuais são a defesa do aborto, da eutanásia, do sexo irresponsável, do fim da família, e da negação de Deus. Não sou católico, mas a importância dessa empreitada humanista merece todo o respeito e admiração.

Em pronunciamento, Bento XVI afirmou que tanto o capitalismo como o marxismo foram incapazes de combater a pobreza e de promover a justiça social na América Latina: “Tanto o capitalismo como o marxismo prometeram encontrar o caminho para a criação de estruturas justas e afirmaram que estas funcionariam por si mesmas… Esta promessa ideológica ficou demonstrada que era falsa.” Em seguida, Bento XVI se disse preocupado com o surgimento de formas de governo “autoritárias” ou sujeitas a doutrinas “superadas” na América Latina.

Obviamente o papa busca evitar rótulos ideológicos que possam desviar o foco da doutrina religiosa. A esquerda mundial acusa o conservadorismo do líder católico como um crime social, afinal, como ele ousa defender a inviolabilidade da vida em vez da eliminação de fetos inocentes? Querem que a igreja se vergue às necessidades de época, aos desejos de grupos organizados. Como resposta, Bento XVI fala em caridade, não em luta de classes. Mas para denunciar isso, ele critica o capitalismo para evidenciar o ensinamento de Cristo: “Dai a César o que é de César”. O riso é fazer parecer igual, auilo o que é diferente desde o princípio.

Não é que o capitalismo esteja imune a críticas, pelo contrário. Acontece que marxismo e capitalismo não são categorias equivalentes, e o papa, intelectual que é, sabe disso. O capitalismo não nasceu de uma concepção prévia, ou de algum plano dirigido. Antes, foi construído por uma somatória de atos individuais ou de grupos, todos calculados para alcançar objetivos específicos, mas sem conexão premeditada no conjunto. Nesse processo, doutrinas políticas, como o liberalismo, se formaram concomitantemente ao desenvolvimento dessas relações de produção, como críticas ou como legitimadoras do sistema. O marxismo tem outra natureza. É uma proposta de intervenção na realidade que ambiciona ser uma cultura integral, materialista na essência e consagrada no ódio de classes, embora dissimule isso com o discurso da igualdade plena (obviamente impossível). A crítica do papa ao capitalismo soa mais como uma licença para poder criticar o marxismo, e a prova disso é o seu alerta contra as “doutrinas superadas” que flertam com o autoritarismo: se existe no mundo uma doutrina que apenas se viabiliza com o uso da força, com o invariável controle das discordâncias pelo uso da violência, esse é o marxismo.

É preciso saber ler os fatos políticos 2

Ainda sobre as declarações de Tasso (ver post abaixo).

O senador Jereissati trabalha em duas frentes claras:

A primeira é de âmbito nacional. É óbvio que o tucano, presidente nacional do PSDB, precisava contemporizar as declarações do correligionário Aécio Neves, um dos favoritos à sucessão de Lula, e que ensaia ter o apoio do PT em 2010. Tasso discordou sem, no entanto, desautoriza-lo ou constrangê-lo. Disse que lá na frente pode ser, mas que agora é difícil. Simples. O que vai dar? Não sei, o jogo sucessório está em andamento e possui muitas variáveis.

A segunda frente é de âmbito local. O próprio Tasso conversou com Lula dias atrás. Da conversa, o compromisso com a siderúrgica foi resgatado. O senador tucano hoje faz o papel que caberia à base de apoio do presidente no Ceará, mais precisamente, às bancadas federais do PT, PCdoB e PSB, e aos senadores Inácio Arruda e de Patrícia Sabóya. Como esses não possuem respaldo junto ao Planalto, eis que Tasso passou a ser o interlocutor dos interesses do Ceará em Brasília. Nessa condição, convém, por enquanto, que a agressividade dos seus pronunciamentos diminua, naturalmente.

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