O papa, o marxismo e o capitalismo
Bento XVI demonstrou, na visita ao Brasil, que o caminho para o real exame das consciências é a fé, dissociada e distante das paixões políticas, das ideologias e do proselitismo. Não fez concessões a modismos. É o papel que cabe a um religioso consciente das suas atribuições: a de pensar no propósito universal e eterno da criação divina. A pregação do papa centrou a doutrina cristã sob o viés católico, obviamente. Mas seus atos e sua mensgem apelavam a um resgate de valores amplo. Ao assumir os postulados teológicos da igreja, o papa distinguiu o cristianismo do materialismo, do ateísmo, do hedonismo e da degeneração moral da sociedade, cujas bandeiras atuais são a defesa do aborto, da eutanásia, do sexo irresponsável, do fim da família, e da negação de Deus. Não sou católico, mas a importância dessa empreitada humanista merece todo o respeito e admiração.
Em pronunciamento, Bento XVI afirmou que tanto o capitalismo como o marxismo foram incapazes de combater a pobreza e de promover a justiça social na América Latina: “Tanto o capitalismo como o marxismo prometeram encontrar o caminho para a criação de estruturas justas e afirmaram que estas funcionariam por si mesmas… Esta promessa ideológica ficou demonstrada que era falsa.” Em seguida, Bento XVI se disse preocupado com o surgimento de formas de governo “autoritárias” ou sujeitas a doutrinas “superadas” na América Latina.
Obviamente o papa busca evitar rótulos ideológicos que possam desviar o foco da doutrina religiosa. A esquerda mundial acusa o conservadorismo do líder católico como um crime social, afinal, como ele ousa defender a inviolabilidade da vida em vez da eliminação de fetos inocentes? Querem que a igreja se vergue às necessidades de época, aos desejos de grupos organizados. Como resposta, Bento XVI fala em caridade, não em luta de classes. Mas para denunciar isso, ele critica o capitalismo para evidenciar o ensinamento de Cristo: “Dai a César o que é de César”. O riso é fazer parecer igual, auilo o que é diferente desde o princípio.
Não é que o capitalismo esteja imune a críticas, pelo contrário. Acontece que marxismo e capitalismo não são categorias equivalentes, e o papa, intelectual que é, sabe disso. O capitalismo não nasceu de uma concepção prévia, ou de algum plano dirigido. Antes, foi construído por uma somatória de atos individuais ou de grupos, todos calculados para alcançar objetivos específicos, mas sem conexão premeditada no conjunto. Nesse processo, doutrinas políticas, como o liberalismo, se formaram concomitantemente ao desenvolvimento dessas relações de produção, como críticas ou como legitimadoras do sistema. O marxismo tem outra natureza. É uma proposta de intervenção na realidade que ambiciona ser uma cultura integral, materialista na essência e consagrada no ódio de classes, embora dissimule isso com o discurso da igualdade plena (obviamente impossível). A crítica do papa ao capitalismo soa mais como uma licença para poder criticar o marxismo, e a prova disso é o seu alerta contra as “doutrinas superadas” que flertam com o autoritarismo: se existe no mundo uma doutrina que apenas se viabiliza com o uso da força, com o invariável controle das discordâncias pelo uso da violência, esse é o marxismo.