Sociologia de jornal
Nessa semana li uma reportagem no O Povo que não deu tempo de comentar no mesmo dia, quarta-feira 22. O título era “Muro baixo e cadeira na calçada”, e falava sobre a relação entre segurança e paisagem urbana. Mais precisamente, sobre a influência do tamanho dos muros nas mentes criminosas. Vejam trecho: A cidade cresceu, a violência também e o medo às vezes beira a paranóia. Sintomas da metrópole feita de contrastes, mercado lucrativo para a indústria da segurança. Tecnologia e arquitetura estão a serviço da proteção e modificam a paisagem urbana. Não que os tempos não exijam cautela, mas se enclausurar em fortalezas digitais nem sempre é a melhor solução. (…) Grades vazadas e muros baixinhos atrapalham a ação dos bandidos. Quem passa na rua pode flagrar a invasão. Sem falar na nostalgia do murinho baixo, que revela a fachada da casa, e do pessoal à toa na calçada. Para ler a íntegra, clique aqui.
A matéria se baseou numa pesquisa divulgada no Paraná, que afirma que 71% dos criminosos preferem assaltar residências com muros, contra 29%, com grades.
Pois é. Essa modernidade e o capitalismo não se emendam. Tudo para gerar lucro com essa “paranóia”. Por esse prisma, talvez seja mais seguro morar no Afeganistão ou no Zimbábue. A rigor, nesses países não existe nada moderno.
Não li a pesquisa mencionada, mas a forma como as conclusões foram tratadas no jornal revelam inconsistências lógicas nas deduções. Primeiro, porque o número de casas com muros altos é muito maior do que as com muros baixos. Não existe possibilidade matemática de haver mais assaltos nestas do que naquelas. Nos EUA e na Inglaterra, por exemplo, sempre haverão mais assaltos às casas sem muro nenhum, uma vez que nesses países esse é o padrão.
Concluir que muros baixos são mais seguros porque menos assaltados, equivale a dizer que no universo das vítimas de roubo, os albinos estão mais seguros, posto que são minoria nos boletins de ocorrência.
Por último, ainda resta a dúvida: se você fosse um bandido, qual casa lhe pareceria mais lucrativa, com mais produtos de valor para surrupiar: a que se protege com muros e cercas, ou a que deixa as portas abertas? Nesse caso, temos configurada uma ação de puro preconceito contra os pobres por parte dos senhores bandidos. Talvez seja o caso de pensar numa cota para os casa-sem-assalto.
Na verdade, todo assunto vira uma desculpa para os “progressistas” brasileiros exercitarem seus espírito crítico contra a modernidade e o capitalismo. Mesmo quando falam de algo que sempre existiu, muito antes do advento da idade moderna, como a violência urbana. É a mesma turma que defende penas menores e menos presídios para criminosos, bem como a não redução da maioridade penal. A ambição dessas mentes bacanas é transformar o Brasil num Afeganistão ou num Zimbábue.
Nenhum Comentário
Nenhum comentário ainda.
Feed RSS dos comentários deste post. TrackBack URI