Relembrando

O Pagador de Promessas, filme de Anselmo Duarte, de 1962.
Para Zé do Burro (Leonardo Villar), trabalhador humilde e homem de valor, promessas eram compromissos em nome dos quais valia arriscar até a vida, e as palavras tinham o peso de uma cruz. É que ele se levava a sério…

A semana que passou foi marcada por mais um capítulo da arrastada novela sobre a siderúrgica no Ceará. O presidente da Petrobrás, Sérgio Gabrielle, afirmou, numa reunião com membros da bancada federal cearense, que o negócio seria inviável e que o estado não teria condições de receber o investimento. As declarações contrariam a disposição de vários investidores dispostos a participar do empreendimento, e o próprio Gabrielle, em passado recente, assinou documentos oficiais que na prática atestavam positivamente o negócio. Chico Lopes (PCdoB) e Ariosto Holanda (PSB), deputados federais cearenses da base governista em Brasília, não ficaram calados, não: valentes representantes do povo, concordaram com a humilhação imposta ao Ceará.

Sobre todo esse imbróglio, não há muito o que ser dito. O presidente da Petrobrás é subordinado ao ministro da Minas e Energia, que é subordinado a Lula, que foi quem obteve votos com a promessa de viabilizar a siderúrgica. Fiz comentários a respeito, inclusive em artigos de jornal. Vejam alguns deles:

SinaO Brasil se acostumou a ver o Nordeste como um ente inferior, eternamente necessitado da ajuda dos mais prósperos, ou dos menos pobres. E mesmo quando um estado nordestino trabalha no intuito de se emancipar, poupando para aplicar em infra-estrutura e capacitação, desenvolvendo projetos de geração de renda, estabelecendo parcerias e fechando contratos, mesmo quando tudo isso é feito, as contrapartidas contratuais do governo federal são confundidas como concessão, como favor caridoso. (…) Cabe aos cearenses lembrar aos seus arrogantes parceiros que não estão suplicando bondades, mas cobrando, e exigindo, que se cumpra a palavra empenhada num acordo firmado. E não custa lembrar que promessa de camapanha é uma forma de contrato moral.

Promessa é dívida 1O governo não sabe para onde vai, está perdido, não tem planos para trabalhar a matriz energética, é refém de vizinhos, faz e depois desfaz, diz e depois desmente, e termina por prejudicar um Estado gratuitamente. (…) O Ceará deu uma das maiores votações proporcionais a Lula, mesmo depois de ter ficado quatro anos sem obras federais importantes. Nem a Sudene, nem o metrô, nem a transposição do Rio São Francisco, nem a refinaria (foi para Pernambuco), nada. Talvez isso tenha encorajado o governo a dispensar esse tratamento aos cearenses. Igual mulher de bêbado. Ela apanha sem motivos mas não tem coragem de ir embora. E por isso mesmo ele abusa.

Promessa é dívida 2A siderúrgica constava na relação de obras que o presidente “amigo dos nordestinos” ofereceu aos eleitores. Não foi uma promessa generalista, que poderia depois ser explicada como meta orientadora, feito os 10 milhões de empregos da outra eleição. Nada disso. Foi uma garantia concreta de investimento, objetiva, com lugar, parceiros e contratos definidos. A maioria acreditou no discurso. (…) Ainda que recue, o governo já demonstrou até onde é capaz de ir. Perdido, falta com a palavra; acuado, mente e culpa terceiros. Sem o cumprimento da promessa feita, ou seja, sem a siderúrgica no Ceará, o episódio será a consumação de uma fraude monumental, com amplo material comprovatório. Será mais um estelionato eleitoral. Será o apogeu do cinismo e da mentira. Depois reclamam da imprensa. Que respeitabilidade pode aspirar quem explora a boa-fé do público?

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