Começo a desconfiar que as diferenças entre o Brasil e a Venezuela são menores do que se pensa. E mais: com vantagem para os venezuelanos.
É verdade que Chávez, aos poucos, se revela um típico caudilho latino americano. Nesse processo, porém, alguns acontecimentos revelam uma nação em crise. No últimos dias, sucessivas passeatas e protestos de estudantes nas ruas de Caracas (manifestações pacíficas e apartidárias), indicam um claro choque de visões, um embate natural, dentro daquela sociedade, sobre os rumos a seguir. Pessoas saem às ruas em defesa da liberdade de expressão. Em vão, mas saem.
E no Brasil? No Brasil, imposições são desnecessárias. Os estudantes brasileiros que se manifestam de forma organizada, por exemplo, o fazem a serviço do partido no poder e de seus parceiros. Sindicalistas também. Intelectuais e jornalistas, idem, com honrosas excessões. Gente que garante que o mensalão foi uma tentativa de golpe, e que não acham injusto Delúbio Soares e Silvio Pereira estarem soltinhos por aí. Vivemos num país em que o presidente da República confessou, em rede nacional, ter sido eleito com dinheiro de caixa dois, alegando, a seu favor, nada saber. E tudo ficou por isso mesmo. A conclusão é óbvia: para que fazer barulho?
O Brasil está anestesiado.
Oposição?
E tem mais. Se não bastasse o estado geral de torpor e cansaço da sociedade brasileira, que diante da constatação de que não existiu nunca um partido de trabalhadores puros e santos, que diante da comprovação de que o monopólio da ética por um grupo era mentira, que diante de tudo isso não consegue mais reagir, ficando insensível a escândalos como o de Renan Calheiros (muito pior que o de Severino Cavalcante), temos ainda uma oposição como desarticulada, omissa e, muitas vezes, servil. Não apenas no parlamento, mas na sociedade inteira.
Costumo a ser um crítico ácido do pensamento esquerdista, mas reconheço em seus defensores obstinação e competência. Durante anos trabalharam para conquistar os corações e as mentes dos brasileiros. E seus adversários, fizeram o quê? Somente assistiram a banda passar. Agora, a “direita” brasileira começa a perceber a própria fragilidade: desacreditada, sem autoridade, resta-lhe fazer papel de figurante.
Sem oposição, atos de exceção são desnecessários. Chávez deve ter inveja de Lula.
Irrevelantes
Num quadro mais amplo, a esquerda passa a dar as cartas na América Latina. Chavez na Venezuela, Morales na Bolívia, Rafael Correa no Equador, e com mais discrição, Lula no Brasil, comandam o retrocesso ideológico que põe o continente na contramão da história.
A América Latina se isola cada vez mais do resto do mundo, mantando apenas pontes comerciais, que nossos socialistas odeiam o capitalismo mas não são loucos de rasgar dinheiro. No entanto, caminhamos rapidamente para a irrelevância no cenário internacional. Azar o nosso.