Quebra-cabeças do noticiário econômico

As notícias são como peças. É preciso saber reuní-las para termos uma imagem mais abrangente da realidade.


As notícias abaixo, embora não possuam conexão direta entre si, uma vez combinadas, revelam a conjuntura geral da política ecoômica brasileira.

Agência Estado: País é ´leopardo do crescimento´ freado pelo Estado, diz FT - Londres – O jornal Financial Times publica nesta quarta-feira, 20, um caderno especial sobre o Brasil, avaliando-o como um “leopardo do crescimento” freado pelo peso do Estado. (…) O FT enfatiza a discrepância entre o papel do setor privado no crescimento e modernização da economia brasileira em relação ao setor público, cujo tamanho e custo limitam uma performance ainda melhor. “Dois motores. Dois Brasis”, diz o diário britânico.

Folha de São Paulo (só para assinantes) – Governo cria mais 626 cargos de confiança – Abertura de vagas do tipo DAS é a maior desde 2004; sob Lula, a quantidade dessas nomeações no Executivo bateu recorde. (…) Além das necessidades administrativas alegadas pelo Planalto, a combinação das duas medidas facilitará as negociações políticas para a composição do governo e reforçará o caixa do PT, que recebe parte do salário dos filiados que ocupam cargos públicos.
O Povo: Receita nega carga maior – A arrecadação de tributos federais atingiu R$ 234,7 bilhões de janeiro a maio – novo recorde histórico. O valor é 10,8% maior que o registrado em igual período do ano passado e revela que os brasileiros pagaram R$ 1,55 bilhão em tributos em cada um dos 151 dias desses cinco meses. Em maio, a arrecadação cresceu 12,9% e somou R$ 45,4 bilhões, recorde histórico para os meses de maio.

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Reunindo as peças, o quadro é o seguinte: O governo federal gasta muito e gasta mal. Em vez de cortar despesas, contrata correligionários, aparelhando a máquina. É um indicativo claro de mistura de interesses entre o público e o privado. Como não corta custos, o governo precisa de mais dinheiro. Para isso, faz o quê? Precisa aumentar arrecadação, elevando, naturalmente, a carga tributária, desistimulando a poupança interna e punindo o investimento de longo prazo. Aí o país não cresce o que poderia.
Moral: o cidadão paga o preço da ineficiência . E o pior é achar que a economia vai de vento em popa.
Resultado: Há dois anos só crescemos mais que o Haiti, na América Latina.

Professores promovem quebradeira na CMF

Foto tirada por Cid Barbosa, para o Diário do Nordeste, ilustra a reportagem Violência na Câmara (clique no título para ler texto completo). O repórteres Marcus Peixoto e Fernando Brito registraram: “A Câmara Municipal de Fortaleza virou, novamente, praça de guerra envolvendo guardas municipais e professores. Os conflitos aconteceram, ontem, durante a votação do Plano de Cargos, Carreiras e Salários (PCCS) da Educação. “Spray” de pimenta e cassetetes foram utilizados pelos guardas para conter a desordem dos manifestantes contrários a proposta do Poder Executivo.”

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Não vou falar sobre o mérito da questão, quero me ater ao método. Não sou daqueles que acreditam que os fins justificam os meios. Nunca. Nem que seja um protesto contra a base de apoio da Prefeitura de Fortaleza. Trata-se de um fundamento ético, portanto, universal e extensivo.

Depois de tentar invadir o plenário da Câmara e de jogar pedras em vidraças, alguns professores ficaram indignados com a violência da guarda municipal. Queriam o quê? Depredar o patrimônio público sem ser incomodados? O que esse pessoal ensina nas salas de aula?

Não digo que as reivindicações dos professores sejam justas ou injustas. Não é o caso. Importa destacar que, se vivemos em plena vigência no Estado Democrático de Direito, essa história de invasão e de quebra quebra deve SEMPRE ser reprimida, não com flores, mas com o legítimo uso da força. E isso não é radicalismo, é democracia. Existem formas de mediação de conflitos garantidas por lei, preferíveis à tentação de se fazer justiça com as próprias mãos.

Há quem ache legítimo destruir bens públicos. O petista Bruno Maranhão, que comandou a invasão do Movimento de Libertação dos Sem Terra ao Congresso Nacional, em junho do no ano passado, é o herói de muita gente. Foi convidado e compareceu à segunda posse de Lula. O episódio não deu em nada, o sujeito não foi punido, e a omissão das autoridades terminou por legitimar a violência como instrumento de protesto.

Os guardas municipais estão de parabéns, merecem o reconhecimento da Câmara de Vereadores e da Prefeitura de Fortaleza.

Governo federal corta ponto de grevistas

Charge do Angeli – UOL

Presídio de segurança mínima

Jornal O Povo desta quarta-feira: Preso é encontrado morto na quadra de esportes do IPPS – Um homem foi encontrado morto no IPPS na manhã de ontem (clique na manchete para ler a íntegra). Segundo a Polícia, o preso foi espancado com cossocos e barras de ferro e o corpo foi jogado do prédio do pavilhão para uma quadra. (…) Segundo o sindicato dos agentes prisionais do Estado, este ano, 16 detentos foram mortos. Destes, sete no IPPS.

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Um sujeito é espancado com barras de ferro em silêncio? Ninguém ouviu nada? Se foi um acerto de conta entre criminosos, isso não importa. Esses indivíduos estão sob guarda do poder público. Se a autoridade do Estado não prevalece nem mesmo em recintos fechados de sua exclusiva responsabilidade, que dirá o resto.

O sistema prisional cearense faliu estrondorosamente. O secretário Marcos Cals, titular da pasta da Justiça, que administra os presídios, precisa dar explicações para o verdadeiro vale-tudo que impera nessas instituições. Dezesseis mortes é um acinte! É preciso que as responsabilidades sejam arcadas por quem de direito. Do jeito que está, as conclusões somente podem variar entre a omissão, a incompetência, o abandono ou a conivência.

Não basta gritar

O vereador José Maria Pontes (PT), e o advogado João Afredo, filiado ao PSOL e representante do Greenpeace, participaram de uma audiência pública na Câmara dos Vereadores para debater os impactos ambientais no Rio Cocó.

Eu já havia alertado para o fato de que o referendo ensejaria discursos de preservação ecológica que, invertendo os fatos, transformariam o agredido em agressor. É o uso da difamação como arma política. Pois bem, vejam trechos de matéria veiculada no jornal O Estado desta terça (clique aqui para ler texto completo):

O vereador José Maria Pontes, autor do requerimento, ressaltou a importância de um debate como esse (…). “Basta a essa agressão feita pelo homem ao Cocó, principalmente o poder econômico que de maneira imoral está destruindo toda a área”. Ele ainda destacou que o poder econômico coloca seus interesses acima dos interesses coletivos. “A única coisa que podemos fazer é estar nessa sessão gritando”. Para João Alfredo a prefeitura cometeu um erro ao licenciar o empreendimento. (…) “No meu entendimento como professor de direito ambiental, eu acho que não. Eu acho que a licença ambiental que foi concedida a torre do Iguatemi ela foi dada contra o direito ambiental”.

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Falas contraditórias - O vereador José Maria diz que não há nada a fazer senão gritar, enquanto o professor de direito ambiental João Alfredo afirma que a licença concedida ao Grupo Iguatemi para a construção é ilegal. Ora, por que eles não entram com uma ação judicial? Não querem ou não podem? Cabe lembrar que o Ministério Público Federal declarou que o Iguatemi não ocupa a área destinada ao Parque do Cocó.

Privado X coletivo – Pontes se antecipa a qualquer cobrança de materialização do seu discurso. Acusa o “poder econômico” de não respeitar o interesse coletivo. E depois confessa que poder apenas gritar a força da “grana que ergue e destrói coisas belas”, como diria Caetano Veloso. Claro que o tal “poder econômico” é uma insinuação contra o Grupo Jereissati. Indiretamente, visa atingir o adversário político Tasso Jereissati, dono do empreendimento. Trata-se de uma generalização irresponsável e oportunista. O supermercado Extra, que pertence a uma multinacional poderosíssima, teve a construção de uma filial no bairro da Parangaba embargada por conta de documentação ilegal. Cadê o poderio econômico? E quanto aos populares, pessoas humildes que jogam lixo no rio Cocó, elas se preocupam com o interesse coletivo? A suposta incompatibilidade entre investimento privado e interesse coletivo é uma retumbante mentira. Mas dá voto e ar de crítico desinteressado e bacana.

Convicções à prova – Alfredo e José Maria, se acreditam no que falam, devem operacionalizar suas idéias. Se sabem do erro, devem buscar, via Poder Judiciário, impedir o que consideram ilegal. E se perderem, devem reconhecer o mérito dos vencedores. De outro modo, pode parecer que ambos agem motivados apenas por interesses políticos partidários.

Texos bons não envelhecem

No post abaixo fiz um comentário utilizando uma frase do escritor Otto Lara Resende (foto). Seus aforismos eram precisos e diretos. Mas sua prosa também podia ser profunda e tocante. Confiram:

“Uma criança vê o que um adulto não vê. Tem olhos atentos e limpos para o espetáculo do mundo. O poeta é capaz de ver pela primeira vez o que de tão visto ninguém vê. Há pai que nunca viu o próprio filho. Marido que nunca viu a própria mulher. Isso exige às pampas. Nossos olhos se gastam no dia-a-dia, opacos.

É por aí que se instala no coração o monstro da indiferença”. – Vista Cansada

Saiba mais sobre Otto Lara Resende e sua obra no site Releituras.

Greve boa é no governo dos outros

Matéria no O Povo: Ponto cortado O governo Lula vai usar o corte dos dias parados no pagamento dos salários dos servidores do Incra e Ibama como exemplo para outras categorias que estão em greve ou ameaçam paralisar suas atividades. Com isso, espera acabar com um efeito cascata no funcionalismo, com uma greve puxando outra.

Matéria no Diário (dia 10/06): Servidores mantêm a escala durante a greve [Fortaleza] A greve dos servidores do Serviço de Atendimento Móvel de Urgência (SAMU) entra hoje no quinto dia. No plantão de ontem, os grevistas denunciaram a sobrecarga de plantões dos prestadores de serviço. (…) Os servidores do SAMU disseram ontem que não vão mais suspender o movimento para negociar com a Prefeitura de Fortaleza (…). “Não houve negociação, a reunião foi uma estratégia para desmobilizar o movimento”, critica o socorrista Francisco Martins de Sousa Júnior, do comando da greve da categoria.

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Quando estavam na oposição, os partidos de esquerda não perdiam a oportunidade, por mais absurda que fosse a pauta de reivindicações, de insuflar, apoiar e reforçar greves contra os governos dos outros. Muitos acreditavam que era por convicção, que a “defesa dos interesses dos trabalhadores” era desinteressada. É, os antigos companheiros de passeata são tratados agora com mais rigor do que antes.

O jornalista e escritor mineiro mineiro Otto Lara Resende cunhou uma máxima que explica perfeitamente o episódio:

“Patrão de esquerda só é bom até o dia do pagamento.”

A frase extraída do livro “Otto Lara Resende: a poeira da Glória”, de Benício Medeiros, editora Relume Dumará – Rio de Janeiro, 1998, pág. 137.

PS. Não custa lembrar que essas greves são eventos pontuais. Nas eleições, os sindicatos se alinharão rapidinho com o comando partidário que os domina.

Vulgaridades

A semana que passou foi marcada por duas declarações que enriqueceram, por assim dizer, a crônica que teima em reunir pornochanchada e política. Ambas foram proferidas por ocasião do lançamento do Plano Nacional do Turismo, quarta-feira, 13.

A ministra do Turismo, Marta Suplicy, indagada sobre o que o governo diria aos turistas que sofrem nos aeroportos, em razão do caos aéreo, respondeu: “Relaxa e goza porque você vai esquecer dos transtornos”. A ministra, que é sexóloga, usou um expressão comumente associada ao estupro, certamente por considerá-la ilustrativa da relação entre governo o federal e a população. Bem entendido, o que Marta disse foi: “Não adianta reclamar, vocês estão f…”.

Em seguida, a ministra responsabilizou as empresas aéreas por não comprarem aviões e disse que o problema é mundial. Imagino como os aeroportos no Japão e na Europa devem estar lotados de turistas dormindo no chão. Por fim, ela pediu desculpas em nota oficial e disse que também sofre com atrasos nos vôos. Relaxa e apoveita, Marta. Governo serve pra quê, né? Imaginem se isso fosse no mandato de FHC (lembram do nhém, nhém, nhém?).

A outra pérola foi do chefão Lula. Dando lições sobre turismo, o presidente alertou os presente sobre a necessidade de estimular nas pessoas um estado de espírito propício às viagens, e lascou: “Você tem que estar convencido, você tem que levantar e tudo dentro de casa tem que estar com energia positiva. A mulher tem que acordar: ‘amorzinho, vamos’. Se ela começar xingando, o marido já não vai. Já bota o cuecão e fica deitado ali mesmo“. Acredito que Lula foi o primeiro petista a falar em cueca depois daqueles dólares.

Sobre o caso, leiam comentário postado no blog do ex-deputado Roberto Jefferson:

O “cuecão” soltado por Lula, ontem [quarta], em discurso que queria ser descontraído, revelou, mais uma vez, a falta de liturgia e a ausência de ética e respeito para com a coisa pública. Cuecas são peças atávicas ao lulismo – primeiro, o cuecão de couro para carregar dinheiro, agora, temos o cuecão turístico. O relaxamento da linguagem da ministra Marta, ontem, mostrou a que nível desceu essa turma que se mete em uma trapalhada atrás da outra e aceita que amantes de senadores sejam pagas com dinheiro público. Depois do mensalão, é o governo da suruba.

Jefferson
não é santo, todos sabemos e ele confessa. Mas quando o assunto é ausência de ética nos bastidores do poder, ele fala com conhecimento de causa.

Como nasce um estado policial

Interessante artigo no site Consultor Jurídico, assinado por Cláudio Júlio Tognolli, a respeito da atuação da Polícia Federal no combate à corrupção. Vejam trecho (para ler o texto completo, clique aqui).

Sucesso de público e de mídia, as operações da Polícia Federal mostram que a impunidade já não mora mais aqui. Não se poupa o presidente do Senado nem o presidente da República. Acima de tudo está o interesse público. Essas meias verdades valem para as operações que brilham no horário nobre das televisões. Mas não para casos de baixo teor de octanagem midiática. É o caso do policiamento das fronteiras, por exemplo.

Avenidas largas por onde entram no país as toneladas de drogas e armamentos que alimentam o crime pesado, as comarcas de Foz do Iguaçu e da Amazônia estão desguarnecidas. E são os próprios policiais federais dessas regiões que denunciam: quem está cuidando das apreensões de armas e cocaína nesses locais é a guarda municipal das cidades fronteiriças. (…)

O risco é se a sedução da notoriedade começa a “justificar” um estado policial em que os direitos fundamentais fiquem em segundo plano. Fatos mal apurados. Em vez de provas, insinuações de grande apelo popular, mas sem qualquer valor jurídico.

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Há um clima de decepção no Brasil. A polícia prende e a justiça solta. Na verdade, as leis é que soltam, e muitas vezes, em quase todas, os inquéritos de investigação são mal feitos. Deixam brechas. Cabe ao Judiciário fazer valer as leis e à polícia coletar provas mais robustas. Gravação telefônica é prova de crime? Pode ser, mas não basta. Eu posso muito bem confessar que matei John Kennedy, mas sem o flagrante, sem a arma do crime e sem testes periciais, nada feito. Fico soltinho.

Claro que corrupto não falta no país. Que sejam investigados se houverem indícios, e punidos, caso hajam provas. Mas o artigo de Cláudio Júlio acerta ao lembrar duas coisas: 1) o padrão de eficiência da Polícia Federal não pode ser generalizado pelo “sucesso” das tais operações; 2) a atmosfera de estado policial, que persegue indivíduos ao sabor de questões alheias ao ordenamento jurídico.

No primeiro caso, a opção por dar publicidade a essas operações, deixando de lado outras atribuições exclusivas da Polícia Federal, indica uma escolha política. E isso é perigoso, ainda mais quando setores da corporação se deixam influenciar por disputas partidárias.

O segundo caso, na verdade, pode ser visto como consequência dessa inclinação política. Em todos os estados policiais que existiram, da Alemanha de Hitler à Rússia de Stálin, as forças policiais do Estado começaram por prender criminosos em ações de impacto, para depois, com a credibilidade conquistada, começar a perseguir os adversários do poder estabelecido, acusando e prendendo opositores. E a justificativa era: Quem pode ser contra a prisão de corruptos, senão eles mesmos?

O verdadeiro alvo do referendo – ou Imagem é tudo

Quem acompanhou o noticiário sobre a realização do referendo proposto pela Prefeitura de Fortaleza acerca de uma construção privada, sabe da inviabilidade jurídica da consulta. Além do empreendimento ser perfeitamente legal, como atesta a própria Prefeitura, a opção configura distorção abusiva da lei, com o intuito de perseguir adversários.

Sendo inviável o referendo da forma que foi sugerido, outras leituras rapidamente apareceram: teria sido vingança, fruto de um impulso colérico da prefeita contra o tucano Tasso Jereissati, em virtude do escândalo do Reveillón ; ou uma pegadinha para ver quem os Ferreira Gomes apoiariam; ou apenas uma denúncia contra a “legislação permissiva” e a favor da ecologia etc. Pode ser que essas questões tenham influenciado a decisão de Luizianne Lins, mas se foram, figuram apenas como adornos decorativos, como acessórios, pois o principal motivo é outro.

A perguntas que devemos nos fazer são: 1) O que faz uma autoridade constituída arriscar a própria reputação numa batalha impossível de ser vencida? 2) Que ganham seus partidários com isso?

A resposta é simples. Quem age assim sabe possuir a simpatia dos formadores de opinião, que se recusarão a ver algo desabonador no ato, salvo honrosas exceções. No máximo, e muito a contragosto, dirão que foi um erro bobo. Hoje mesmo, no O Povo, a procuradora Élia Rocha, do Ministério Público estadual, assina artigo acusando o Shopping Iguatemi de ter destruído parte do Parque do Cocó. Ora, a região era uma salina… No mesmo jornal, um anúncio do shopping apresenta o geólogo Reginaldo Leal, uma das maiores autoridades do Estado no assunto, constatando que o espaço foi “esplendorosamente” recuperado. Isso nos dá uma idéia de quanto o assunto já fugiu de sua questão central, que é a legalidade da proposta e, mais a fundo, os objetivos políticos que a impulsionam.

Quanto à segunda indagação, seus partidários conseguem aquilo o que na verdade sempre quiseram: difamar o inimigo, como estratégia política, desgastando-o, invertento os papéis, para transformar os agredidos em agressores da lei. De quebra, o grupo político de Luizianne consegue fazer sombra a um outro assunto, esse sim, mal explicado: as contas do Reveillón da capital.

Tucanos no muro

Ficar escondido atrás do muro, espiando os acontecimentos por cima, é uma maneira evitar riscos e de não assumir compromissos. Tal procedimento pode garantir, num primeiro instante, pequenas vantagens. Mas com o tempo, a imagem que se consolida é a da falta de convicções, e consequentemente, a do descrédito.

O programa Ronda do Quarteirão tem sido alvo de uma discussão sobre a política de segurança no Ceará. O governo Cid Gomes elaborou um edital para a compra de veículos para o patrulhamento nas ruas. O texto exige tantas especificidades, que somente o carro Hilux pode contemplá-las.

O deputado Heitor Férrer (PDT) critica o edital alegando o princípio da economicidade, ou seja, o parlamentar afirma que existem carros semelhantes e mais baratos que poderiam ser usados. Já o deputado Nelson Martins (PT), líder do goerno na Assembléia, defende o edital, com o argumento de que as exigências visam um serviço de maior qualidade.

O distinto público pode concordar ou não com esses deputados e seus partidos. O eleitor pode conferir, às claras, a atuação dos seus representantes. Mas… E os tucanos?

O que pensam os tucanos cearenses? Ensaiaram um defesa tímida do programa, mas depois sumiram. Parece que aguardam para ver o que acontece. Mais uma vez reforçam a impressão de que são eternos indecisos. Pode ser medo; é mais provável, no entanto, que seja quase um automatismo, um mau-hábito. Querer agradar a todos é sempre um erro.

Sem oposição fica mais fácil

Começo a desconfiar que as diferenças entre o Brasil e a Venezuela são menores do que se pensa. E mais: com vantagem para os venezuelanos.

É verdade que Chávez, aos poucos, se revela um típico caudilho latino americano. Nesse processo, porém, alguns acontecimentos revelam uma nação em crise. No últimos dias, sucessivas passeatas e protestos de estudantes nas ruas de Caracas (manifestações pacíficas e apartidárias), indicam um claro choque de visões, um embate natural, dentro daquela sociedade, sobre os rumos a seguir. Pessoas saem às ruas em defesa da liberdade de expressão. Em vão, mas saem.

E no Brasil? No Brasil, imposições são desnecessárias. Os estudantes brasileiros que se manifestam de forma organizada, por exemplo, o fazem a serviço do partido no poder e de seus parceiros. Sindicalistas também. Intelectuais e jornalistas, idem, com honrosas excessões. Gente que garante que o mensalão foi uma tentativa de golpe, e que não acham injusto Delúbio Soares e Silvio Pereira estarem soltinhos por aí. Vivemos num país em que o presidente da República confessou, em rede nacional, ter sido eleito com dinheiro de caixa dois, alegando, a seu favor, nada saber. E tudo ficou por isso mesmo. A conclusão é óbvia: para que fazer barulho?

O Brasil está anestesiado.

Oposição?
E tem mais. Se não bastasse o estado geral de torpor e cansaço da sociedade brasileira, que diante da constatação de que não existiu nunca um partido de trabalhadores puros e santos, que diante da comprovação de que o monopólio da ética por um grupo era mentira, que diante de tudo isso não consegue mais reagir, ficando insensível a escândalos como o de Renan Calheiros (muito pior que o de Severino Cavalcante), temos ainda uma oposição como desarticulada, omissa e, muitas vezes, servil. Não apenas no parlamento, mas na sociedade inteira.

Costumo a ser um crítico ácido do pensamento esquerdista, mas reconheço em seus defensores obstinação e competência. Durante anos trabalharam para conquistar os corações e as mentes dos brasileiros. E seus adversários, fizeram o quê? Somente assistiram a banda passar. Agora, a “direita” brasileira começa a perceber a própria fragilidade: desacreditada, sem autoridade, resta-lhe fazer papel de figurante.

Sem oposição, atos de exceção são desnecessários. Chávez deve ter inveja de Lula.

Irrevelantes
Num quadro mais amplo, a esquerda passa a dar as cartas na América Latina. Chavez na Venezuela, Morales na Bolívia, Rafael Correa no Equador, e com mais discrição, Lula no Brasil, comandam o retrocesso ideológico que põe o continente na contramão da história.

A América Latina se isola cada vez mais do resto do mundo, mantando apenas pontes comerciais, que nossos socialistas odeiam o capitalismo mas não são loucos de rasgar dinheiro. No entanto, caminhamos rapidamente para a irrelevância no cenário internacional. Azar o nosso.

Geléia geral

Um rápido inventário do noticiário político nacional das últimas semanas abalaria até mesmo a fé da Velhinha de Taubaté – personagem criada pelo escritor Luis Fernando Veríssimo, célebre por sua crença inabalável nos políticos e nos governos em geral.

Vejamos. A Bolívia praticamente tomou as instalações da Petrobrás em seu território ao impor sua compra pela metade do preço, e o governo brasileiro ainda defendeu os agressores; mais pessoas do círculo íntimo do presidente da República investigadas por corrupção, e o presidente continua a afirmar que não sabia de nada; desembargadores vendendo sentenças são presos e depois soltos; grupinhos de estudantes brincam de revolução, invadem reitorias país afora, e não apresentam um motivo que se sustente; o presidente do Senado Federal, aliado do governo, é acusado de ter as contas pagas por uma empreiteira, e nem mesmo a oposição toma uma providência, omissão que sugere corporativismo e medo.

Para o consolo dos admiradores da velhinha, tal desarranjo não poderá incomodá-la. Em 25 de agosto de 2005, em crônica publicada no Estadão e no O Globo, Veríssimo anunciou que a ilustre personagem morrera assistindo televisão, apresentando sinais de descrença.

Se…

O prefeito de Quixadá, Ilário Marques, do PT, assumiu a autoria política da nota de desagravo que seu partido fez em defesa do presidente da Petrobrás, no caso da siderúrgica. Em carta ao jornalista Fábio Campos (clique aqui para a ler a coluna), do O Povo, ele afirmou:

“Ocorre que algumas questões precisam ser esclarecidas: quantos empregos de fato serão gerados? Pelo que estou informado, não passam de 600, parte dos quais altamente qualificados que deverão ser preenchidos por mão-de-obra importada. Quanto custou a terraplanagem e as demais infra-estruturas? Quanto da capacidade do porto será ocupada pela movimentação da carga do empreendimento? Qual de fato o impacto econômico na economia cearense? (…) Sem resposta para as interrogações formuladas e se verdadeiras as informações que dispomos, não tenho dúvidas em afirmar que esse modelo de siderúrgica não gera empregos, não impacta nas cadeias produtivas, não gera receita pública, dá prejuízo e não interessa ao povo cearense”.

Blog do wanfil
Ora, vejam. Toda a conversa de Ilário, segundo ele próprio, depende da condição de serem verdadeiras as informações de que ele dispõe. Seja lá quais forem tais informações, e se as mesmas não forem falsas, devem ser bombásticas a ponto de invalidar todos os investimentos já feitos no projeto, todas as licenças obtidas, todos os estudos técnicos, e todos os documentos assinados, inclusive pela Petrobrás.

Ilário se mostra um político matreiro. Se algo for verdadeiro, ele não tem dúvidas… Parece uma obviedade inofensiva, mas no contexto na qual está inserida, possui outras significações. O problema é que, convenientemente, o petista não verifica a veracidade das premissas que norteiam suas declarações, pois para ele, não é a verdade que está em jogo, mas tão somente o interese do partido.

Isso significa confessar que suas certezas dependem das conjunturas do momento ou das particularidades de uma circunstância. Um primor de pensamento. Basta uma pergunta para desmascarar o truque: Afinal, as informações que ele diz possuir procedem ou não? Do ponto de vista retórico e ético, essa condição de veracidade alegada por Ilário é um subterfúgio para a eventual necessidade de recuar mais adiante. Vai que o negócio sai… Nesse caso, o prefeito dirá que as informações da Petrobrás não eram verdadeiras e pronto, como se fosse um simples observador. A postura é premeditadamente dúbia, condição sine qua non para o militante de esquerda. Se tudo der certo para Ilário e a siderúrgica não vingar, o petista ganha pontos com Gabrielli e com, adivinhem!, Lula, é claro.

Bom, se uma siderúrgica não vale nada, resta a Ilário e ao PT dizerem qual é caminho para o desenvolvimento do Ceará. Talvez a solução seja exportar o artesanato da Praia de Iracema ou a agricultura familiar na região do Sertão Central para revolucionar o mundo com o biodiesel.

Charge-síntese

Charge do Ivan, publicada no Diário de Natal

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