Cinema bom não morre

Faleceu nesta segunda, aos 89 anos, o celebrado cineasta sueco Ingmar Bergman (foto), autor do clássico O Sétimo Selo, de 1956. A obra, intimista como a maior parte dos seus filmes, apresenta um cavaleiro das cruzadas que joga xadrez com a morte, envolto em dilemas filosóficos.

Quem desejar conhecer o trabalho de Bergman, uma boa dica é o filme O Ovo da Serpente (Das schlangenei), de 1977. Os grandes cineastas não contam histórias apenas, eles vão além, e como na literatura, resumem o espírito de um tempo numa narração feita com estilo. O filme é ambientado na Berlim arrasada após a Primeira Guerra Mundial, onde um desempregado consegue refúgio em um apartamento de um cientista, que também lhe oferece um emprego. Porém, aos poucos ele descobrirá uma terrível verdade naquele lugar, e que tudo isso tem a ver com o suicídio de seu irmão. Confiram.

Bem observada, a trama não se resume a denúncia das origens do nazismo. Na verdade, a experiência alemã serve de base para uma reflexão bem mais profunda: os regimes autoritários de maior expressão, baseados na administração das frustações, do medo e do ódio, não são criados da noite para o dia, pelo contrário, são gestacionados com técnica e persistênca. Um dia de cada vez. Seus discursos precisam ser testados até o limite, incitando ressentimentos e preconceitos, para depois serem legitimados como verdades naturais. São formas de preparar, em doses homeopáticas e constantes, a aceitação de parâmetros ideológicos cada vez mais elásticos que justifiquem agressões a democracia.

O Ovo da Serpente fala dos momentos de aparente calmaria que antecedem as tempestades. São nessas ocasiões que o autoritarismo se insinua como solução para os problemas de uma sociedade, destruindo valores para edificar a indiferença e a omissão em nome de uma ordem que não admite o contraditório. Quando capta a essência e a gênese dos movimentos humanos, o cinema vira arte.

Agricultores de aluguel

Um grupo de militantes do MST ocupou a reitoria da UECE. É o que noticia o Diário do Nordeste (clique aqui para ler). No entanto, os invasores são, na verdade, cerca 250 estudantes e professores da universidade ligados ao Movimento dos Sem-terra. Agricultor de verdade que é bom, não tem. É o milagre da multiplicação dos profissionais de passeata.

O grupo reclama a liberação de recursos para 201 turmas do curso Magistério da Terra. Duvido que o tal curso ensine algum aluno a plantar quiabo ou mamona. Conheci um professor de revolução (isso mesmo!) do MST, no curso de história da UFC, cujo nome, por ironia do destino, era Kennedy. Segundo eu pude entender das conversas que tivemos, no fim das contas, as aulas sustentadas com dinheiro dos nossos impostos ensinam mesmo é como invadir terra e promovem o ódio de classes, além de fazer proselitismo partidário para a esquerda. Claro que não falta quem garanta que tudo isso, invasões e ameaças, ocorrem por um bom motivo, fruto de um desejo fraternal e de uma revolta justa. Em nome desses ideais, muito sangue foi derramado no século 20, do nazismo ao comunismo. É uma das heranças da celebrada Revolução Francesa: em nome de uma causa, é justo eliminar as dissidências e ignorar a lei.

De acordo com a UECE, o repasse do programa foi suspenso por problemas burocráticos e poderá ser reativado se o MST assinar um acordo com a instituição. Que tipo de problema burocrático é esse, é um mistério. O caso bem que pode suscitar algumas indagações. O MST presta contas do dinheiro que recebe? Quem define o método pedagógico do tal Magistério da Terra? Quem seleciona os professores? Há concurso para contratá-los? Existem metas de desempenho? Nossos valentes invasores sabem protestar. Não devem ter problema em dar satisfações.

A qualidade dos fatores altera o produto

No post abaixo, ao comentar reportagem da revista Veja sobre o acidente de Congonhas, argumentei que um acidente resulta de uma soma de erros, que se dividem entre mais ou menos graves. Na verdade, essa é uma opinião generalizada entre especialistas, e utilizada até pelo presidente Lula. A diferença é que eu afirmo que isso não livra a cara de ninguém. Por isso o título foi “A ordem dos fatores não altera o produto”.

Mas um fato me passou batido. Um desses fatores que podem causar um acidente, podem também, se bem colocados, evitá-lo. Não se trata, portanto, de um teorema, mas de uma equação. E o fator em questão é a infra-estrutura. Leiam comentário do blog do Reinaldo Azevedo, também da Veja:

A reportagem de Marcio Aith, Fábio Portela e Julia Duailibi [Revista Veja] que informa ter havido erro do piloto no caso do acidente da TAM informa também que já houve dois outros casos em circunstâncias idênticas, também com aparelhos A320 da Airbus: um deles, nas Filipinas, matou três pessoas; o outro, em Taipei, não matou ninguém. No Brasil, morreram 199. Nas duas ocorrências em que houve uma mistura de falha humana com problema da máquina, o que salvou vidas foi a infra-estrutura dos aeroportos — a mesma que empurrou para a morte duas centenas de brasileiros, sob a inação cúmplice, irresponsável, criminosa das autoridades do setor aéreo e do governo.

A ordem dos fatores não altera o produto

A revista Veja dessa semana aponta que a análise da caixa-preta do avião da TAM que explodiu em Congonhas indica que uma falha do piloto, pode ter sido a principal causa da tragédia. Suponho que os governistas, nesse caso, dêem razão a Veja. Fosse outra a conclusão da matéria, a revista voltaria a ser calssificada de golpista. Para muita gente, isenção jornalísitica tem que ser a favor do governo.

Mas vamos ao que interessa. O acidente anterior, o da Gol, também teve um erro humano como causa fundamental: o piloto do Legacy não ligou o aparelho anti-colisão. E mesmo assim, problemas com os controladores de vôo contribuíram para o acidente. Por isso o sistema de controle aéreo não pôde avisar ao piloto da Gol sobre o risco iminente. No caso da TAM ocorre algo semelhante.O governo pode até ficar aliviado com a constatação da revista, mas isso não o exime de suas prerrogativas para a segurança dos vôos. Não se trata de um campeonato de culpas. Desde o início apontei que, independentemente das investigações, o fato é que o acidente ocorreu num ambiente de caos, e que isso possui implicações e responsabilidades óbvias.

O erro do piloto não encerra o problema da crise aérea. A pressão sobre os profissionais da área acarreta riscos. Congonhas operava irregularmente, Anac e Infraero não funcionam, as empresas não são fiscalizadas. Duzentas pessoas morreram por conta de uma somatória de erros, entre os quais, a inoperância das autoridades. A prova disso pode ser resumida com uma pergunta: Alguém se sente completamente seguro para voar no Brasil?

Só se for na casa dela

Se fosse uma favela…” é o artigo de Themístocles de Castro e Silva no O Povo. Criticado por muitos pela opinião destemida e às vezes radical, além de se confessar de direita (fato raro no Brasil), o velho jornalista é hoje uma das poucas vozes que não teme a patrulha politicamente correta. O texto comenta a polêmica sobre o referendo proposto pela Prefeitura de Fortaleza, contra a Torre Iguatemi. É uma aula de argumentação crítica. Leiam.

Dentro da filosofia do PT, se alguém pretendesse criar uma favela no lugar da Torre, naturalmente contaria com o entusiasmo e o apoio da Prefeitura, pois seria excelente reduto eleitoral a ser mantido pelo Bolsa Família, com vistas à reeleição.

Estão lembrados de que o PT, nos tempos de Maria Luiza, embargou as obras do Marina Park? Não pode ser levado a sério o tal referendo, pois o peso da máquina da Prefeitura seria utilizado escandalosamente para torná-lo vitorioso contra a construção da Torre. Quer dizer, então, que a Prefeitura não dá crédito nem às decisões da própria prefeita? Por que, antes, autorizara a construção?

A prefeita já gastou quase metade do mandato e não se tem notícia de nada em favor da cidade. Quando a iniciativa privada quer agir, a Prefeitura rejeita e lhe cria dificuldades. Daí dizer-se que “Fortaleza bela”, “só se for na casa dela”…

Choremos calados - ou A imprensa como alvo

Os agentes de influência do governo, conscientes desse função ou não, estão agindo. Passado o choque inicial da maior tragédia aérea do país, teses que buscam reduzir os danos causados a imagem de Lula começam a ganhar espaço na mídia. Curiosamente, a própria mídia é acusada, por esses agentes, de interesses conspiratórios.

Um bom exemplo é um artigo publicado no jornal O Povo deste sábado, com o título “Aviões, mídia e poder“, assinado pelo jornalista e especialista em marketing Franzé Ribeiro. Não o conheço, mas a relevância do seu texto não está propriamente no autor, mas no fato de indicar um movimento. Franzé é uma legião. Reproduzo abaixo, em cores vermelhas, partes do do referido artigo, com comentários do Blog em azul.

Por mais fundamental que seja a existência de uma imprensa livre nas nações democráticas, ela não pode imbuir-se de um poder supremo. Jornalistas não estão acima da lei, não são juízes. Nem a imprensa pode assumir o papel que cabe, constitucionalmente, ao Poder Judiciário.
Ok, tá combinado. A imprensa deve se conformar com o papel de escrivã de atas. Só pode se manifestar de acordo com os autos dos processos transitados e devidamente julgados. Curiosamente, esse foi o mesmíssimo argumento utilizado por Lula no caso do mensalão. Por essa lógica, Collor deveria ser restituído na Presidência, pois lhe sobram cerca de 120 absolvições na Justiça.
A crise aérea existe e tem importância jornalística. Mas a abordagem que a mídia vem fazendo é de tal intensidade que guarda semelhança com o período pré-eleitoral.
Pilotos e especialistas apontam problemas de infra-estrutura relacionados aos acidentes da TAM e da Gol. O próprio governo substituiu o ministro da Defesa. No entanto, o artigo não vacila em acusar a imprensa de explorar o tema. O objetivo do texto é separar o acidente da crise aérea, vinculando essa associação lógica a interesses eleitoreiros. Não se enganem, essa será a linha de defesa do governo.
A “grande imprensa” ressente-se do resultado eleitoral. Não se conforma com a intenção do atual governo de criar uma rede pública de televisão. Não aceita, também, que seja instituído um novo marco regulatório para as produções audiovisuais.
Como vemos, isenta deve ser a imprensa estatal. Num esforço contorcionista, o texto elenca uma série de medidas de controle autoritário que o governo ensiaou contra as empresas de mídia, para associar a natural reação contra elas ao acidente. O título do artigo bem que poderia ser: Choremos nossos mortos em silêncio.

Conclusão
Nunca a imprensa foi tão atacada em período democrático no Brasil. Ao contrário do que os fiscais da imprensa desejam, ela não existe para elogiar governos, nem que seja um governo de esquerda. Seu papel se assemelha a uma espécie de controle de qualidade. Resgistra o que é bom, mas centra foco no que dá errado. Foi a mesma coisa com Sarney, Itamar e FHC. A imprensa continua a ser uma das poucas trincheiras da sociedade contra a ineficiência e a corrupção, principalmente no governo Lula. Não por acaso virou alvo.

Discriminação não tem cor nem sexo

Diário do Nordeste, coluna Comunicado:
Os Jogos Pan-Americanos no Rio de Janeiro são destaque no noticiário, mas nem por isso o Superior Tribunal de Justiça se sensibilizou com ação ao carateca Renan Affonso Fiorillo Andrade. Sem patrocínio, ele se habilitou pelo desempenho ao Programa Bolsa-atleta, do Governo Federal. Mas não pode receber os R$ 750,00. Sabe por quê? Porque é homem. É que Renan empatou com uma candidata ao benefício. E o critério para escolha, em casos assim, estabelece que deve ser priorizado o sexo feminino. Depois, há quem reclame de desigualdades e de machismo.

Blog do Wanfil
Quando escutamos falar em discriminação, imediatamente associamos essa palavra a certos grupos: negros, homossexuais, mulheres e judeus, entre outros. E não é para menos, pois cada um desses sofreu ou ainda sofre algum tipo de perseguição mundo a fora. Ocorre que o automatismo com que fazemos essas ligações indica um condicionamento mental perigoso, uma acomodação do pensamento crítico que favorece a todo tipo de distorções e manipulações. O resultado é que muitos imaginam que somente esses grupos são vítimas de preconceito ou de discriminação e, por inversão, que seus contrários, os brancos, heterosexuais, homens e cristãos, são, invariavelmente, causadores desses males. Confunde-se o ato com os atores.

Vejam o caso do sujeito que perdeu o Bolsa-atleta por pertencer ao gênero masculino. Trata-se de um homem branco vítima de preconceito, embora não pertença a nenhuma minoria organizada. Não há ONGs ou parlamentares bonzinhos para defendê-lo. Com efeito, a discriminação, ao contrário do preconceito, não está na cor ou no sexo das pessoas, está nos atos de segregação e proibição que as atinge. Outros critérios poderiam ser usados, como idade ou quantidade de títulos, ou mesmo condição social.

As cotas para negros nas universidades se enquadra perfeitamente como discriminação. É a institucionalização do racismo como elemento discricionário contra os brancos. Às vezes, o lenga-lenga politicamente correto termina por legitimar como justo aquilo que, em essência, é injusto. Como dizia Shakespeare: “O diabo pode citar as Escrituras quando isso lhe convém.”

Sem graça

Trecho do editorial do programa Barra Pesada, transmitido pela TV Jangadeiro, retransmissora cearense do SBT:

“Ao empossar o novo ministro da Defesa, o presidente disse que o convidou porque o viu desocupado, atrapalhando a mulher em casa. É o tipo de perfil de uma autoridade pouco desejada para corrigir a deficiência de outra. Mesmo dito em tom de graça, isso não tem nada de engraçado porque tudo o que envolve o evento é muito grave. O país vive um momento de traumas e de angústias, diante dos problemas que se multiplicam nas diversas áreas da vida nacional.”

Blog do Wanfil
Brincar numa solenidade cujo motivo é um colapso no setor de transporte aéreo, e logo depois de um acidente como o da TAM, revela falta de compromisso por parte do chefe da nação, que não assume nem toma para si as responsabilidades do cargo, nem das nomeações que faz. Pior, denota desrespeito pelos que estão de luto, pelas próprias vítimas, pelos que andam aflitos e temerosos, pelos que anseiam por uma solução. É como se um presidente de um país em guerra, no ato de nomeação do novo comandante do exército, troca feita após uma baixa nas tropas e do avanço do inimigo, fizesse piadinhas com a situação.

Opinião de Lula sobre os aeroportos brasileiros (vídeo)

Assistam ao vídeo no qual o presidente, na campanha pela reeleição, assume a responsabilidade integral pelo estado dos aeroportos, inclusive o de Congonhas.

Nas mãos de Deus

Finalmente o inoperante ministro da Defesa Waldir Pires foi demitido. Suas credenciais para o cargo que ocupava eram a amizade com o presidente e a afinidade ideológica com o PT. No seu lugar, Nelson Jobim, que já foi ministro da Justiça no governo FHC e presidente do STF. É um político do PMDB, vamos ver no que vai dar.
***
Na solenidade de nomeação de Jobim, Lula pediu a Deus para que não aconteçam outros acidentes com aviões no mundo. Reconhecendo a impossibilidade do pleito, e como bom ex-sindicalista, ele tentou negociar: Que o próximo acidente não seja no Brasil. Infelizmente, não podendo dar garantias disso, restou-lhe a constatação de que um acidente envolve “muitas coisas”.

Acredito que Deus não interfere em certos assuntos. Aos homens as consequências de seus aotos, essa é a lei. Mas por via das dúvidas, faço o mesmo caminho: Que Deus nos livre de presidentes e ministros incompetentes!

Parece neutro, mas não é

Recebi por e-mail um texto reproduzido no site Último Segundo, do portal IG. É na verdade uma reportagem atribuída ao jornal Valor Online, que discorre sobre as opiniões diferentes a respeito das causas acidente com o avião da TAM. O título é “Abismo social divide opiniões sobre a crise”. Não encontrei a matéria no Valor Online. De qualquer forma, importa destacar que o texto serve de exemplo por contribuir para politizar a tragédia, e a favor do governo, diga-se. Sua introdução sustenta uma teoria política fajuta de que o acidente opõe classes socias, supostamente justificada por uma série de depoimentos de alguns entrevistados. Os depoimentos selecionados variam entre a critica e o apoio ao governo, sempre com a informação de que os críticos votam no PSDB ou nulo, e os defensores votam no PT. Com efeito, essa “isenção”, no fim, sugere que toda critica ao governo possui interesse eleitoral. Transcrevo, em vermelho, algumas passagens do texto, que é longo (para ler o original, clique aqui), entremeadas por comentários meus, em azul.

Pelo céu e pela terra, eles estão conectados a Congonhas. Uns, com maior poder aquisitivo, utilizam-no para comparecer aos seus compromissos de trabalho ou para fazer turismo no País ou no exterior. Outros, que nunca o utilizaram, moram na favela Águas Espraiadas, a mais próxima ao mais movimentado aeroporto brasileiro. (…) No abismo social que as diferencia, uma única passagem de avião custa mais do que o mês inteiro de trabalho dos vizinhos de Congonhas. Esse abismo também está retratado nas opiniões sobre os culpados pela crise aérea.
A proposta do texto reside aí: transformar o acidente numa variante da luta de classes. De um lado, a elite que utiliza serviços aéreos, de outro, a massa que não pode comprar passagens. A última frase, que destaquei em negrito, prepara o terreno para o que vem. O tal abismo social se reproduz nas opiniões colhidas de forma aleatória (ou não) na matéria. Vamos adiante.

Na favela, ao contrário [dos passageiros nos aeroportos], a crise não colou no presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Para os moradores ouvidos -a maioria de eleitores petistas - o principal responsável é a Infraero, principalmente por ter liberado a pista para pouso antes do completo término da reforma. Medida tomada, segundo eles, após grande pressão das companhias aéreas. O governador paulista, José Serra (PSDB), e o prefeito Gilberto Kassab (DEM), são tidos como “oportunistas” por usar o local da tragédia para fazer críticas ao governo federal.
É claro que ainda não colou. Não deu tempo. É fácil deduzir que a opinião formada sobre a responsabilidade do governo ainda não contaminou os estratos sociais mais periféricos. Isso é científico - a opinião se alastra do centro para as pontas - mas o texto quer mistificar o fenômeno, dando-lhe um certo sentido de classe que, não por acaso, combina direitinho com as desculpas do governo federal. Por algum motivo que ignoro, os autores do texto reforçam a tese de que a responsabilidade da Infraero não implica em responsabilidade do presidente. No fim, a referência ao prefeito e ao governador de São Paulo é absolutamente maldosa. Nem um nem o outro não têm nada a ver com o acidente.

Considerações
A coincidência entre a abertura da reportagem e os argumentos do governo, indica um movimento de defesa. Essa será a base da contra-informação que buscará barrar a formação e a consolidação de uma opinião que prejudique a imagem do governo Lula. Nesse momento, a notícia sobre o acidente é de conhecimento geral, no entanto, a opinião formada sobre o assunto demora alguns meses para se firmar. O objetivo da argumentação exposta na matéria é evitar essa propagação. Fiquem atentos.

O argumento central que busca reeditar a surrada luta de classes é igual ao utilizado no mensalão. Os ricos, chateados com tanta justiça social, usam o episódio da tragédia para perseguir o presidente que nunca erra, por meio da imprensa burguesa.

Caos aéreo: efeitos na própria pele

Vejam como o ambiente de incertezas que tomou contra do sistema aéreo do país pode agir e influenciar as pessoas. Não falo dos aspectos financeiros, políticos ou jurídicos pertinentes ao quadro atual. Falo de de algo mais sutil, de sentimentos, de emoção desinteressada, de reações espontâneas, ilustrados em dois breves relatos sobre um mesmo fato:

Primeiro relato: Minha esposa viajou a trabalho para Natal. Por conta de um atraso, esperou 3 horas no aeroporto. O avião atrasa, mas se o cliente atrasar o pagamento, os juros são garantidos na fatura. A pouco ela chegou e para o meu alívio, me ligou. Está viva, graças a Deus. Fiquei apreensivo aguardando o telefonema que me desse a notícia de que tudo havia corrido bem, dentro das atuais circunstâncias. Na verdade, um aperto no peito me afligiu durante esse tempo, o bastante para imaginar que esse sentimento também deve assombrar muitas outras pessoas que necessitam de transporte aéreo no Brasil.

Segundo relato: Já em Natal, a senhora Wanfil narrou-me a experiência de voar no caos. Conforme a exposição dela - e isso bate com o noticiário - o clima nos aeroportos é de confusão, revolta e angústia. Embarcar virou uma loteria, uma questão de sorte ou azar. Na aeronave, a tensão e o medo foram visíveis. Uma criança chorou, pedindo para não ir. Fora isso, silêncio no lugar do murmurinho típico de outras viagens. No fim, o pouso um pouco abrupto e um pequeno barulho foram suficientes para que alguns passageiros gritassem.

Minha apreensão diminuiu, pelo menos até que ela retorne, na sexta-feira. Vez por outra, o aperto no peito volta a me incomodar. Às vezes, o medo pode causar impressões falsas nas pessoas. Mas uma vez generalizado e duradouro, é sintoma de que algo está errado, muito errado. Onde há fumaça, há fogo.

Caos aéreo: A quem cabe uma solução?

Quase 85% dos vôos para Fortaleza estão atrasados - De meia-noite até as 17 horas, 33 vôos, de um total de 39, sofreram atrasos e dois foram cancelados - Jornal O Povo

Passageiros invadem avião em Fortaleza para protestar - No início da manhã de hoje, 15 passageiros que aguardavam embarque no aeroporto Pinto Martins, em Fortaleza, invadiram um avião da empresa Linhas Aéreas Gol. - Diário do Nordeste

Blog do Wanfil
Diante de uma situação caótica como essa, uma perguntinha: Quantos assessores já foram demitidos, desde o início do governo Lula, por corrupção e incompetência? É por isso que a responsabilidade recai sobre as chefias. Mas nada acontece. Leiam o post abaixo e entendam o motivo.

Hesitação presidencial: Filme repetido

Muitos se dizem supreendidos com a demora e com a falta de iniciativa do presidente Lula, cujo governo amarga dez meses de criseno setor aéreo. Somente após dois acidentes monumentais, o chefe da nação se pronunciou, ainda que timidamente, para pedir paciência. Mas essa não é a primeira vez que Lula age assim, quando fica sob pressão. Leiam abaixo, a reproduçãoda análise distribuída via e-mail, pelo prefeito do Rio, César Maia (DEM). É desconcertante.

LULA SE ENCOLHE FRENTE À ADVERSIDADE!
- Não é a primeira vez que Lula se encolhe frente à adversidade. Em 2005 -durante o mensalão- ocultou-se, e saiu da toca em Paris numa entrevista amadora desastrada. Agora -da mesma maneira. Encolhe-se, se oculta, perde a iniciativa, cancela sua agenda no sul, e a muda para o nordeste. Esta mudança de agenda foi feita da mesma maneira em 2005.

- Um político que se encolhe frente à adversidade -como Lula- reage quase sempre de uma mesma forma: corre em direção a seu nicho de opinião pública, e passa a tratar apenas deste. E justifica junto aos assessores que é isso que o país precisa. No caso de Lula, se ele permitisse um gravador a seu lado, o que diria seria algo como, “pensam que vim aqui para atender os ricos?”; “essa imprensa serve aos poderosos”; “vou tratar do meu povo e deixar esses pequeno-burgueses de lado”.

- As idas de Lula ao nordeste em 2005, foram assim: com direito a claque e cenário, e ele suado no meio dos amigos contratados, voltando a ser o líder sindical. Essa regressão protetora de seu encolhimento na adversidade voltará nos próximos dias. E contará com a TV para registrar seu passado, teatralizado no presente -sem gravata, suado, sem plural…

- Um político completo na chefia de governo -um estadista- não é o que temos. A adversidade o colocou na clandestinidade. E o despachou para os seus nichos, de AeroLula, num contraponto triste com a pequena burguesia que rejeita, por autodefesa.

Palavra do leitor

Sobre os recentes episódios do descontrole aéreo no Brasil, uma leitora, Paula, fez um comentário pertinente:

“Esse papo [do governo Lula] de que é preciso esperar as investigações, é uma forma de tentar dissociar o aspecto político do caos [no setor aeroviário]. É uma forma de dizer: é tudo problema técnico. A melhor forma de punir esses políticos, é votando em seus adversários. Eles não são grande coisa, mas se tem algo que um político teme é o revezamento com a concorrência.”

Blog do Wanfil
O pessimismo impera nas palavras da leitora, mais ainda a indignação, e ambos os sentimentos são perfeitamente compreensíveis e justificáveis. Não creio que sejam todos iguais
, os políticos; penso que sempre podemos avaliar entre o ruim e o pior, e que existem alguns poucos bons. Quanto ao discurso oficial, é isso mesmo. Trata-se de uma fuga, e parte da imprensa já comprou a tese de que o problema é técnico, e não político. Ainda que o acidente com os aviões da Gol e da TAM tenham apresentado defeitos, o que importa, para efeito de administração pública, é que essas tragédias se deram dentro de um quadro de profunda insegurança e confusão, expondo usuários e o país. Uma questão, portanto, eminentemente política, que exige ações políticas, e se possível, penas políticas.

Desconfiado
As caixa-pretas do avião da TAM serão examinadas nos EUA. Lula hoje garantiu que a verdade aparecerá a partir dessa análise. Estranhamente, como se tivesse algum receio, o governo brasileiro pediu segredo sobre os resultados. Como eu não confio no governo, só acredito em laudo apresentado lá nos EUA. Aqui não vale.

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