Cuidado com a conversa fiada

Notícia publicada no Conversa Afiada, pelo jornalista Paulo Henrique Amorim, da rede Record.

O Governo deve anunciar nesta semana a criação da siderúrgica do Ceará, a Ceará Steel.
A Petrobras resistiu muito, mas o Presidente Lula e a Ministra Dilma Rousseff provaram à Petrobras que o preço a que ela vai vender o gás à Ceará Steel é o preço que a Petrobras já cobra, hoje, no mercado brasileiro. Só falta resolver agora que indexador usar. 100% da produção da Ceará Steel estão vendidos, por 20 anos, à Dan Kuk, da Coréia, uma das maiores siderúrgicas do mundo. O Presidente Lula recebeu um memorial com a assinatura dos três senadores do Ceará e de todos os 22 deputados federais – todo mundo no Ceará quer essa usina…

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A notícia de Amorim possui um viés, digamos assim, paternalista. Mais parece uma nota produzida pela assessoria de imprensa da presidência. Reparem as fragilidades da argumentação:

1 – O jornalista não comenta que o fornecimento de gás foi uma promessa de campanha que rendeu votos ao presidente;

2 – Como assim Lula e Dilma “provaram” à Petrobrás? Eles entendem mais de combustível que os profissionais da empresa? É isso? Essa é uma desculpa que procura disfarçar dois fatos: a) o comando de Lula é hesitante; b) o presidente da Petrobrás, que fez campanha pública contra o empreendimento, foi desautorizado (deveria, portanto, ser demitido);

3 – Lula não pode anunciar a “criação” da siderúrgica, pelo fato de este ser um empreendimento PRIVADO. Ele somente pode garantir que vai cumprir uma promessa e um acordo previamente estabelecidos, para o fornecimento de gás – fundamental para a instalação da siderúrgica. A idéia aí é passar à opinião pública a noção de que Lula fez uma obra e concedeu uma benesse ao povo cearense;

4 – Por último, a revista Exame noticia que o grupo controlador da Ceará Still estuda trocar a matriz energética da siderúrgica para o carvão. Ou seja, há o risco de o empreendimento sair sem o gás, impedindo o governo de colar a imagem no investimento. Ano que vem é ano eleitoral, e o Planalto ainda não trouxe nada de relevante para o Ceará.

Charge

Charge do Dante, no O Estado do Paraná

Qual a imagem depois das vaias do Pan: destemido ou fujão?

A cantora Lucinha Lins (foto) venceu o MPB Shell em 1982, o mais importante festival da época, com a canção “Pupurina”. O público queria que a música vencedora fosse “Planeta Água” de Guilherme Arantes, e a vaiou estrodosamente. Com muita coragem, profissionalismo e paixão, Lucinha cantou a música inteira. É que a convicção de suas escolhas foi mais forte do que o medo e a pressão do momento.

O ex-presidente FHC afirmou à rádio Jovem Pan que abriria os jogos do Pan mesmo com vaias. “Se eu estivesse lá, abriria os Jogos de qualquer maneira, porque a vaia faz parte do jogo, e é o papel do presidente tomar decisões e cumprir o seu papel até o fim. Mas eu não quero julgar ninguém“, afirmou o ex-presidente.

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Eu não tenho tanta certeza de que FHC, no llugar de Lula, abriria os Jogos. Talvez. Nesses horas uma penca de assessores e bajuladores palpitam sobre tudo. E é claro que, ao contrário do que disse, FHC quis sim julgar Lula, confrontando um fato com uma hipótese. Assim é fácil. O problema é que este é o presidente, enquanto o outro é página virada.

Não abrir os Jogos foi uma decisão política. A opção foi pelo silêncio, pela saída lateral, como Hitler nos Jogos Olímpicos de 1936. Reza a lenda que o nazista se retirou para não cumprimentar o vitorioso Jesse Owens, um negro. Particularmente, acredito que um estadista não deve temer nem a crítica, nem a vaias e, em certos casos, nem mesmo as ameaças físicas. O ex-governador Mário Covas enfrentou, certa feita, um grupo de professores grevistas que queriam barrá-lo numa escola, se não me engano. Covas levou cadeiradas, mas não recuou. Terminou por demonstrar o caráter autoritário dos manifestantes.

Lula poderia der iniciado os Jogos sob vaia, e depois dizer o óbvio: que governar às vezes implica em tomar decisões que desagradam a alguns, que não se pode viver só de aplausos, que recebe a manifestação como um alerta de que é preciso fazer sempre mais, essas coisas. Passado o tempo, a imagem do espírito destemido e humilde poderia ser trabalhada.

Longe do populismo assistencialista, sobram vaias e rejeição

Lula foi vaiado na abertura do Pan, no Rio de Janeiro. Estavam presentes entre 90 e 100 mil pessoas. Os aduladores do Planalto, denominados anonimamente nos jornais como assessores, tentam colar na mídia explicações estapafúrdias e ridículas para a manifestação. Um exemplo é a teoria de que a vaia seria obra orquestrada pelo prefeito César Maia (DEM-RJ). Já há quem culpe a burguesia e peça o fechamento da Rede Globo, como faria o companheiro venezuelano Hugo Chávez.

Reação
O presidente foi pego de surpresa e ficou, naturalmente, constrangido. Foi um espetáculo monumental e longo. Acostumado com claques e platéias organizadas, compostas de representantes de movimentos sociais, ONGs e entidades da tal sociedade civil organizada, a grande maioria controlada por partidos de esquerda, Lula não escondeu o abalo, recusando-se a declarar abertos os jogos.

Limites do populismo
O público que compareceu ao evento era composto, em boa parte, por pessoas de classe média (pobre vai no máximo ao futebol), provavelmente mais informadas, e que, no fim das contas, como diria Gregório de Matos, que sabe “o que custa/o que El-Rei nos dá de graça”. Longe do público que pode ser seduzido por programas assistencialistas, pago com impostos cada vez mais caros cobrados à classe-média, Lula se depara com a rejeição.

Para assitir a vaia no YouTube, clique aqui.

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