Jornalistas cheios de amor pelo social costumam exercer o seu espírito “crítico” contra o que imaginam ser o Mal da civilização: o lucro. Elegem, a partir desse critério, os inimigos e os aliados das massas desvalidas. E o mais interessante é que acusam a imprensa de ser a voz de interesses desses inimigos do povo.
Marilene Felinto é uma dessas jornalistas. Ele escreve para a revista Caros Amigos (Caros Umbigos, no dizer do professor Olavo de Carvalho), publicação eivada de anúncios do governo federal. Curiosamente essa é uma revista apontada por muitos como representante do jornalismo “isento”. Por isenção entenda-se nãoconstranger o governo Lula com esse papo de escândalos. Não por acaso a revista Veja e a Rede Globo são tratadas como golpistas pelos atuais detentores do poder. O comunista italiano Antonio Gramsci ensinava, nos Cadernos do Cárcere, que a funçãodo intelectual não é definida pelo aporte teórico deste, mas pela disposição de fazer propaganda da causa socialista. Poucas pessoas fazem tão explicitamente isso como Marilene Felinto.
Leiam trechos de um artigo dessa senhora, publicado na “isentíssima” Caros Amigos”, intercalados com comentários meus em azul.
A TV que não ensina a morrer
Por que que a droga da TV – do jornal e da revista – não aproveitou a desgraça com o avião da TAM no aeroporto de Congonhas, em São Paulo, a bola de fogo, o arrebatamento dos instantes, a fatalidade, a impotência humana sobre o tempo e o mistério, para tratar da efemeridade da vida? Por que a droga da TV – do jornal e da revista – não aproveitou para lembrar ao espectador que amanhã… morre-se. Simples: amanhã, morre-se. Amanhã: é fogo-fátuo. A hora era de filosofia, de meditação, não de politicagem oportunista, não de espetacularização da dor alheia, não de exploração de emoções baratas.
A imprensa teima em querer demonstrar fatos, enquanto há tanta filosofia no mundo. Um avião caiu e os repórteres, impertinentes que são, querem saber as causas. Pior: Querem saber se as autoridades competentes falharam, posto queo caos aéreo assombra o país. Onde já se viu? Não sabem eles que pessoas morrem e que a vida é efêmera? Para quê incomodar?
Não teria sido melhor, menos desonesto e sórdido do que ficar tentando achar pêlo em casca de ovo para tentar derrubar (pela enésima vez) o governo Lula? Ora, o governo Lula é o melhor governo que o Brasil já teve, desde que eu me entendo por gente neste quase meio século da minha existência estúpida.
Quem tentou derrubar o presidente? Isso é crime. Quantos são os conspiradores? Acusações genéricas são meros truques retóricos. Eu não considero o governo Lula bom nem honesto, isso na minha existência que não considero estúpida.
Por que a merda da TV não eleva o nível, não ajuda o povo a filosofar, a se entender a si mesmo e ao enigma do tempo, da origem e da morte? O que foi que se perguntaram, no último segundo, as pessoas naquele avião (se é que se perguntaram algo), senão: “Que é isto que eu sei sem que ninguém me tenha perguntado, mas que, se eu quiser explicar a quem me perguntar, eu não sei? A resposta é: o Tempo.” (Santo Agostinho, citado por Husserl – Edmund Husserl. Lições para uma fenomenologia da consciência íntima do tempo).
Ajornalista, chegada a escatologias, fala em elevar o nível, vejam só. Vamos substituir a Fátima Bernardes pela Marilena Chauí, e o povo saberá que Aristóteles era alienado (não tinha consciência de classe) e que Spinoza era petista e nem sabia. Isso é que é jornalismo!
É preciso, com urgência, matar, isso sim, esta imprensa, esta mídia da indústria cultural – esta que se manifesta mesmo é na manipulação dos conteúdos, que procede à mais devastadora despolitização da sociedade; esta que, no lugar de promover a formação e a participação política, opta pela imposição do consumo de espetáculos pré-fabricados (Fábio Lucas).
Deve haver alguém com um projeto de imprensa que não chateie Merilene, que não mereça ser morto. Aposto que ela gosta do Franklin Martins. Por “promover a formação e a participação política”, entenda-se proselitismo para o governo.
A mim, afinal, não me interessa mais a publicação de livros. Hoje eu só escrevo para mim mesma – e não há maior sensação de liberdade do que esta.
Pois é. Marilene confessa que não precisa de leitores. A rigor, Caros Amigos também não, pois não lhe faltam anúncios de estatais. Ela afirma gostar da liberdade, pelo menos a dela, já que a dos outros a incomoda tanto. Eu, que discordo dela, também aprecio a liberdade - a minha e a das Marilenes da vida. Por isso sou contra o patrulhamento e a censura. Defendo até que Caros Amigos continue a publicar textos que proponham a morte da imprensa. Desde que não seja com o meu dinheiro, nem com o dos meus impostos.