Defender a vida é gratificante

A revista Veja dessa semana traz reportagem de Adriana Dias Lopes sobre a menina Marcela de Jesus Galante Ferreira, que aos nove meses, sobrevive sem cérebro. Geralmente, crianças anencéfalas morrem poucas horas após nascerem. No caso de Marcela, por causa do tronco encefálico, algumas funções mínimas garantem sua sobrevida.

Naturalmente, o episódio gera discussões entre os que desejam estabelecer normas científicas para definir quando e como começa (ou termina) a vida, e os que acreditam na inviolabilidade do corpo e de toda forma de vida, crença que é uma das principais conquistas da civilização cristã ocidental. A polêmica é grande. Independente disso, certo mesmo é que os pais da menina, Cacilda e Dionísio, agricultores humildes, cumprem de forma digna o papel que lhes foi destinado: defendem e amam a filha incondicionalmente.

Espero o nascimento de um filho. Minha esposa completou um mês de gestação, o que significa aproximadamente 05 semanas. Durante dois dias houve uma ameaça de aborto. Foi o bastante para que todos os cuidados fossem tomados, do repouso absoluto à medicação prescrita. Não fizemos isso por se tratar de uma criança perfeita, pois a gestação está no início, embora, graças a Deus, tudo esteja caminhando bem. Fizemos por amor institivo, movidos por uma força poderosa, por necessidade, por decência. Cuidar de quem depende de nós é uma obrigação natural, que nos gratifica. Como disse o jornalista Reinaldo Azevedo, a respeito do caso da menina Marcela, “eis o amor que salva o objeto amado e também salva aquele que ama”.

Caso real
Sei o que é ter entes queridos envolvidos em casos como o da família Galante. Minha cunhada, então grávida de 3 meses, descobriu que a filha era anencéfala. A orientação do médico obstetra, profissional conhecido, foi o aborto. Ele indicou, inclusive, endereços onde o medicamento abortivo Citotec poderia ser comprado. Não faltaram pessoas bem intencionadas que também acreditaram que o melhor a fazer era por fim a tudo imediatamente, pois aquele seria um sofrimento desnecessário. A jovem mãe, sob o impacto da dor, mas sentido a criança que – atenção – VIVIA em seu corpo, decidiu não matar a própria filha, que apresentava movimentos e reações semelhantes de gestações normais. Minha cunhada foi em frente e levou a gravidez até o fim. Muitos também foram os que a apoiaram nessa hora difícil. A pequena Sofia nasceu e sobreviveu algumas horas, o bastante para nos tocar com sua vontade de viver. A mãe hoje vive com a certeza de que fez o que pôde pela filha, que a amou. Ela pode dormir sem o remorso de ter privado aquela pequenina do direito de nascer e viver, ainda que brevemente. Nós a respeitamos mais do que nunca. E nos congratulamos pela sensação de missão cumprida. Depois disso, ela teve outra filha, saudável e perfeita.

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