Propaganda disfarçada de ciência

O ato falho é uma figura do universo da psicanálise. Num ambiente controlado por um terapêuta profissional, em circunstâncias adequadas, geralmente induzidas, uma simples troca de nome pode revelar algum segredo escondido nas entranhas do inconsciente de um indivíduo.

Com o tempo, ato falho adquiriu uma conotação mais popular, livre dos rigores da ciência. Assim, pode ser usado como uma forma irônica de apontar um engano qualquer, sugerindo que questões subliminares conduziram ao erro. Bom, em condições inadequadas, um ato falho pode ser apenas um esquecimento natural, ou a manifestação de uma ansiedade comum. Mas fica sempre a dúvida se o ato não foi uma revelação involuntária.

No jornal O Povo, uma entrevista nas páginas azuis trouxe dois casos típicos de atos falhos. O interessante é que, no primeiro caso, o erro veio bem a calhar como explicação de um fato. A entrevistada é a professora Maria Nazereth Ferreira, da USP. O jornalista é Paulo Verlaine. O título do texto de apresentação é Fidel é imorrível (clique para ler).

No “abre” está escrito assim: “Admiradora, quase fã, de Fidel Chávez, a professora Maria Nazareth Ferreira, da USP, enxerga no modelo cubano o futuro do socialismo . Para ela, Fidel nunca morrerá e, quando fisicamente o fizer, permanecerá vivo entre os cubanos com força suficiente para não permitir que o regime socialista acabe”

É compreensível o ato falho de Verlaine. Fidel Chávez é a expressão mais adequada para definir a relação entre os dois ditadores. O venezuelano é cria do cubano. Mas esse é o escorregão mais fácil de ler na entrevista. Existe um muito mais sutil.

Maria Nazareth se encaixa perfeitamente na definição de intelectual cunhada pelo teórico comunista Antonio Gramsci: um agente de influência – em outras palavras, um propagandista. A erudição e o rigor lógico são, para esses militantes, dispensáveis. Um agente de influência percorre, no Brasil, quase que invariavelmente, o mesmo percurso. Segue a carreira acadêmica repetindo chavões consagrados no há mais de 20 anos. Em seguida, com os títulos que lhes são conferidos pelos parceiros de ideologia, adquirem autoridade para fazer proselitismo sem levantar suspeita.

Assim é que, usando um linguajar pretensamente científico, uma profesora universitária consegue fazer do marxismo uma profissão de fé, sem constrangimento algum, pelo contrário, conquistando, com isso, elevados ares de pensadora crítica.

Eis o sutil ato falho de que falei: Fidel é imorrível. A professora quer falar de legado, naturalmente. Quem ler a entrevista, perceberá o tom triunfalista da afirmação. Nazareth deseja nada menos do que o absoluto, o imperecível; ela não quer nada menos do que propagar a infabilidade e a eternidade de suas crenças. Isso não é mais ciência, é religião. Para tanto, ela consegue evitar as consequências do que já foi produzido de mau pelo comunismo, para se ater às promessas de um amanhã radiante. A história mostra que muitos foram os que desejaram o mesmo: Mao, Stalin, Hitler e Pol Pot. De certa forma, eles conseguiram ser imorríveis. Se eternizaram pelo horror que infligiram aos seus povos, e continuam a assombrar regiões perdidas no anacronismo da luta de classes.

Fidel se mantém no poder graças ao uso descarado da violência e da coerção. Fidel é homem e, portanto, mortal. Um homem cujos adversários internos ou estão mortos ou estão presos. Um homem que é produto do século XX, e propagador da doutrina mais sanguinária da história. Fidel é história de intolerância política. Fidel não é imorrível. Fidel é mortal.

1 Comentário

  • By Anonymous, 28/08/2007 @ 5:04

    Wanderley,

    O Paulo Verlaine é um jornalista dos bons. Acho que você concorda, e como vc disse, o erro na grafia do nome do ditador cubano é compreensível. Agora, professoras como essa da USP é o pau que rola nas universidade, principalmente as públicas. O que tem de professor fazendo campanha para defender mensaleiro e condenar a imprensa não está no gibi.

Other Links to this Post

Feed RSS dos comentários deste post. TrackBack URI

Deixe um comentário

WordPress Themes