Bons textos não envelhecem

Soneto de Rogaciano Leite

SE VOLTARES

Como o sândalo humilde
Que perfuma o machado que lhe corta,
Hei de ter a minh’alma sempre morta
Mas não me vingarei de coisa alguma.

Se algum dia, perdida pela bruma,
Resolveres bater à minha porta,
Em vez da humilhação que desconforta,
Terás um leito sobre um chão plumas.

Em troca dos desgostos que me deste
Mais carinho terás do que tivestes
E meus beijos serão multiplicados

Pois para os que voltam pelo amor vencidos

A vingança maior dos ofendidos
É saber abraçar os humilhados.

Novelas e surpresas óbvias

Ontem não se falava de outra coisa. Como terminaria a novela “Paraíso Tropical”, da Rede Globo? E qual surpresa seria revelada após tanto suspense? Como todos devem saber, o culpado foi o bandido (o exclente Vagner Moura) e mocinho (o batido Fábio Assunção) salvou todo mundo.

Vou ser sincero, embora pareça sarcasmo. As sessões transmitidas pela TV Senado são bem mais emocionantes. Quem ousaria imaginar que Renan Calheiros seria absolvido? Tudo bem, a sessão não foi transmitida. No seu lugar apresentaram um programa sobre bovinos - uma inusitada ironia com os famosos bois de Renan. Não pensem que estou entre os que condenam telenovelas. Se o sujeito assistir a três míseros capítulos de uma trama, vai acompanhá-la até o fim. Eu só acho que novelas, assim como comédias românticas, são por demais arrastadas e previsíveis.

Nas novelas os mocinhos semprem vencem; casais homosexuais, unidos no enfrentamento ao preconceito, sempre são equilibrados e fiéis; casais heterosexuais, caretas que são, vivem à sombra do ciúme e da traição. Em geral, os pobres são preocupados com o social e os ricos uns egoístas bobalhões. Sempre, ou quase sempre, tem que haver um avô ou tio legais; domésticas, mordomos ou motoristas bacanas, divertidos e honestos; um empresário inescrupuloso; uma burguesa fútil; um segredo; um casamento e um louco. Pronto. Com esses ingredientes, temos uma novela.

Errata

Uma jornada que pode chegar a 12 horas de trabalho, sem contar os estudos, vez por outra atrapalha o levantamento das informações na hora de elaborar um texto para o Blog.

No post Instituições e sociedade, informei que a pesquisa da Associação dos Magistrados Brasileiros (AMB) sobre a credibilidade das instituições públicas no Brasil não havia avaliado o Poder Executivo. No entanto, li hoje na coluna do Fábio campos (jornal O Povo), revelou que a mesma pesquisa informa que 54,5% dos entrevistados não confiam no Governo Federal. O post original já foi corrigido. Assim como eu fiz um dia antes, a referida Coluna apontou o perigo da descrença nas instituições.

Campos ainda fez uma interessante associação entre os resultados da pesquisa e o trabalho da imprensa. Vale a leitura:
“Em resumo, os brasileiros olham as instituições relacionadas à democracia com imensa desconfiança. Isso não é bom. E como o brasileiro analisa a imprensa? 59,1% dos entrevistados afirmaram confiar no trabalho da imprensa. O curioso é que os índices de desconfiança relacionados às instituições democráticas certamente são efeitos do trabalho dos meios de comunicação, que expõe os podres dos poderes. Não é à toa que continuam latentes as idéias de criar mecanismos de controle do trabalho dos jornalistas. Desconfiem dessa idéia.”

Polícia para quem precisa

Os jornais no Ceará informam que, na noite de quarta-feira, uma camioneta Hilux ocupada por quatro pessoas que vinham do Aeroporto Internacional Pinto Martins, foi metralhada por engano pela Polícia Militar. Três passageiros ficaram feridos - um deles, turista espanhol, ficárá paraplégico. O Diário do Nordeste desta sexta publica as explicações do comando da Polícia Militar. Leia trechos:
“Apesar de a Polícia ter interceptado, com uma ´chuva de balas´, o veículo errado, comandante considera ação ´correta´. ´O procedimento adotado pelos policiais foi correto e dentro do que prevê a Lei´. A afirmação é do comandante do Policiamento da Capital (CPC), coronel Carlos Alberto Serra.”
“O comandante geral da PM do Ceará, coronel William Alves Rocha, determinou a abertura de inquérito policial militar para investigar a ação desastrosa de, pelo menos, sete policiais, na noite da última quarta-feira. O Comando também mandou afastar os policiais do serviço de rua.”

Blog do Wanfil
O caso lembra um outro, ocorrido em 2005, quando o brasileiro Jean Charles de Menezes foi confundido com um terrorista e morto no metrô de Londres. Foram oito com oito tiros à queima-roupa por forças especiais da polícia britânica.

Agora vejamos as diferenças. Os agentes ingleses são bem remunerados e os brasileiros não. Os ingleses andavam assustados desde os atentados no metrô de Londres ocorridos no mesmo ano; o Brasil não possui inimigos externos. Jean foi morto por membros de um grupo anti-terrosimo das forças armadas, cujo modus operandi é outro; aqui foram policias de patrulhamento comum.

Conclusão
O que aconteceu em Fortaleza revela despreparo da polícia, reflexo de um conjunto de fatores que permite a seleção de homens de formação precária. E isso, se não garante que acidentes sejam inevitáveis, pelo menos os reduz. Depois do brasileiro morto em Londres, não se teve mais notícias de outro caso semelhante.

Já no Ceará (imaginem o Brasil inteiro) , situações absurdas como a que aconteceu quarta, são quase comuns. Na mesma reportagem, o DN relaciona outras cinco vítimas de enganos da polícia, só este ano. Confira:
- 20/02 Fábio Almeida, 13 anos, morre com tiro no peito disparado por PM, em Caucaia
- 12/06 Antônio Nelton Farias, 24, leva tiro na cabeça em cerco policial a uma Topique
- 14/09 Francisco de Assis Filho, 54, leva tiro no coração, disparado por PM no Olavo Oliveira
- 20/09 PM mata o vendedor Sharles Reinan, 29, em Iguatu, ao confundi-lo com pistoleiro
- 24/09 Em Quixadá, Francisco Gleidson Silva leva tiro no peito disparado por PM em tumulto

Instituições e sociedade

Sem instituições fortes, não há democracia que, fragilizada, sucumbe ao culto personalista de líderes populistas, messiânicos e autoritários.

A

Associação dos Magistrados Brasileiros (AMB) divulgou uma pesquisa denominada “Imagem das Instituições Públicas Brasileiras”. Realizada pela Universidade de Brasília (UnB), para medir a confiança dos brasileiros nas instituições. A pesquisa ouviu 2.011 pessoas em todo o território nacional para avaliar a confiança dos brasileiros nas instituições e órgãos públicos. Confira alguns números da pesquisa:
Políticos

11% confiam nos políticos
16% confiam nos partidos políticos
14,6% confiam no parlamento

54,5% dos entrevistados não confiam no Governo Federal
Corrupção
84,9% acreditam que a corrupção pode ser combatida
79,8% discordam do foro privilegiado
Judiciário
51,7% não sabem a diferença entre Ministério Público e Pode Judiciário.
41,8% confiam no Poder Judiciário

45,5% confiam nos juízes
Imprensa
59,1% confiam no trabalho da imprensa

Blog do Wanfil
A pesquisa revela que o Judiciário é o Poder que goza de maior credibilidade, e mesmo assim não chegou a inspirar confiança em 59% do entrevistados. A aprovação de apenas 14% para o Legislativo, reflete o calvário moral que se abate sobre o Congresso. O Governo Federal tem a desconfiança de 54,4%.

Os políticos estão em baixa. Particularmente, estou entre os 89% que não confiam em políticos. Faço coro com os 84% que desconfiam dos partidos. E no entanto, creio que sem polítcos e sem partidos, uma sociedade não progride. Nesse ponto, é que precisamos discernir entre causa e efeito. As instituições corrompem ou são corrompidas por grupos e indivíduos? Alguma força misteriosa conduz os dissolutos para compor as instituições, enquanto os bons são repelidos? Em outras palavras, as instituições expressam a cultura hegemônica de uma sociedade. A cultura da impunidade, da trapaça, do jeitinho, do patrimonialismo, do desrespeito às leis e aos outros.

Charge - Lula na ONU

Por Novaes, na Gazeta Mercantil

A cruzada da "marxista-esotérica" contra a religião

Notícia selecionada no Blog do Norton:

ERRO POR CIMA DE ERRO - Luizianne veta projeto que colocava a Bíblia nas bibliotecas das escolas públicas - Só faltava mesmo alguma coisa parecida… A Prefeita de Fortaleza, Luizianne de Oliveira Lins, ex-evangélica, vetou Projeto de Lei que obrigava a colocação da Bíblia nas bibliotecas das escolas públicas municipais. O veto da prefeita está tramitando na Câmara Municipal desde o dia 6 de setembro de 2007. O projeto foi aprovado por unanimidade pelos vereadores na Câmara Municipal.

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A relação entre Estado e religião é um tema delicado. Legalmente, o Estado é laico, ou seja, não possui religião oficial, nem obriga os indivíduos a seguirem crença X ou Y. Entretanto, ter uma Constituição que garante a liberdade de culto é uma novidade na história da humanidade. Até o século 18, Estado e religião eram parceiras umbilicalmente ligadas. Na idade média, a Igreja condenava e o Estado executava. Evidentemente, as religiões que tinham influência nos governos terminavam por perseguir os adeptos de outras crenças. Isso acontece ainda hoje, como nas teocracias mulçumanas. De qualquer forma, nas sociedades ocidentais, a solução foi buscar separar, na forma da lei, Estado e religião.

No entanto, não existe sociedade laica. Nunca houve. É impossível exigir que as pessoas sejam totalmente isentas quanto aos prórios valores espirituais. Como então, garantir uma separação absoluta? Ora, isso é impossível. Na verdade, a opção pela dissociação objetivou impedir que o o aparato estatal promovesse perseguições religiosas, e não eliminar as manifestações religiosas, mesmo em atividades típicas do Estado. Por isso nos EUA as moedas são impressas com o a frase “Deus salve a América”, sem que isso constitua crime. Da mesma forma, a Constituição brasileira faz menção a proteção de Deus. Como ficam os ateus? Ora, ficam com a garantia de contiuarem a ser ateus sem problemas. Não pode é a minoria determinar a vontade da maioria.

Luizianne errou duplamente. Primeiro porque vetou projeto que não obrigava leitura ou adesão religiosa, mas apenas disponibilizava o livro religioso adotado pela maioria dos brasileiros. Segundo porque sua ideologia, de base materialista, entende que a religião é um mal, um truque das elites dominantes contra os humildes. Um instrumento de controle que visa conformar os desassistidos e garantir a exploração capitalista. Ela já professou sua crença “marxista-esotérica”, e o marxismo chama a religião como “ópio do povo”. A ação, portanto, não visa proteger minorias religiosas, mas promover critérios ideológicos nas escolas.

Blogs ganham espaço

Essa saiu no ex-blog do César Maia.

QUASE 9 MILHÕES DE BRASILEIROS LÊEM BLOGS - via IDG Now

Quase 9 milhões de pessoas acessam e lêem blogs, de acordo com dados do Ibope/NetRatings de agosto, o que representa 46% do número de internautas ativos no mês. “Os dados mostram também que o Brasil está no patamar dos Estados Unidos e do Reino Unido, mercados em que o uso de redes sociais é maior que o de blogs, mas atrás de França e, principalmente, Japão”, afirma José Calazans, analista do Ibope Inteligência. Em agosto, de acordo com o Ibope/NetRatings, praticamente 15 milhões de usuários residências navegaram em Comunidades (incluindo redes sociais, bate-papos, fóruns e blogs), o que equivale a cerca de 80% do total de internautas ativos domiciliares do mês. Desses, mais de 13 milhões (70% do total de usuários) entraram em redes sociais.

E por falar em cegueira

A polêmica reportagem “Sexo, verdade e videotapes”, publicada na revista Farol, rende debates na imprensa, no meio político e entre profissionais da área. No que diz respeito ao seu conteúdo, alguns a defendem - o que é perfeitamente compreensível, outros a criticam, fato igualmente aceitável. Creio mesmo que o submundo dos cimenas pornográficos merece atenção jornalística. Como eu não pude ter acesso - ainda - à matéria citada, procurei não entrar no mérito editorial e moral envolvidos no assunto.

Coisa bem diferente é analisar os aspectos políticos da questão. Vejam a opinião do jornalista Érick Guimarães, na coluna Política do O Povo:
A FAROL CEGOU OS TUCANOS - Poucas discussões são tão reveladoras quanto os ataques da bancada tucana à revista Farol, da Prefeitura de Fortaleza. (…) Classificar a Farol como revista pornográfica não é questão de moralismo. É de uso político. Mira-se na publicação, mas o alvo está no Paço. Quisessem fazer um debate sério, os tucanos poderiam encarar a discussão proposta pelo vice-governador Francisco Pinheiro, sobre os gastos sociais na cidade. Cegos para os problemas da cidade, os tucanos preferem ficar no moralismo. No máximo, tiram a revista de circulação - o que seria uma perda porque, no geral, a revista é boa. No mínimo, perdem o tempo e a paciência do contribuinte.”

Notem bem. Um analista político critica opositores de um governo por estes agirem de acordo com interesses políticos. Deveria ser algo normal, mas segundo o pensamento do jornalista, numa lista de prioridades, se os tucanos fossem sérios, tratariam dos problemas indicados pelo vice-governador do Estado, que apesar de pertencer ao mesmo partido da prefeita, não deve possuir nenhum interesse político. Por esse ângulo, talvez a oposição devesse ficar calada, quietinha, acuada com medo de pensarem mal dela. Talvez ela deva consultar jornalistas antes de falar contra alguma ação governista.

Se for para sugerir agendas de debate, creio que Érick Guimarães prestaria um serviço de maior relevância se procurasse saber como vive Adalberto Vieira, o homem dos dólares na cueca, ou se algum político cearense envolvido com “recursos não contabilizados” de Marcos Valério foi punido. No entanto, não sou eu quem vai definir as pautas da Coluna Política. Mas nem por isso considero que o jornal que a publica não seja sério.

O colunista alerta ainda para o fato de que os tucanos podem impedir a circulação da Farol. Falso. Partidos políticos não têm esse poder. Na verdade, o PSDB não conseguiu proibir nem sequer a IstoÉ de circular, mesmo depois da fraude do dossiê fajuto nas eleições passadas.

Preconceito
É proibido criticar a oposição? Claro que não. Aqui mesmo, inúmeras vezes, tratei da omissão, contradições e, em alguns casos, conivência das oposições. Entretanto, não cabe ao analista tentar definir quais assuntos devem ser tratados por grupos e partidos - isso é militância. No fundo, existe um preconceito contra a atual oposição. Quando o PT não era governo, ninguém nunca reclamava da disposição da sigla em contestar tudo o que fosse proposto por seus adversários. “Estão no papel deles”, diziam. Foi preciso o próprio Lula confessar que o seu partido fazia bravata. Mas agora, qualquer crítica feita ao petismo no poder é tido por muitos como interesseira, politiqueira, moralista, falsa etc. Érick Guimarães considera a matéria da revista adequada para ser distribuída a crianças nas escolas públicas? Não sei, ele não disse. Mas se a oposição não gostou, deve ter algo aí! É uma forma cega de se ver a democracia.

Isenção a favor

O Povo deste domingo trouxe um conjunto de matérias sobre o Bolsa Família. Pelo que podemos perceber, a idéia do noticiário é traçar um panorama que possibilite uma crítica “isenta” do programa. Infelizmente, nas entrelinhas, não é o quem acontece. No texto “O desafio do Bolsa Família“, o jornalista Erivaldo Carvalho afirma: Lançado em outubro de 2003, [o Bolsa Família] se tornaria o maior programa de distribuição direta de renda do Brasil, e um dos maiores do mundo. (…) O programa foi pensado, oficialmente, com dois objetivos básicos: combater a miséria e a exclusão social e promover a emancipação das famílias mais pobres.”

O jornalista omite uma informação básica: o Bolsa Família é a reunião de outros programas criados no governo FHC, como o Bolsa Escola e o Vale Gás. Essas ações eram a versão brasileira para as “políticas compensatórias” desenvolvidas na Europa, principalmente na Inglaterra. As críticas ao programa são terceirizadas na voz de economistas que apontam a falta de foco e de emancipação social do Bolsa Família. Tudo sempre muito “isento”.

Verdade evidente
Ao contrário do que a omissão da matéria sugere, as políticas compensatórias, que transferem renda, mas que são incapazes de promover crescimento econômico sustentado, não foram criadas por Lula. O Bolsa Família é uma marca de marketing, com o claro intuito de “apagar” a origem real do programa. Com o tempo, na ausência de realizações próprias, o governo Lula transformou as políticas sociais em assistencialismo descarado, ampliado na proporção inversa em que os investimentos regionais são cortados. Por isso o Bolsa Família aumenta, mas a execução orçamentária deste ano para o Ceará patina em dois por cento.

Infelizmente, o referido texto serve mesmo para reforçar o mito da nova era inaugural do petismo, contido na idéia falsa do “nunca antes neste páis”. É uma forma de “isenção” jornalística a favor de um governo que não faz jus ao O Povo.

Farol da contradição

Eis a capa da mais recente edição da revista “Farol”, cuja reportagem sobre prostituição causou polêmica. É publicada pela Prefeitura Municipal de Fortaleza, através da Fundação de Cultura, Esporte e Turismo - Funcet.
Vejam o resumo do caso, por Lauriberto Braga, do jornal O Estado de São Paulo de ontem:

Prefeitura de Fortaleza publica revista com foto de ato sexual - Após publicação, exemplares foram tirados de circulação
FORTALEZA - A prefeitura de Fortaleza publicou uma foto de um ato sexual em uma revista da Fundação de Cultura, Esporte e Turismo da Prefeitura de Fortaleza (Funcet) e teve de tirar os exemplares de circulação. A imagem de uma mulher com dois homens servia para ilustrar a reportagem de capa da edição número três da revista Farol, cujo tema era a prostituição no centro da cidade. Clique aqui para ler matéria completa.

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A tiragem da “Farol” é de 25 mil exemplares, com distribuição gratuita. Circula entre associações de moradores, escolas públicas municipais, ONG’s, universidades e centros culturais, nos eventos promovidos pela Funcet, entre outros.

Não li a reportagem “Sexo, verdade e videotapes”, que gerou a polêmica. Em breve falarei dela com mais detalhes. No entanto, vale à pena prestar atenção na defesa feita pelo deputado Artur Bruno (PT). No pelanário da Assembléia Legislativa, disse o parlamentar: “Agora, não podemos ser moralistas. Se é para condenar, é preciso condenar as novelas de seis a oito horas da noite que mostram coisas semelhantes. O editor foi infeliz, a prefeita não deve ter tomado conhecimento da foto antes da publicação”.

Quanta implicância com o moralismo… Ora, quem condena, atualmente, o conteúdo veiculado em telenovelas é o governo federal, tanto que o petismo defende abertamente a volta da censura prévia em nome das criancinhas do Brasil. Os pais, dizem, não podem controlar o que os filhos assistem, por isso é preciso que o aparato estatal defina por nós o que é bom ou ruim para os nossos filhos.

Reparem que ninguém pediu o fim da revista, nem questionou a qualidade e a necessidade de sua publicação. Ninguém sugeriu que a política editorial da revista fosse vigiada por burocratas. Toda a questão se resumiu a uma única matéria, e de forma tão plausível, que a própria Prefeitura ordenou o recolhimento da edição. Assim, é interessante ver Bruno alegar que para criticar a revista é necessário antes condenar as telenovelas. O deputado acusa os críticos da matéria de intolerância e exagero, quando o seu partido é que advoga o controle de conteúdo nos meios de comunicação. Parece um contradição, mas é um padrão ético peculiar: pornografia só é ruim quando serve de pretexto para controlar a liberdade de expressão dos outros.

Dois pesos

Compromissos profissionais me impediram de atualizar o blog ontem. Sabem como é, não tenho uma estatal amiga para me ajudar, nem um sindicato pra chamar de meu… Tenho mesmo é que ralar. Graças a Deus.

No entanto, há uma notícia sobre a qual não fiz comentários, e que por isso gostaria de resgatá-la. Leiam trecho: Diário do Nordeste do dia 20: Ação do réveillon volta a tramitar. Foi distribuída para a 3ª Vara da Fazenda Pública da Comarca de Fortaleza a ação civil pública, de autoria do Ministério Público Estadual e Ministério Público Federal, que denuncia irregularidades na realização do mais recente réveillon de Fortaleza. A ação foi protocolada no último dia 10 de setembro, após a Justiça Federal considerar que não tinha competência para tratar da matéria. São denunciados, na ação, o Secretário de Turismo de Fortaleza, Henrique Sérgio Abreu, a empresa Estrutural Local de Banheiros Químicos e Toldos Ltda e seus representantes, a D & E Entretenimento e seus representtantes, a Nativa Projetos Especiais, e seus representantes. Também foram incluídos na ação o Banco do Brasil, o Banco do Nordeste, a Ação Novo Centro e o Município.

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Um fato curioso me chamou a atenção. Quando a Justiça Federal declarou não ter competência, os jornais estamparam manchetes bem destacadas em suas capas, afirmando que o processo havia sido extinto. Este Blog alertou que isso poderia dar a falsa impressão aos leitores de que os acusados eram inocentes, mesmo sem julgamento. Na ocasião, ressaltei que o caso era de uma simples delimitação de cometência - a decisão indicava que o foro adequado para julgar o caso réveillon era o estadual.

Pois bem, somente agora isso foi esclarecido, ainda assim nem pequenos textos sem nenhum destaque. E ainda chamam a imprensa golpista…

Ilusões

No dia dois de setembro passado publiquei um post com o título: O PAC no Ceará e o canto da sereia do marketing governamental (clique aqui para ler) - Na ocasião, com base numa matéria do Diário do Nordeste, alertei para o fato de que o Plano de Aceleração do Crecimento - PAC, até agora não passa de uma grande peça de propaganda. Segundo a reportagem, a secretária de Planejamento e Gestão do Ceará, Silvana Parente, confirmou que ainda não houve liberação de recursos do PAC para o Ceará, nem sequer há expectativa de quando algum dinheiro virá.

Nesta quinta, no mesmo Diário do Nordeste, a jornalista Nathália Lobo informa: Fortaleza é a 12ª contemplada [pelo PAC da segurança]. Vejam trecho: “Fortaleza agora é a 12ª cidade brasileira a integrar o Programa Nacional de Segurança Pública com Cidadania (Pronasci), que ficou conhecido como PAC da Segurança. A informação foi confirmada ontem de manhã, ao Diário do Nordeste, pelo chefe da Guarda Municipal, Arimá Rocha.”

O problema está nos antecedentes
Hoje em dia, ninguém pode ser contra o aporte de recursos para combater a violência. Parabéns à Prefeitura de Fortaleza. No entanto, é preciso destacar alguns fatos:
1) O Governo Federal não possui critérios técnicos para liberar recursos públicos, dinheiro do povo;
2) Sem critérios técnicos e definições transparentes, o espaço para que interesses e pressões políticas se sobreponham ao interesse social é grande. A liberação dos recursos é anunciada logo após as pesquisas de opinião demonstrarem o desgaste da prefeita, que corre risco de não se reeleger nas próximas eleições;
3) Fora isso, é bom lembrar que o PAC original não saiu do papel. TOMARA QUE O PAC DA SEGURANÇA NÃO TERMINE COMO A SIDERÚRGICA, A REFINARIA, O METROFOR E A TRANSPOSIÇÃO DO SÃO FRANCISCO - NADA ALÉM DE UMA ILUSÃO.

"Acuse-os do que você faz!"

Diário do Nordeste de hoje: Opositores trocam insultos na Assembléia - O estopim para o novo embate entre tucanos e o PC do B foi a declaração de Inácio: “Em termos de ética e moral o PSDB e o DEM poderiam tomar um jejum de 100 anos. Se tem gente que não tem moral para falar em ética no Brasil é o PSDB”, afirmou. Ontem [na Assembléia], Lula Morais [PCdoB]reforçou as críticas do correligionário, e aproveitou para apontar alguns exemplos e atitudes do PSDB. “Foi uma atitude de ética e moral comprar a reeleição do presidente Fernando Henrique, comprando voto a R$ 200 mil?”, questionou Lula, afirmando que essa teria sido a atitude do PSDB para reeleger o ex-presidente tucano.

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O senador Inácio não revela como votou no caso Renan, embora tivesse feito, anteriormente, uma defesa pública do presidente do Senado. Digamos que seja por excesso de zelo para com as normas do sigilo que garantiu a impunidade de Renan. Inácio não suporta que duvidem da ética que o motiva a esconder o voto. Tudo bem. Mas falar em nome da moral e da ética, convenhamos, é complicado para qualquer aliado dos 40 mensaleiros processados pelo STF.

Na ânsia de estancar o desgaste de Inácio e do PC do B com o apoio dado a Renan, o deputado Lula Morais foi mais longe ainda. Acusou o PSDB de ter comprado votos para a reeleição de FHC. Não tenho procuração para defender ninguém, seja ele tucano ou petista. Mas é interessante lembrar que o PT e o PC do B de Lula Morais sempre garantiram que FHC sabia da alegada compra de votos no governo tucano (sim, não há provas , nem condenações, como hoje exigem seus correligionários). Por algum motivo, esses mesmos comunistas consideram normal que o ingênuo presidente Lula nunca tenha desconfiado de um COMPROVADO ESQUEMA DE CORRUPÇÃO, que era comandado de dentro do Planalto. Tal distinção deve ser obra da ética superior do PCdoB.

Wladimir Ilich Lênin, o sanguinário líder totalitarista que inspira o PC do B, escreveu, em 1920, um panfleto intitulado “Esquerdismo: a doença infantil do comunismo”. Em síntese, o líder comunista, criticava os dogmáticos que não compreendem a relação entre princípios teóricos e programáticos e a prática política. Pois é, contra essa doença, Inácio e Lula Morais estão vacinados. São homens que sabem combinar o pragmatismo político com a teoria ideológica em benefício de um projeto de poder. A ideologia, bem trabalhada, pode servir para ocultar, por exemplo, a impunidade ou a corrupção. E o inverso disso também vale. Nossos comunistas, sem poder justificar os próprios atos, sem a disposição de assumí-los, cumprem outro ensinamento de Lênin: “Acuse os adversários do que você faz, chame-os do que você é!”.

Charge

Charge de Jorge Braga, para O Popular (GO)

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