Pode alguém ser contra e a favor das privatizações ao mesmo tempo? Isso não seria contradição ou falta de ética? Depende. Para o autor dos Cadernos do Cárcere (foto), Antonio Gramsci, qualquer posição pode variar segundo as circunstâncias definidas pelo “Partido Príncipe”. Confiram.
“Ocorreu ontem o leilão de trechos de rodovias promovido pelo Governo. O filé do sistema rodoviário brasileiro, que agora está sob o controle da iniciativa privada. (…) Um breve comentário: ocorreu o que nos acostumamos a chamar de privatização. Confesso que esperava protestos por mais essa inciativa-de-vender-o-país-a preço-de-banana. Não houve nenhum pio. No passado, eles explodiam. Era bravata. Era a disputa política. O oportunismo é tão grande que os brados contra a privatização foram convenientemente levantados na última campanha presidencial. Os leitores sabem por quem.” – A avaliação é do jornalista Fábio Campos, na coluna Política do O Povo desta quarta-feira.
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Campos é um dos poucos analistas locais que não tem medo de patrulhamento e que por isso chama as coisas pelo nome. No entanto, não podemos cair na conversa de que tudo é mera questão de oportunismo, ou que isso se trata de um desvio pontual que apenas mancha um passado de sonhos. Isso somente iguala os novos donos do poder aos antigos.
A questão central é diferenciar o que é oportunismo do que é método político. Acusar o núcleo central do comando petista de falta de ética não o constrange pelo fato de que para esse pessoal, ética tem outro significado: é o conjunto de ações que visam, exclusivamente, beneficiar o partido a que pertencem. Dessa forma, as coisas são boas ou más dependendo das circunstâncias. Isso é embasado teoricamente por Antonio Gramsci, que a partir das leituras que fez de Maquiavel, seu conterrâneo italiano, elegeu “O Partido” como o “moderno príncipe”.
Partido Príncipe
Voltando ao texto de Campos, outro ponto merece reflexão. Onde estão os protestos e as passeatas? Cadê a CUT, o MST, a UNE e os sindicatos? A resposta pode esclarecer como funciona, na prática, essa teoria política. Gramsci dizia que a conquista do poder passa antes pela conquista da sociedade civil organizada (expressão por ele criada). “O Partido” anteceder a busca do poder político institucional pelo controle das entidades de representação de classe e das associações populares. Pronto. Quando a agenda é de interesse do “Partido Príncipe”, esses grupos são acionados, com logística garantida por meio de recursos públicos e impostos sindicais, e as “manifestações” acontecem. Isso mesmo. Não existe isso de todo mundo sair de casa ao mesmo tempo e casualmente se reunir num protesto. Tudo é planejado. Ocorre agora que os líderes desses grupos estão no governo. A esperança de que uma reação aos escândalos venha a ocorrer fica por conta da utilização de espaços que ainda não foram controlados pela esquerda, como a Internet.