Tropa de Elite é um tapa na cara de maconheiro
O filme Tropa de Elite, adaptação do livro “Elite da Tropa” (escrito por André Batista, Rodrigo Pimentel, Luís Eduardo Soares – Editora Objetiva), é a produção nacional mais badalada dos últimos tempos. Com direção de José Padilha (o mesmo do documentário Ônibus 174), a obra conta com uma atuação segura de Wagner Moura no papel do policial Nascimento, capitão do Batalhão de Operações Policiais Especiais do Rio de Janeiro – BOPE, grupo especial de combate ao tráfico de drogas nas favelas cariocas. Destaque também para a interpretação do novato André Ramiro, cuja mudança de comportamento no decorrer do longa é muito bem conduzida.
Não faltam elogios e críticas ao filme. Por isso não vou entrar em detalhes do roteiro, da composição visual ou outros aspectos técnicos. Quem quiser saber mais informações sobre o filme, elenco e sinopse, basta acessar o site http://www.tropadeeliteofilme.com.br/.
Ponto central
O aspecto mais polêmico do filme não é a violência da guerra entre traficantes e grupos da polícia que não se corromperam, tema por demais abordado em outras ficções, inclusive novelas. O ponto central é a denúncia de que os usuários de drogas são co-responsáveis pelo crime organizado no Brasil – afinal, eles financiam o tráfico. Ao mesmo tempo, e o filme toca nessa ferida também, há no país uma cultura de glamourização do crime, onde bandidos viram “vítimas” do sistema e passam a ser celebrados como barreiras de resistência popular contra a tirania das elites capitalistas. Nessa deformação sub-marxista da luta de classes, as reais vítimas são tomadas por criaturas cínicas que apenas colhem o que plantaram, e a polícia, naturalmente, serve apenas de instrumento de repressão sem legitimidade alguma. Na contramão dessas idéias, Tropa de Elite é um tapa na cara de muita gente bacana que não vê mal nenhum em fumar um baseado ou cheirar uma carreirinha de coca; é um desconcertante chamado à responsabilidade para ONG’s e entidades que adulam traficantes e bandidos em nome da justiça social.
Sem eufemismos
Para não estragar a festa de quem não assistiu ao filme, vou comentar apenas uma passagem. A certa altura, o policial Matias (André Ramiro), que é universitário e não revela a profissão aos colegas com medo de perder a simpatia deles, participa de uma aula onde o professor instiga os alunos a debaterem a violência e o papel da polícia. Com aquele ar típico de seriedade refletida, os estudantes concluem que todos os policiais são corruptos e que a polícia é a verdadeira responsável pela violência. A conclusão lógica é que sem repressão ao crime, teríamos mais paz. O professor, cheio de consciência sociológica, concorda. Matias, que é honesto, é o único que protesta. Os alunos mais falantes, que não perdem uma passeata pela paz, compram maconha na faculdade. Mostrar esse tipo de contradição é coisa rara por aqui. Outra qualidade do filme é chamar as coisas pelo nome. Cliente de traficante não é usuário ou dependente químico, é maconheiro e, bom, os palavrões eu deixo com o capitão Nascimento.
