Como é fácil ser politicamente correto

Um artigo no O Povo desta quarta me chamou a atenção. Assinado pela advogada do Cedeca-Ceará Nadja Bortolotti , o texto A CPMF e a educação busca evidenciar o contraste entre o debate acerca da prorrogação da CPMF e o descaso para com a manutenção da Desvinculação das Receitas da União – DRU. Não sei se do ponto de vista jurídico a comparação faz sentido, mas algumas passagens merecem um comentário por representarem automatismos que fazem a fama politicamente correta de uma pessoa, ainda que nada de novo seja proposto. É uma forma de marcar posição sem correr riscos. Vou transcrevê-las em vermelho, intercalando-as com comentários meus em azul.

A contribuição, que tributa as operações financeiras, retirando o lucro dos banqueiros, tem provocado acalorados debates…
Isso é conversa de esquerdista que deseja manter a mística de justiceiro social. Como se os banqueiros nem dormissem, tamanha a preocupação com impostos. Na prática, lucro nenhum é tributado, pois qualquer custo adicional é repassado aos consumidores através dos preços cobrados pelos serviços e produtos. Além do mais, nunca os bancos lucraram tanto como agora, quando a CPMF é mais cara. Fui ao site do Cedeca para ver como a entidade é financiada para ver se havia dinheiro de banqueiro por lá, mas curiosamente não encontrei nada sobre a questão.

Entretanto, uma outra prorrogação que está sendo votada concomitantemente não tem provocado, coincidência ou não, a mesma revolta dos setores altos e médios da nossa sociedade. Trata-se da prorrogação da Desvinculação das Receitas da União – DRU… Cálculos da ONG Ação Educativa estimam que nos últimos dez anos, a DRU impediu que cerca de R$ 37 bilhões de reais fossem aplicados em Educação no Brasil.
A mensagem é a seguinte: a classe média e a elite não se preocupam com a educação pública. Só querem saber de pagar menos impostos. Até concordo com essa parte. Mas e o que fazem a respeito os setores populares e as ONGs que se autodenominam representantes da sociedade civil organizada? Igualmente nada. Os primeiros votam no governo que as prorroga, e os segundo, no máximo, culpam parcelas dispersas da sociedade. Que tal cobrar o governo Lula? Que tal cobrar a base aliada? Não, isso não. Sabem como é, o governo é um grande parceiro de ONGs. Quando esses setores médios criticados ensaiaram protestar contra a corrupção e o mensalão foram taxados de golpistas.

Já em relação ao Governo Estadual, observamos uma clara prioridade no aumento de superátiv primário e pagamento dos juros e amortização da dívida, em detrimento do investimento em políticas públicas.
O que têm a ver CPMF, DRU, superávit primário e o governo estadual? Objetivamente, nada. A não ser que todos eles permitem aquele discurso fácil que condena os interesses econômicos, contrapondo-os aos interesses sociais. Como se políticas sociais não representassem custos. Assim é fácil ser bacana. Houve um tempo em que muitos acreditavam que os governos deveriam chutar o balde das contas, tascar um calote no mercado e patrocinar um mundo sem empresas, sustentado apenas na vontade política, na fraternidade entre miseráveis e na volta da agricultura de subsistência. Aliás, ainda existem alguns partidos nanicos que pensam mais ou menos assim. Acho que o pessoal do Cedeca tem se deixado influenciar demais pelo Psol.

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