Bravata tem perna curta
Leiam trecho do artigo Democracia e alternância, do deputado federal José Guimarães (PT), publicado no jornal O Povo: “É certo que os dois governos de Lula marcarão a história do Brasil. Os motivos são muitos: crescimento econômico firme e consolidado com distribuição de renda, geração recorde de empregos (…).” Leia mais.
Agora comparem-no com essa notícia veiculada pelo Portal Terra: Ipea: geração de empregos formais deveria ser 473% maior – O número de empregos formais gerados no Brasil em 2007 deveria ser 473% maior que as 1,592 milhão de vagas que as empresas devem ofertar neste ano, segundo estudo do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea). O instituto diz que 9,134 milhões de trabalhadores procuram emprego em 2007 – déficit de 7,542 milhões de vagas entre procura e oferta. Leia mais. O estudo completo pode ser encontrado no site do IPEA.
Wanfil
Hummm. O mundo perfeito idealizado no artigo do parlamentar não resiste a um bom estudo técnico. E o crescimento vigoroso da economia? E o recorde de empregos? Pois é, são pífios e insuficientes, embora – isso o estudo não diz – o mundo atravesse o período de maior estabilidade e prosperidade desde o fim da 2ª Guerra Mundial. Comemoramos com frequência a tão somente a mediocridade. Na América Latina, o Brasil só cresce mais do que o Haiti . E dessa vez não dá pra culpar a imprensa ou a oposição, pois o IPEA é uma fundação pública federal vinculada ao Núcleo de Assuntos Estratégicos da Presidência da República. A verdade é que esse discurso de sucesso econômico “nunca antes visto neste país” é uma construção política sem respaldo na realidade. É levar a fama no grito. O crescimento da economia brasileira não consegue absorver nem sequer o crescimento vegetativo da população.
Espiral do silêncio
Al guns podem se perguntar: Como um discurso pode se sobrepor a uma realidade? Pode haver uma cegueira geral? – A pesquisadora alemã Elisabeth Noelle-Neumann (foto), especialista em
estudos sobre opinião pública, desenvolveu uma sofisticada hipótese, denominada Espiral do Silêncio, segundo a qual as pessoas desejam estar em consenso as opiniões que julgam ser hegemônicas. Neumann sustenta que as pessoas tendem a se manter caladas sobre determinados assuntos, por receio da reprovação vinda dos que compartilham as idéias suposta ou efetivamente majoritárias. Uma espécie de medo da solidão, um instinto de autopreservação, a necessidade de não destoar do grupo. O resultado é que algumas idéias, ainda que não sejam consensuais nem maioria, uma vez insufladas por setores influentes e barulhentos, terminam por contaminar a opinião pública. Assim é que o “sucesso econômico” de um governo se transforma em consenso “inquestionável”, em “verdade” auto-evidente, ainda que seja desautorizado pelos números e pela realidade.