Em política, as coisas nunca são o que parecem

A especulação é o esporte preferido da ciranda financeira no Brasil. Mas a atividade não se restringe aos domínios da economia. É comum também na política. Os articulistas do jornalismo costumam sacar suas “fontes” para apresentar hipóteses e conjecturas. No meu caso, vou asumir a paternidade da opinião ao comentar sobre dois episódios.

PSDB
Os tucanos decidiram não apoiar a manutenção da CPMF. A decisão, segundo o blog do Josias (Folha de São Paulo), resultou de uma votação entre os senadores do partido. Foram derrotados na ocasião o atual presidente da sigla, senador Tasso Jereissati (CE), e o próximo presidente, senador Sérgio Guerra (PE), que seriam defensores de um acordo com o governo. O encontro foi anunciado com bastante antecipação para a imprensa. Ora, ninguém avisa aos jornalistas sobre uma reunião que pode culminar num racha. O PSDB é um partido de base parlamentar, sem um líder inconteste (como o PT); seu comando é restrito a um grupo limitado, que pode ter interesses conflitantes. Assim, o anúncio e o resultado da votação do PSDB foi uma estratégia para preservar o comando da sigla, transferindo a decisão para outros senadores de menor destaque, de forma a evitar (ou diminuir) as represálias do Governo Federal contra os governadores José Serra (SP) e Aécio Neves (MG) – afinal, foi a “base” que decidiu, sem dar ouvidos aos conselhos da liderança. Portanto, a tese de que Jereissati, Guerra, Serra e Neves foram derrotados é errada. Na verdade, eles perceberam que o apoio a um imposto impopular não interessa ao PSDB. Soaria como conivência e subserviência.

PT
Em Fortaleza, os candidatos à presidência nacional do PT se reuniram para apresentar suas propostas, num debate realizado na sede do Sindicato dos Bancários do Ceará. A maioria criticou Lula. Certos analistas custumam ver esses acontecimentos como prenúncio de uma crise, ou de uma catarse renovadora, geradas pela vontade das bases, representadas pela miríade de tendências que compõem o partido. É um mito. O poder no PT é centralizado no comando paulista, especialmente na figura do líder Lula. Seu desejo é lei. As críticas são uma espécie de tradição, amparada no método assembleísta comuns aos sindicato. Transmitem a sensação de democracia e participação, mas com as devidas intervenções, terminam quase sempre por legitimar as decisões de instâncias superiores. Politicamente, essas críticas têm a vantagem de ocupar o espaço que seria da oposição. O PT, confortavelmente, consegue, atavés das tendências, ser contra e a favor de algo ao mesmo tempo. Por isso, apesar de tudo, nas eleições eles fecham com Lula, esquecendo das críticas rapidinho.

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