O maior factóide da história do Ceará

Diário do Nordeste: Siderúrgica: um novo começo – Hoje, em Brasília, a Companhia Vele do Rio Doce (CVRD) , a Dongkuk Steel e o governo do Ceará protagonizam a retomada de um processo paralisado há um ano pela Petrobras, ao romper o contrato firmado para fornecimento de gás natural para usina siderúrgica Ceara Steel. Leia mais.
O Povo: Usina siderúrgica terá novo consórcio – O novo projeto da usina siderúrgica do Ceará será anunciado hoje, 20, pelo presidente da República Luiz Inácio Lula da Silva, em cerimônia marcada para começar às 10 horas, no Palácio do Planalto, em Brasília. (…) Na solenidade no Palácio do Planalto, será assinado um memorando de entendimento – não é um contrato, mas sim um tipo de protocolo de intenções – entre a Dongkuk Steel, a Companhia Vale do Rio Doce e o Governo do Ceará. Leia mais.

Blog do Wanfil
Ora, ora, quanta gentileza. Um negócio entre um grupo privado e um governo estadual será anunciado pelo presidente Lula, responsável direto pela postergação (e quase inviabilização) desse mesmo investimento. Não é segredo para ninguém que faz parte do “modus operandi” do petismo o aparelhamento de entidades e eventos – os sujeitos fazem proselitismo até em velório e colação de grau -, mas esse caso agora é “sui generis”. O Governo do Estado “cede” a chance de assumir uma realização (e há carência nessa área), para que Lula possa fingir o cumprimento de uma promessa de campanha. Isso mesmo! Não há nada que ligue a siderúrgica ao Governo Federal. Nada! Pelo contrário, o empreendimento saiu apesar dele. A opção pelo anúncio em Brasília é o maior factóide da história do Ceará. Das duas uma: é medo ou interesse. Medo de que o Governo Federal impeça o negócio, interesse eleitoral visando a campanha presidencial de Ciro. Mas nisso adentramos no perigoso terreno da especulação. O fato é que o anúncio, para corresponder a realidade, deveria ser feito em Fortaleza.

Inversão de papéis
Durante muito tempo aconteceu o contrário. O Governo Federal fazia obras no Ceará que o Governo Estadual, indiretamente, assumia como sua. É o caso do novo aeroporto. De qualquer forma, havia uma parceria em funcionamento, e existiam contrapartidas estaduais para garantir os recursos federais. Agora, o Governo Federal é quem busca tirar proveito das obras regionais, com o devido apoio da iniciativa privada, não raro satanizada por almejar lucros. Como a capacidade de investimentos dos governos estaduais é infinitamente menor do que a da União, ficamos no prejuízo. A grana vai mesmo é para garantir o emprego dos companheiros e custear os programas assistencialistas, que garantem votos.

Os aliados de Lula, os que lucraram com as promessas do candidato “amigo dos nordestinos”, devem agora fazer a festa, alardeando que a siderúrgica foi obra do presidente. Se o oportunismo serve ao comando, há de servir aos comandados. É o milagre da multiplicação do factóide.

As cores da consciência

Hoje é o dia da consciência negra. Muitas causas justas, como o combate à discriminação racial, podem se transformar em instrumentos de perseguição e ressentimento. É preciso ter cuidado para não fazer da luta contra o racismo, a expressão de um racismo invertido. No mais, é preciso diferenciar as questões culturais – que devem ser tratadas pela educação, das político-jurídicas – que devem obedecer os ditames da lei. Ano passado, logo quando começei a editar o Blog, por ocasião dessa data, fiz um post sobre esse tema. Reproduzo-o abaixo:

Consciência não tem cor
Ter orgulho da própria cor, ou das suas raízes, é fator positivo no que tange à auto-estima. Nesse sentido, lutar contra a discriminação é um dever comum, pois nossa sociedade é heterogênea. O primeiro passo para corrigir problemas dessa natureza é estabelecer um igualdade jurídica. O problema de haver um dia para comemorar a “consciência negra” reside no fato de que se está promovendo um distinção que segrega. Por esse princípio, seria natural haver o dia da “consciência branca”, ou cabloca, ou quase-negra, ou amarela etc. A consciência é um atributo individual e intransferível, e independe do sexo, da cor, ou da idade. Do ponto de vista coletivo, podemos ter o patriotismo, que é o sentimento de preservação de uma cultura histórica capaz de garantir a unidade nacional.

Gilberto Freyre e Ali Kamel
Dois livros podem contribuir muito para esse debate. O primeiro, Casa-grande e Senzala, foi escrito pelo sociólogo Gilberto Freyre em 1933. Trata-se de um imenso painel que, entre outras coisas, traz o registro detalhado do processo de miscigenação que fez do Brasil um país multi-racial. Para Freyre, essa mistura seria a maior qualidade do nosso povo, a matriz da identidade nacional.

O segundo, Não Somos Racistas, recém lançado pelo jornalista e sociólogo Ali Kamel, alerta o leitor justamente para o perigo de perdermos a noção positiva da miscigenação, devido ao pensamento bicolor que busca dividir o Brasil apenas entre brancos opressores e negros oprimidos. “Num país em que no pós-Abolição jamais existiram barreiras institucionais contra a ascensão social do negro, num país em que os acessos a empregos públicos e a vagas em instituições de ensino público são assegurados apenas pelo mérito, num país em que 19 milhões de brancos são pobres e enfrentam as mesmas agruras dos negros pobres, instituir políticas de preferência racial, em vez de garantir educação de qualidade para todos os pobres e dar a eles a oportunidade para que superem a pobreza de acordo com os seus méritos, é se arriscar a pôr o Brasil na rota de um pesadelo: a eclosão entre nós do ódio racial, coisa que, até aqui, não conhecíamos”, afirma Kamel.

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