O factóide siderúrgico e o liberalismo-paraestatal
Sobre o factóide siderúrgico que ganhou espaço nos jornais na semana que passou, o jornalista Guálter George – do O Povo, fez algumas observações no artigo O peso do Planalto. Este blog enxerga o anúncio como uma presepada sem graça, o ápice de uma promessa não cumprida. George acredita que Lula tem méritos e que a siderúrgica é um fato novo na política brasileira. Abaixo, reproduzo alguns trechos do referido artigo em vermelho, intercalado por comentários meus em azul.
Dê-se como natural o estabelecimento da dúvida quanto à real validade do solene anúncio, terça-feira última no Palácio do Planalto, de um novo projeto de instalação de usina siderúrgica no Ceará.
Guálter concede que a dúvida sobre o anúncio da siderúrgica pode ser natural. Ainda bem. O contraponto dessa naturalidade seria, por oposição, a artificialismo da crítica oriunda das paixões partidárias. Como se o próprio anúncio da siderúrgica – feito no Palácio do Planalto, não fosse um produto de espetáculo político. Nesse caso, é inútil discutir a natureza das dúvidas. O que vale é saber da pertinência dos fatos.
Uma planta nova, com matriz energética diferente, investimentos maiores, perspectiva de produção acima da anteriormente prevista e, mais destacada das novidades, sem dependência direta do Governo federal para virar realidade.
Não foi essa novidade que o presidente Lula prometeu na campanha eleitoral. No mais, se a obra não depende de governantes, por quê o anúncio numa solenidade pública? A tal novidade deve ser mais uma contribuição de Lula à ciência política: o liberalismo-paraestatal.
Uma das formas de dizer que o acontecimento foi uma encenação é potencializar a informação de que se tratou apenas da assinatura de um protocolo de intenções.
Cadê a potencialização? De fato, a solenidade não passou da assinatura de um protocolo de intenções. No projeto anterior – batizado de Ceará Steel – aconteceu o mesmo e nem por isso vingou. Na época, um dos signatários era a Petrobras, justamente a parceira que inviabilizou o projeto, embora fosse submetida ao comando de Lula, que havia prometido o gás para a siderúrgica. De protocolo de intenções o inferno está cheio.
Para muitos, deu-se um circo político para cearense ver. (…) O que o presidente Lula fazia ali, queixam-se os mais incomodados, já que a Petrobras que controla inviabilizou a iniciativa da forma anteriormente prevista?
Pois é…
Dizer que Lula e seu governo nada têm a ver com o que foi anunciado é, equivocadamente, minimizar a importância de reunião que ele mantivera, uma semana antes da solenidade de terça-feira, com o próprio Roger Agnelli, o homem que dá a última palavra na Vale do Rio Doce. Um executivo deste nível só se sensibiliza com argumentos governistas quando eles indicam algum tipo de ganho aos interesses que representa.
Quais foram os argumentos governistas? O que foi discutido na reunião com Agnelli? Talvez Lula tenha dado a garantia de que desta vez não atrapalha o empreendimento, pedindo em troca que o anúncio fosse feito no Planalto. É preciso cuidado para não imaginar que seja produto de complexa engenharia administrativa, o que na verdade foi um ato de cortesia.
Sob o ponto de vista político, o presidente Lula tem mais a ver com o projeto de agora do que tinha a ver com aquele que encontrara no meio do caminho. Este sim, é resultado de um esforço pessoal que o faz parceiro e, certamente, mais interessado em resultados concretos. O raciocínio é simples: os dividendos políticos não precisam ser divididos com nenhum antecessor.
Lula não corre mais o risco de ter que dividir méritos com antecessores, fato que fortaleceria o seu empenho. O Ceará gastou mais de 300 milhões de reais cumprindo exigências da Petrobras, mas a questão pode se rezumir a uma guerra de vaidades. Isso seria prevaricação. A valer essa idéia, qualquer suposto mérito que ainda coubesse ao presidente seria anulado pelo desnecessário desperdício de recursos públicos imposto do povo cearense.
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