Feliz ano novo e obrigado

Caríssimos,

O ano chega ao fim e um outro se inicia. É o movimento da vida que caminha inexoravelmente em busca de mais tempo para novas realizações. Simbolicamente, a virada do ano é a interseção exata em que o passado e o futuro se encontram magicamente, no breve instante de um brinde festivo, na contagem regressiva que antecipa o marco zero, na luz fugaz produzida pela queima dos fogos de artifício. E assim o futuro se transmuta em presente na festa do réveillon, enquanto o passado é deixado para trás na poeira do esquecimento.

Nessas ocasiões, o novo é celebrado como uma oportunidade para consertar o que deu errado ou para melhorar o que vai bem, enquanto o velho é descartado feito objeto sem valor e inútil, sem nada mais a oferecer. Ocorre que a cronologia dos acontecimentos não se faz de um hoje eterno, desprovido de ontem e totalmente virgem para o amanhã. Não somos o que aconteceu no ano X, ou o que deixou de acontecer no ano Y, muito menos o que pretendíamos para o ano Z. Somos a soma dos erros e dos acertos do passado, que atuam em contato com as ações do presente e a construção do futuro. Somos a síntese desse movimento incessante.

É bom que a esperança esteja entre os sentimentos que recepcionam o ano novo, pois indica uma vontade de melhorar. No entanto, a esperança não produzirá efeitos, se estiver dissociada das lembranças, boas e más. No ano passado cometemos enganos, recaímos em vícios, perdemos oportunidades, mas também mantivemos lealdades, construímos novas amizades, evitamos, com a experiência acumulada, erros antigos, sonhamos e trabalhamos e nos ajudamos. Nesse novo ano, para nos depurarmos, para que o mundo possa progredir, precisamos ter em mente que o ano que passou foi rico em lições.

Nessa passagem, quero agradecer à Deus, à minha esposa e minhas filhas, à minha família, aos meus amigos e colegas, aos que me lêem, e como o clima é de revisão fraterna, agradeço até aos desafetos que me testaram o caráter. Agradeço a todos os que construíram juntos o ano que se vai e que também haverão de edificar, nos próximos doze meses, novas alegrias e esperanças. Agradeço especialmente aos que acompanharam este blog, que durante o ano cresceu - foram 10.000 page views - e que se firmou como leitura de muitos formadores de opinião. Que 2008 possa ser um ano de sucesso para todos nós.

Obrigado a todos. Obrigado ano velho e FELIZ ANO NOVO.

Retrospectiva rápida

O ano de 2007 chega ao fim. O Blog do Wanfil também faz um resumo dos acontecimentos. No entanto, para não ficar cansativo, busco resumir o ano com a seleção de poucas passagens, mas que são capazes de sintetizar o espírito que o marcou.

O ano que acaba começou de ressaca, com a notícia de que os festejos de Natal e Ano Novo em 2006 causaram mortes violentas em demasia. Em seguida, o Carnaval e a Semana Santa também transcorreram sob o signo dos acidentes de trânsito, a maioria por conta da conjugação de imprudência com estradas ruins. Inflizmente isso deve se repetir em 2008.

Réveillon - No Ceará, o réveillon patrocinado pela Prefeitura de Fortaleza foi objeto de polêmica, com a acusação de superfaturamento. O caso ainda vai a julgamento.

Pan – O Brasil sediou os Jogos Panamericanos sem maiores incidentes. As vitórias brasileiras e as manchetes animaram o público. Na abertura, Lula foi estrondosamente vaiado. No encerramento, ele não compareceu como estava previsto. Atletas cubanos tentaram fugir da ditadura de Fidel, mas foram repatriados pelo governo brasileiro.

Violência - O medo é generalizado. A morte do menino João Hélio, arrastado por um carro nas ruas do Rio de Janeiro, chocou o país durante alguns dias e pôs em discussão a maioridade penal aos 18 anos. Depois, tudo voltou ao normal, com o velho discurso de que devemos proteger criminosos menores de idade. O argumento segundo o qual são as condições econômicas que determinam as ações de jovens criminosos, não passa de preconceito contra os pobres, disfarçado de progressismo. No Ceará, o Ronda do Quarteirão, promessa símbolo da campanha de Cid Gomes, começa a funcionar. Ainda não foi possível analisar seus resultados.

Siderúrgica - O presidente Lula veio ao Ceará em julho, e voltou a prometer a viabilização da siderúrgica no Estado - uma de suas promessas de campanha. Seus aliados, como sempre, comemoraram a previsão de investimentos. Na prática, a Petrobrás inviabilizou o negócio, com a decisão de não fornecer gás natural para o empreendimento. Os parceiros privados decidiram utilizar carvão como fonte energética, de forma a não precisar do governo. Numa cerimônia patética, o governador Cid foi a Brasília para ver o mesmo presidente Lula anunciar uma siderúrgica privada como se fosse obra do Planalto. Os aliados locais do presidente, como sempre, não reclamaram do tratamento dispensado ao Ceará.

Orçamento - Não obstante as promessas de investimentos, até setembro, segundo dados do Siaf divulgados pela imprensa, do total previsto para o Ceará, apenas 2% foram executados.

Impunidade - Renan Calheiros deixou a presidência do Senado mas não foi cassado por quebra de decoro parlamentar, frustrando a nação. No Ceará, o senador Inácio Arruda votou pela absolvição do colega.

CPMF - Pela primeira vez a oposição fez oposição e acabou com a CPMF, obrigando o governo a rever a qualidade dos seus gastos.

Natal - No Ceará, o Natal de 2007 foi o mais violento dos últimos 10 anos.

Réveillon - A Prefeitura de Fortaleza, em resposta as críticas e acusações do ano anterior, promove uma festa ainda maior. O Ministério Público Federal e o Tribunal de Contas dos Municípios resolvem acompanhar os gastos e determinam correções no formato do evento e no edital de licitação.

Crescimento econômico - O IBGE e a ONU trabalham com um índice de 5% de crescimento do PIB brasileiro. O número enseja comemorações, mas no fundo, se comparado com outras economias, é o retrato da mediocridade. Juntando os países da América Latina e do Caribe, uma região pobre, ficamos apenas no décimo sétimo lugar.

Descompasso

Crescimento econômico na América Latina e no Caribe:
- Economia brasileira fica em 17º lugar
- Brasil supera apenas Suriname, Guiana, Bolívia e Equador

Ontem o presidente Lula falou em cadeia nacional de televisão. Lamentou o fim da CPMF, alertando sobre as supostas dificuldades que poderão prejudicar o Sistema Único de Saúde (SUS), e comemorou o crescimento econômico, que compensará as perdas de receita, anunciando um preíodo de prosperidade, coisa e tal. É claro que não poderia ser diferente. Nunca um presidente confessaria que a taxa de crescimento atual é resultado de uma herança deixada pelo antecessor, somado a um ambiente internacional favorável. No que diz respeito a parte que lhe cabe, ou seja, manter esse crescimento compatível com o resto do mundo (ou pelo menos com os vizinhos), a coisa muda de figura, e o descompasso entre o discurso e a realidade emerge desconcertante.

Pois bem. Hoje o Blog do Josias de Souza, jornalista da Folha de São Paulo, mostra que a Comissão Econômica para a América Latina e o Caribe (Cepal), entidade vinculada à ONU, divulgou um estudo sobre o desempenho econômico dos 34 países da América Latina e do Caribe. O Brasil ficou na 17ª colocação. O que obteve melhor desempenho foi o Panamá (9,5%), mais bem-posto no ranking do que a Argentina (8,6%), segunda colocada; e a Venezuela (8,5%), na terceira posição. O crescimento do PIB brasileiro ficará percentualmente acima apenas de Suriname (5%), Guiana (4,5%), Bolívia (4%) e Equador (2,7%).

Para ler a íntegra do documento da Cepal, em espanhol, clique aqui.

Ciranda da fantasia 2

Vejam o vídeo no post abaixo. É uma propaganda que apresenta o Bolsa Família como solução para o marasmo econômico brasileiro. O programa funcionaria como uma espécie de corrente do bem, o pontapé de um círculo virtuoso. Dê dinheiro aos pobres que passarão a consumir mais de empresas que precisarão produzir mais, gerando empregos para alimentar a ciranda do crescimento. Tudo perfeito.

Ao assistí-lo, o cidadão simples deverá se perguntar: “Como ninguém pensou isso antes?” E depois concluirá que somente um líder que veio do povo é capaz de resolver as questões mais complicadas com o seu toque de simplicidade. O jornalista americano H. L. Mencken costumava dizer que para todo problema complexo, existe uma solução simples e… ineficaz. Ora, ora. Nos primórdios do capitalismo a idéia foi posta em prática. O resultado foi inflação alta, juros estratosféricos, desvalorização cambial, desabastecimento, e no final, quebradeira generalizada.

A ciranda marqueteira do vídeo, é claro, busca falar ao povo. Portanto, esses detalhes técnicos e históricos não contam. O importante é mostrar que as coisas estão nos trilhos, que marchamos inexoravelmente rumo ao desenvolvimento. Pessoas comuns são apresentadas como integrantes anônimas de um movimento. Núbia sustenta os filhos com o Bolsa Família. Núbia faz compras na mercearia do Douglas. Com o crescimento do seu pequeno negócio, Douglas aumenta as vendas de atacadistas como Marcelo. Para dar conta da demanda, Marcelo faz mais encomendas para o agricultor Luiz. Querem saber onde a fantasia da propaganda se desfaz? No Luiz. Sendo agricultor, pobre e de baixa renda, ele também recebe o Bolsa Família. E aí, com a grana no bolso, plantar pra quê, não é?

De certa forma, a estrutura narrativa da propaganda me fez lembrar de um poema de Carlos Drummond de Andrade, principalmente pelo final. As coisas parecem ter um sentido, mas bem observadas, não significam nada.

QUADRILHA
João amava Teresa que amava Raimundo
que amava Maria que amava Joaquim que amava Lilique não amava ninguém.
João foi para o Estados Unidos, Teresa para o convento,
Raimundo morreu de desastre, Maria ficou para tia,
Joaquim suicidou-se e Lili casou com J. Pinto Fernandes
que não tinha entrado na história.

PS. Qualquer semelhança entre o título do poema e a realidade…

Ciranda da fantasia 1

Vejam o vídeo acima. Está sendo exibido na televisão durante os festejos de fim de ano. É a propaganda governamental dourando a realidade, um delírio que só funciona no mundoda fantasia. Tenta mostrar o Bolsa Família, um programa assistencialista sem saída, num instrumento de crescimento sustentável.

Balanço de Natal

Festas, compras, comida, bebida, acidentes, violência e mortes. E antes que me acusem o pessismo, adianto de que não falo de uma impressão generalista, falo de fatos consumados. Segundo a Agência Estado, o Natal de 2007 foi o mais violento dos últimos dez anos! A notíca foi publicada pelo o Povo. Confiram:

Ceará tem Natal com mais mortes dos últimos dez anos - De sexta-feira até esta terça foram anotadas 28 mortes violentas. Nas estradas cearenses aconteceram 87 acidentes com sete mortes. Somente o Instituto Médico Legal (IML) de Fortaleza recebeu 11 corpos de vítimas de homicídios na noite de Natal, a maioria à bala e à facada. Leia mais.

Blog do Wanfil
Qual o principal assunto nas reuniões natalinas? Jesus? A paz? O amor? Não. Foram os supostos arrastões no Centro de Fortaleza, que causaram pavor, tumulto e prejuízos. Digo supostos por conta da insistentes negativas das autoridades, inclusive o governador Cid Gomes. O fato é que o evento se deu na esteira de uma sensação de insegurança nunca vista. Todos andam com medo. E isso não há quem possa negar. O Natal mais violento dos últimos dez anos, infelizmente, somente reforça a constatação de que a violência não é uma mera suposição de pessoas suscetíveis ao noticiário. É muito antes, uma cruel realidade.

Cartão de Natal

Cartão de Natal
João Cabral de Melo Neto

Pois que reinaugurando essa criança
pensam os homens
reinaugurar a sua vida
e começar novo caderno,
fresco como o pão do dia;
pois que nestes dias a aventura
parece em ponto de vôo, e parece
que vão enfim poder
explodir suas sementes:

que desta vez não perca esse caderno
sua atração núbil para o dente;
que o entusiasmo conserve vivas
suas molas,
e possa enfim o ferro
comer a ferrugem
o sim comer o não.

Não basta a economia

No final do ano todos ficam mais sensíveis e otimistas, na esperança de que tudo melhore. Afinal, sempre há algo de bom para ser lembrado, que funcione como exemplo. Nesse época, as notícias tendem a buscar temas mais amenos e positivos. Mesmo assim, talvez pela tradição racionalista do Ocidente, o materialismo, representado pelas ciências econômicas, sobressai. Enquanto o crime e a impunidade crescem, e as mortes no trânsito e os escândalos de corrupção insistem em nos assombrar, é normal que especialistas de mercado apontem novos horizontes mais prósperos e revigorantes. As revistas semanais que chegam às bancas e os jornais desse domingo são exemplos disso. Em suma, 2008 será melhor porque haverá mais dinheiro. A questão é: isso basta?

Desde os anos 70 do século passado, quando a ditadura militar sufocava as liberdades políticas respaldada pelo milagre econômico, passando pela redemocratização até a nomeação de Fernando Henrique Cardoso como ministro da Fazenda do presidente Itamar Franco, quando a hiperinflação foi controlada por uma série de medidas que seriam as bases do Plano Real, a economia é o argumento final em qualquer debate político no Brasil. É o supremo critério de avaliação da realidade, deixando temas como a corrupção ou violência em segundo plano, como vimos nas últimas eleições presidenciais.

Diante das denúncias de negociatas, subornos, prevaricação etc, sempre aparece um número, uma estatística sobre a redução no preço do dólar, sobre a estabilidade da inflação, sobre o aumento das reservas cambiais e informações do gênero, para salvar a pele dos governantes. Tudo é perdoado, num eterno upgrade do “rouba mas faz”, transformado num “rouba mas divide”. Valores como amor, respeito, dignidade, coerência, honestidade, religião, Deus, trabalho, entre outros, não raro são qualificados de moralismo hipócrita, de sentimentalismo, de coisa de gente “caxias”, quando na verdade formam o substrato espiritual que deveria nortear toda ação humana. Assim, sempre que você ler ou ouvir questões econômicas como argumentos políticos, em substituição aos valores morais, lembre que essa é a ponta do iceberg. Ela não pode ser ignorada, ela é importante, mas não representa a totalidade do mundo.

Sobre o assunto, transcrevo um trecho de um ótimo artigo assinado por Olavo de Carvalho:
“Não se avalia o curso das coisas num país só pela economia, muito menos por um de seus aspectos isolados. (…) Já cheguei à conclusão de que neste país os economistas vivem num mundo paralelo, feito só de números, sem gente nem ação humana dentro, sem conspirações nem espionagem, sem grupos ativistas, sem revoluções nem guerras, sem movimentos de massa, sem mitos culturais, sem nada do que compõe a trama substantiva da História. (…)

A economia é apenas a condensação quantitativa e temporária de milhões de decisões humanas nascidas de fatores psicológicos, culturais, religiosos, militares e políticos. Nada é mais instável, mais sujeito a mudanças súbitas, do que a economia, enquanto os outros fatores se movem muito mais lentamente, com mais peso, sendo por isso mais determinantes. Prever o curso das coisas com base na economia é prever o movimento das camadas geológicas com base na direção do vento. (…) Previsões efetivas, realistas, nascem de um complexo raciocínio interdisciplinar, auxiliado por uma espécie de sexto sentido que se pode aprender, mas não ensinar.”

Obstinados no erro

Revista Veja que chega às bancas neste final de semana:
O homem certo no lugar certo
Há pouco mais de um ano, um grupo de petistas se envolveu numa trama para montar um falso dossiê com acusações contra o então candidato ao governo de São Paulo José Serra. A turma arrecadou quase 2 milhões de reais de origem até hoje ignorada e usou o dinheiro para comprar um conjunto de documentos fajutos de um conhecido estelionatário. A operação foi comandada pelos mais íntimos colaboradores do coordenador do comitê de reeleição do presidente Lula, o deputado Ricardo Berzoini. Na semana passada, Berzoini foi reeleito presidente do PT. Vai comandar o partido até o fim de 2009 e pilotar a máquina que cuidará da sucessão do presidente Lula. Uma máquina que nos últimos anos mostrou imensa destreza em associar política, corrupção e táticas de evasão. Candidato de Lula, Berzoini representa a continuidade no poder do ex-ministro José Dirceu – que comanda o partido há duas décadas e é o grande timoneiro dos mensaleiros, a organização criminosa que saqueava os cofres públicos para sustentar financeiramente aliados e subornar deputados de outros partidos.

Blog do Wanfil
Ao substituir José Geneuíno presidência nacional do PT, o agora ministro Tarso Genro falava em “refundação” do partido como medida de salvação. Era uma resposta aos escândalos que acabaram com o mito da pureza original que sigla cultivava em certos meios mais ingênuos. Para isso elegeram Ricardo Berzoini, o ex-ministro que operou a taxação dos servidores aposentados sem crise alguma de consciência (na oposição, o PT era contra). As façanhas desse senhor, mostradas acima, mostram bem o que é a refundação: TUDO MUDA PARA CONTINUAR COMO SEMPRE FOI.

Eleições do PT estadual: tudo muda para permanecer como sempre foi

Ilário Marques, prefeito de Quixadá, foi eleito como novo presidente estadual do Partido dos Trabalhadores. O candidato derrotado à reeleição, Joaquim Cartaxo, recorreu à Executiva Nacional da sigla para questionar o resultado, mas não obteve sucesso. A posse de Ilário está marcada para o dia 13 de janeiro.

Segundo a cobertura dos jornais e as declarações dos envolvidos, a vitória de Ilário indica uma mudança do PT em relação ao governo Cid. O partido agora assumiria uma postura mais independente, embora continue como parceira do governo estadual. Realmente, uma recomposição de forças foi operada internamente, com a perda de espaço do grupo liderado por Cartaxo e pelo deputado federal José Nobre Guimarães.

As disputas internas de poder no PT existem e são cuidadosamente estimuladas pelo comando em São Paulo e Brasília. Democrático? Nem tanto, pois tudo funciona até o limite do centralismo democrático leninista que também caracteriza a sigla. Na hora de reeleger o enrolado Berzoini como presidente nacional, os candidatos locais já sabiam qual o resultado que Lula desejava. Em muitas situações, essa variedade de alternativas e de conflitos pode ser últil para amoldar as ações do partido de acordo com as necessidades da hora. Sempre existe ou existirá uma corrente contra ou a favor de algo.

Outra característica do petismo é a vocação para o poder: o partido não aceita ser mero coadjuvante. Por isso não apoiou Itamar Franco após a queda de Collor. A aliança com Cid não é e nunca foi programática, é circunstancial. No Ceará, depois do desgaste do mensalão e dos dólares na cueca, o grupo de Guimarães não representa mais a possibilidade de poder. Caíram em descrédito e o PT, nas eleições internas, demonstrou ter entendido isso.

Já a prefeita Luizianne se move por instinto de autopreservação. Por isso não trabalhou por Cartaxo. Como ela sabe que Cid não é um companheiro de jornada, desconfia que o governador possa fazer corpo mole nas eleições municipais, em favor do projeto cirista. É como o pacto de não agressão Molotov-Ribbentrop, firmado entre Rússia e Alemanha na 2ª Guerra: todos sabem que vai haver traição. e que a qualquer momento o governador Ilário é, nesse caso, um providencial lembrete ao governador de que o PT pode causar problemas a Cid.

Desculpas informais não eliminam o "engajamento" de certos jornalistas

A propaganda política disseminada como pensamento livre e isento é a estratégia política mais bem sucedida da história do Brasil. Em vez de ações diretas e traumáticas - como as revoluções propostas por Marx e Lênin - hoje as transformações são operadas por meio de agentes auxiliares informais, principalmente nas escolas e nas redações dos jornais, como ensinava Gramsci. Dessa forma, a mensagem política ganha espaço de maneira difusa e camuflada, preparando o público para o discurso esquerdisa que, aos poucos, se tornou hegemônico na sociedade. Por isso todos se querem progressitas e ninguém se assume conservador, por entender, erradamente, que um é a encarcação do “bem”, enquanto o outro é a personificação do “mal”. Eventuais exageros, que poderiam lançar suspeitas sobre a estratégia, rapidamente são colocados na contas de “erros” fortuitos, como no caso abaixo.

Ontem comentei sobre uma manchete publicada pelo jornal O Povo, que dava conta de que a prefeita Luizianne Lins seria a quarta mais popular do país, com base numa pesquisa feita em apenas nove capitais. Tamanha foi distorção que nem mesmo um leitor casual ou um aluno de ginásio poderia ignorá-la, tomando-a por um lapso irrefletido ou por mera incompetência. No post Propaganda disfarçada (clique para ler), não digo que o jornal tomou partido por algum candidato ou político, falo sobre algo mais subjetivo e amplo, sobre uma forma voluntária de por interesses partidários acima dos compromissos profissionais. Falei mesmo foi sobre a “isenção engajada”, que é o mecanismo consciente pelo qual jornalistas, a maioria formada por professores também “engajados”, repassam valores ideológicos e fazem propaganda partidária, como se fossem descrição dos fatos desprovidas de segundas e terceiras intenções. Notem bem: jornalistas e jornais podem ter suas preferências, desde que avisem os seus leitores, e que não confundam opinião com notícia, com o objetivo de ludbriá-los.

Não sei se os editores do O Povo tomaram providências mais enérgicas. Se o jornal fosse meu, mandaria o repórter que escreveu a manchete ir trabalhar como assessor político da Prefeitura. O caso, de tão evidente, colocou em risco o compromisso editorial do jornal, que se viu obrigado a publicar uma breve explicação, escrita, aparentemente, meio contra a gosto (na hora de reconhecer os erros, jornalistas gostam de falar em autoritarismo da direção):

Prefeita é a quarta em avaliação - Ao contrário do que foi publicado na edição de ontem, Luizianne Lins (PT) não é a quarta prefeita mais popular do País, mas a quarta mais bem avaliada entre os prefeitos das nove capitais em que o Instituto Datafolha realizou sua pesquisa, divulgada na última segunda-feira. Leia mais.

Alegria de pobre dura pouco

Checar os fatos. Essa é a regra número um do jornalismo. Mas sabem como é, com tanta correria, tanta competição e notícias em profusão, tudo o que sai chancelado por alguma instituição famosa termina virando uma verdade instantânea. Não raro, as informações, lidas às pressas, terminam por distorcer a verdade. Jornais de todo o país estamparam como certa a informação de que o Brasil é a sexta economia do mundo, ao lado de potências como Inglaterra e França, e à frente de países como Finlândia e Suécia. Aqui mesmo neste blog a notícia foi reproduzida (veja abaixo), embora o comentário tenha alertado para a necessidade de alguma desconfiança para tanta pujança, caso contrário, seria razoável supor que europeus fugiriam da estabilidade sem graça no frio continente, para buscar sol, calor e prosperidade por aqui.

Bom, a festa durou pouco. O jornalista Reinaldo Azevedo e editor de economia da Revista Veja, Giuliano Guandalini, mostraram uma forma diferente de ler os dados do Bird:

O tamanho do Brasil: país está em 10º lugar no ranking do PIB, não em 6º. E caiu uma posição -
De acordo com o Bird, levando-se em conta a paridade do poder de compra, o chamado PPP, o Brasil responde por metade da economia da América do Sul, com o equivalente a 3% do Produto Interno Bruto. Estaríamos no mesmo patamar de Reino Unido, França, Rússia e Italia.

O Banco Mundial resolveu empregar um critério de arredondamento — mesmo para a medição do PIB PPP, que é mais generoso com os países emergentes — que se usava antigamente nas escolas quando as notas eram dadas por números. Tudo o que estiver abaixo de meio ponto, eles arredondam para baixo; o que estiver acima, para cima.

A tabela, lida sem os arrendondamentos é a seguinte:
Brasil: 2,88%; Reino Unido: 3,46%; França: 3,39%; Rússia: 3,09%; Itália: 2,96%. DE FATO, O BRASIL ESTÁ EM 10º LUGAR. Mas isso não é tudo: caiu uma posição.

Cuidado com os europeus!

Folha Online:
Brasil sobe uma posição e ocupa 6º lugar na economia mundial, diz Bird - O Brasil ganhou uma posição e agora ocupa o sexto lugar na economia mundial, segundo ranking do Banco Mundial, que divulgou nesta terça-feira os dados do PCI (Programa de Comparação Internacional), que analisa as economias de 146 países. Segundo explicação do Banco Mundial, o Brasil subiu de lugar por conta de uma nova avaliação. A paridade do poder de compra, expressa por meio dos valores das moedas locais e o que é possível comprar, tomou o lugar da chamada medida cambial, que apenas converte o PIB do país em dólares.

Confira o ranking do Banco Mundial segundo a capacidade de compra
1. Estados Unidos
2. China
3. Japão
4. Alemanha
5. Índia
6. Brasil, Reino Unido, França, Rússia e Itália
7. Espanha e México

Blog do Wanfil
Não sou economista, mas é preciso fazer algumas considerações antes de soltar rojões triunfantes. Essa “capacidade de compra” pode ser lida como “capacidade de endividamento” - algo facilitado pela oferta de crédito abundante, afinal, não temos tradição em poupança e a política econômica é a mesma há uns 15 anos. Assim, é grande a chance de que, no caso de uma abalo na economia mundial, possamos vir a ter um grande percentual de inadimplência - gente com a renda do mês comprometida com prestações (carros são vendidos em 99 meses), pega de surpresa com repiques inflacionários, ou demissão, por exemplo. Nesse caso, as circunstâncias que nos empurram podem virar uma armadilha.

Tudo bem, em economia, as projeções sempre manifestam desejos ou medos. Mas uma coisa não podemos negar. É muito estranho o Brasil ficar à frente da Finlândia, da Espanha, Holanda, Bélgica, e de tantos outros países famosos pela condição de vida. Estamos ganhando da Suécia, o país com a maior expectativa de vida do mundo!

Começo a temer uma invasão de pobres europeus em busca de “capacidade de compra” no Brasil, roubando nossos empregos e produtos.

Propaganda disfarçada

O Datafolha apresentou uma pesquisa feita em nove capitais. Vejam a manchete que o jornal O Povo deu:

Luizianne é a quarta prefeita mais popular do País

Se isso não for petismo disfarçado de jornalismo, não sei mais o que é. Somente uma cabecinha treinada nas artes daquilo o que eu chamo de “isenção engajada”, pode ser capaz de cunhar uma manchete tão distorcida: “Luizianne é a quarta prefeita mais popular do País”. Um exame lógico pueril e intuitivo já basta para denunciar a propaganda mal disfarçada, pois a base para o título foi uma pesquisa limitada a nove cidades, num universo de mais de cinco mil municípios ou 27 capitais. A tentativa de projetar um recorte pontual sobre um espaço irreal só pode ter nascido do desejo de criar uma notícia positiva.

A pesquisa revela outros dados, como a rejeição dos prefeitos das cidades pesquisadas. Luizianne é reprovada por 36% do eleitorado de Fortaleza, o segundo maior índice. Se as informações colhidas agora forem cruzadas com a pesquisa sobre as eleições do ano que vem, feita também pelo Datafolha, quando Moroni apareceu bem distante da prefeita (29 a 19%), aí a coisa complica para o projeto de reeleição de Luizianne.

Execução orçamentária no Ceará desmente aliados do Planalto

Site da Assembléia Legislativa do Ceará:
Lula Morais critica não aprovação da prorrogação da CPMF
O deputado Lula Morais (PCdoB) foi à tribuna da Assembléia Legislativa na manhã desta terça-feira (18/12) para criticar a não aprovação da prorrogação da CPMF. De acordo com o parlamentar, essa era uma contribuição importante e democrática que distribuiu renda no País. “Uma quantia de R$ 40 bilhões deixou de estar no Orçamento da União. A prorrogação era uma unanimidade entre os governadores. Eles solicitaram a seus senadores que votassem favoravelmente à CPMF”, disse ele. O deputado criticou ainda, especificamente, o voto do senador Tasso Jereissati (PSDB-CE) que, para ele, teve uma conseqüência negativa para o Ceará, “principalmente porque ele sempre se arvora de ter trazido recursos para o nosso Estado. Agora seu voto trouxe conseqüências negativas, porque retirou de nós R$ 500 milhões por ano”, condenou.
Leia mais.

Blog do Wanfil
Pois Jesus lhe dizia: Sai desse homem, espírito imundo. E perguntou-lhe: Qual é o teu nome? Respondeu-lhe ele: Legião é o meu nome, porque somos muitos. (Marcos 5:8-9)

Lula Morais é do PCdoB, partido da base de sustentação de seu xará Lula da Silva. Lula Morais não é um homem apenas, mas uma legião. A rigor, o deputado representa um projeto de poder liderado no Brasil pelo Partido dos Trabalhadores, baseado nas teses de um esquerdismo ultrapassado no resto do mundo, mas forte na América Latina. Seu discurso de hoje é apenas a retransmissão local de um sinal nacional: enquanto Lula fala aos mercados como um democrata moderado e sem ressentimentos, seus aliados em todo o país - nas casas legislativas, nos executivos estaduais e municipais, na imprensa e nas escolas - espalham que o fim da CPMF foi uma ação das oposições contra o povo.

Lula Morais afirmou ainda que recursos vultosos e imprescindíveis deixarão de ser aplicados no Ceará por conta do voto de Tasso Jereissati, numa tentativa de se livrar das cobranças que recaem sobre o Executivo a que serve. Embora careça de lógica e de fatos que o corroborem, o discurso que o comunista reproduz revela intenções políticas bem visíveis: 1) transformar a derrota do governo numa derrota das oposições; 2) justificar a falta de investimentos no estado, como se o fim da CPMF fosse retroativo a 2002; 3) transferir o ônus dessa falta de investimentos para o senador Tasso Jereissati, identificado pelo eleitorado como um gestor eficiente; 4) insinuar que não há legitimidade nas decisões que contrariam o governo no legislativo; 5) fortalecer a simbologia exsitente no discurso da luta de classes: eles, poderosos, contra nós, que somos perseguidos.

A estratégia vai funcionar? Bem, no caso do mensalão funcionou. Não é por acaso que o petismo é a maior força política que já existiu na história do país, controlando sindicatos, fundos de pensão, governos, partidos políticos etc. Se a oposição não souber denunciar o truque, se não buscar os meios de comunicação, a versão de que os males do país nasceram com o fim da CPMF pode colar em alguns setores.

Sobre as previsões de que investimentos deixarão de ser feitos por conta do dinheiro que faltará, publico abaixo trecho de um texto assinado pelo jornalista Fábio Campos, em 05 de setembro passado: “A manchete de capa da edição de anteontem do O POVO mostrou que, a quatro meses de acabar o ano, Lula investiu apenas 2% do Orçamento 2007 que cabe ao Ceará. Faltam 98%. Uma tapa em nossa cara. Os investimentos do Palácio do Planalto no Ceará são inversamente proporcionais à votação que o presidente Lula recebeu dos cearenses em 2002 e 2006.” - Leia mais.

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