O veneno e o antídoto
O cineasta e articulista Arnaldo Jabor afirma que trabalhar com a análise política é como trabalhar no Instituto Butantan: “Cedo ou tarde, você termina envenenado”. Como antídoto, ele recomendou o cinema. Eu recomendo ainda o estudo despretensioso da história da arte – é o que faço, quando posso. Não pretendo me tornar especialista ou crítico, apenas desejo sover um tipo de conhecimento que enaltece o que há de positivo nas individualidades: aquilo que vejo e apreendo, me transforma e a mais ninguém.
Ultimamente tenho passeado pelas obras do período Barroco (situado entre os séculos XVI e XVII). Eis um estilo que busca comover e ressaltar as emoções. Entre os mestres da arte barroca, uma das figuras mais instigantes é o italiano Michelangelo Merisi da Caravaggio (29 de Setembro de 1571 – 18 de Julho de 1610). De temperamento irascível e espírito irrequieto, Caravaggio produziu telas que espantam pelo realismo e pelas feições retratadas. Seus modelos eram as pessoas comuns das ruas. Por utilizar esse recurso estético, o pintor conquistou desafetos, e foi acusado de usar o corpo de uma prostituta fisgada morta do rio Tibre para pintar a Morte da Virgem.
Caravaggio pintou o quadro logo após ter recebido o perdão do Vaticano – o pintor metia-se em duelos com freqüencia, um pecado abominável. Na espada de Davi uma frase: “A humildade vence o orgulho”. A metáfora era o reconhecimento de que a autoridade moral pode e deve ser exercida com rigor e comiseração. Que a lei e o amor não podem ser confundidos com passividade. E por último, que a análise dos próprios atos é indispensável para as consciências.
