Adeus CPMF
Tem muita gente boa (outros nem tanto) que aponta a não prorrogação da CPMF pelo Senado Federal como uma prova de que os partidos e os políticos são todos oportunistas. Seriam todos inversa e proporcionalmente desonestos, afinal, quem era contra o imposto ontem, hoje é a favor e vice-versa. Essa é uma tese aparentemente “isenta”, mas que ao igualar condutas desiguais, apenas serve ao discurso de quem é useiro e vezeiro em trair o próprio passado.
Em cinco anos de governo Lula, pela PRIMEIRA VEZ a oposição mudou de posição em relação a uma matéria. Logo no primeiro mandato do petista, o PSDB e DEM votaram a favor a reforma da Previdência, mantendo a coerência com o passado. Pela PRIMEIRA VEZ o governo Lula amarga um problema criado pela oposição – até agora, todas as confusões em que se meteu foram geradas por correligionários e aliados. E mesmo agora, quando mudaram uma posição, tucanos e democratas apresentaram explicações bem fundamentadas. Além das conjunturas econômicas diferentes (no governo FHC havia uma crise mundial), a comparação entre o nível de arrecadação entre os dois períodos é gritante – o Brasil tem uma carga tributária que beira os 50% do PIB, e isso, só isso, já compensa o fim da CPMF.
Diferente são os governistas que mudaram de posição em TODAS as matérias relacionadas ao Erário e aos gastos públicos. Lula até tomou emprestada a expressão “metamorfose ambulante”, para explicar e evidenciar isso. Notem outra metamorfose interessante, muito reveladora: Antes eles diziam que eram melhores do que os outros, agora se contentam em alardear que não piores do que ninguém. O que mudou? Ora, as circunstãcias, mas a essência, essa sempre foi a mesma, nunca mudou.
O fato é que o governo tinha maioria para aprovar a CPMF. Faltaram-lhe quatro votos, mas seis senadores da base aliada votaram contra o imposto. No entanto, já tem jornalista escrevendo sobre o rombo imposto pela oposição, alegando que as motivações foram inveja ou ressentimento. É o pessoal que cobra dela a coerência que falta ao governo – e entenda-se por coerência o hábito da oposição em assumir, por mais de uma oportunidade, o ônus da governabilidade alheia. Também não vai faltar quem diga que agora todos os problemas do Brasil nasceram com a derrota do governo. É o mesmo pessoal que admira a democracia de Hugo Chávez. Para eles, oposição responsável é aquela que vota com o governo sempre. Coisas da América Latina.