Não basta a economia

No final do ano todos ficam mais sensíveis e otimistas, na esperança de que tudo melhore. Afinal, sempre há algo de bom para ser lembrado, que funcione como exemplo. Nesse época, as notícias tendem a buscar temas mais amenos e positivos. Mesmo assim, talvez pela tradição racionalista do Ocidente, o materialismo, representado pelas ciências econômicas, sobressai. Enquanto o crime e a impunidade crescem, e as mortes no trânsito e os escândalos de corrupção insistem em nos assombrar, é normal que especialistas de mercado apontem novos horizontes mais prósperos e revigorantes. As revistas semanais que chegam às bancas e os jornais desse domingo são exemplos disso. Em suma, 2008 será melhor porque haverá mais dinheiro. A questão é: isso basta?

Desde os anos 70 do século passado, quando a ditadura militar sufocava as liberdades políticas respaldada pelo milagre econômico, passando pela redemocratização até a nomeação de Fernando Henrique Cardoso como ministro da Fazenda do presidente Itamar Franco, quando a hiperinflação foi controlada por uma série de medidas que seriam as bases do Plano Real, a economia é o argumento final em qualquer debate político no Brasil. É o supremo critério de avaliação da realidade, deixando temas como a corrupção ou violência em segundo plano, como vimos nas últimas eleições presidenciais.

Diante das denúncias de negociatas, subornos, prevaricação etc, sempre aparece um número, uma estatística sobre a redução no preço do dólar, sobre a estabilidade da inflação, sobre o aumento das reservas cambiais e informações do gênero, para salvar a pele dos governantes. Tudo é perdoado, num eterno upgrade do “rouba mas faz”, transformado num “rouba mas divide”. Valores como amor, respeito, dignidade, coerência, honestidade, religião, Deus, trabalho, entre outros, não raro são qualificados de moralismo hipócrita, de sentimentalismo, de coisa de gente “caxias”, quando na verdade formam o substrato espiritual que deveria nortear toda ação humana. Assim, sempre que você ler ou ouvir questões econômicas como argumentos políticos, em substituição aos valores morais, lembre que essa é a ponta do iceberg. Ela não pode ser ignorada, ela é importante, mas não representa a totalidade do mundo.

Sobre o assunto, transcrevo um trecho de um ótimo artigo assinado por Olavo de Carvalho:
“Não se avalia o curso das coisas num país só pela economia, muito menos por um de seus aspectos isolados. (…) Já cheguei à conclusão de que neste país os economistas vivem num mundo paralelo, feito só de números, sem gente nem ação humana dentro, sem conspirações nem espionagem, sem grupos ativistas, sem revoluções nem guerras, sem movimentos de massa, sem mitos culturais, sem nada do que compõe a trama substantiva da História. (…)

A economia é apenas a condensação quantitativa e temporária de milhões de decisões humanas nascidas de fatores psicológicos, culturais, religiosos, militares e políticos. Nada é mais instável, mais sujeito a mudanças súbitas, do que a economia, enquanto os outros fatores se movem muito mais lentamente, com mais peso, sendo por isso mais determinantes. Prever o curso das coisas com base na economia é prever o movimento das camadas geológicas com base na direção do vento. (…) Previsões efetivas, realistas, nascem de um complexo raciocínio interdisciplinar, auxiliado por uma espécie de sexto sentido que se pode aprender, mas não ensinar.”

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