Ciranda da fantasia 2
Vejam o vídeo no post abaixo. É uma propaganda que apresenta o Bolsa Família como solução para o marasmo econômico brasileiro. O programa funcionaria como uma espécie de corrente do bem, o pontapé de um círculo virtuoso. Dê dinheiro aos pobres que passarão a consumir mais de empresas que precisarão produzir mais, gerando empregos para alimentar a ciranda do crescimento. Tudo perfeito.
Ao assistí-lo, o cidadão simples deverá se perguntar: “Como ninguém pensou isso antes?” E depois concluirá que somente um líder que veio do povo é capaz de resolver as questões mais complicadas com o seu toque de simplicidade. O jornalista americano H. L. Mencken costumava dizer que para todo problema complexo, existe uma solução simples e… ineficaz. Ora, ora. Nos primórdios do capitalismo a idéia foi posta em prática. O resultado foi inflação alta, juros estratosféricos, desvalorização cambial, desabastecimento, e no final, quebradeira generalizada.
A ciranda marqueteira do vídeo, é claro, busca falar ao povo. Portanto, esses detalhes técnicos e históricos não contam. O importante é mostrar que as coisas estão nos trilhos, que marchamos inexoravelmente rumo ao desenvolvimento. Pessoas comuns são apresentadas como integrantes anônimas de um movimento. Núbia sustenta os filhos com o Bolsa Família. Núbia faz compras na mercearia do Douglas. Com o crescimento do seu pequeno negócio, Douglas aumenta as vendas de atacadistas como Marcelo. Para dar conta da demanda, Marcelo faz mais encomendas para o agricultor Luiz. Querem saber onde a fantasia da propaganda se desfaz? No Luiz. Sendo agricultor, pobre e de baixa renda, ele também recebe o Bolsa Família. E aí, com a grana no bolso, plantar pra quê, não é?
De certa forma, a estrutura narrativa da propaganda me fez lembrar de um poema de Carlos Drummond de Andrade, principalmente pelo final. As coisas parecem ter um sentido, mas bem observadas, não significam nada.
QUADRILHA
João amava Teresa que amava Raimundo
que amava Maria que amava Joaquim que amava Lilique não amava ninguém.
João foi para o Estados Unidos, Teresa para o convento,
Raimundo morreu de desastre, Maria ficou para tia,
Joaquim suicidou-se e Lili casou com J. Pinto Fernandes
que não tinha entrado na história.
PS. Qualquer semelhança entre o título do poema e a realidade…
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