A polêmica sobre a pílula do dia seguinte não esclare o principal: quando começa a vida?
Estadão: Juiz indefere liminar e mantém distribuição de pílula no Recife
O juiz da 6ª Vara da Fazenda Pública de Recife, Ulisses Viana Filho, indeferiu na terça-feira, 29, a liminar impetrada na última segunda-feira, 28, pela Associação de Defesa dos Usuários de Seguros, Planos e Sistemas de Saúde (Aduseps), que pedia a suspensão da distribuição da pílula do dia seguinte - levonorgestrel 0,75 mg - entre os dias 2 e 5 de fevereiro, sob o argumento de que o medicamento é abortivo.
“É verdade que em nosso país o aborto é considerado crime doloso contra a vida, mas em nenhum momento a Aduseps comprovou que o medicamento tenha natureza abortiva”, afirmou o juiz. (…) “A documentação apresentada assevera que a droga a ser utilizada é cientificamente considerada contraceptiva e não abortiva”. Ele considerou “irrelevantes” as opiniões religiosas que condenam o uso de preservativos ou contraceptivos sem qualquer respaldo da comunidade científica. Leia mais.
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Calma lá! O materialista ateu sempre alega a ciência para justificar o seu ceticismo. No entanto, da mesma forma que a ciência não é capaz de provar a existência de Deus, também é incapaz de provar Sua inexistência. Nesse caso, o critério científico não passa de uma ato de fé. De forma análoga, a pílula do dia seguinte não é “cientificamente” considerada abortiva pelo mesmíssimo motivo pelo qual podemos considerá-la abortiva: não existe consenso na ciência sobre o momento exato em que a vida começa. Alguns acreditam que seu início começa com a concepção, outros advogam que, nas primeiras semanas, o óvulo fecundado não passa de um apêndice do corpo da gestante. Se não existe consenso sobre quando começa a vida, escrúpulo por demais importante para que tudo o que se decida a respeito não seja baseado em premissas incontestes, então é forçoso concluir que eliminar um óvulo fecundado poucas horas atrás, pode ser um aborto. Somente a dúvida, por menor que seja, sobre a possibilidade de que um crime possa cometido com a ingestão desse coquetel hormonal, bastaria ao juiz para determinar a suspensão da pílula do dia seguinte.
Um pouco de lógica também não faria mal ao magistrado. Contraceptivo, o nome já diz, é um método para evitar a concepção. Por isso os anticoncepcionais devem ser ministrados ANTES das relações sexuais e não depois. A pílula do dia seguinte serve, isso é óbvio, para não permitir a evolução da vida que pode ter sido fecundada. Se isso não for um aborto…
No mais, a idéia de que a ciência possui superioridade sobre a religião ou a filosofia para determinar o que é falso ou verdadeiro é um preconceito engendrado no período do Iluminismo. No fundo, trata-se de uma inversão de papéis: a moderna fé na ciência veio substituir a antiga fé religiosa. Mas tanto uma como a outra podem produzir fanatismo e ilusões. Ter a ciência como critério absoluto, abstendo-se de considerar a moral, a cultura e a metafísica, revela uma limitação cognitiva típica das sociedades formadas no capitalismo industrial.


