Réveillon de Fortaleza: A festa foi para todos, mas a conta é dos contribuintes

Os dados são do jornalista Roberto Maciel, do Diário do Nordeste, em seu blog:

“Saíram por nada módicos R$ 1.182.805,53 os cachês e custos de alimentação, transporte e outros itens que você, contribuinte do erário de Fortaleza, pagou com seus impostos aos artistas que se apresentaram nas festas de réveillon da prefeita Luizianne Lins (PT). É uma grana bem razoável, que daria para sanar uma porção de problemas do Instituto Doutor José Frota. Ou construir umas escolas bem legais. Ou erguer 170 casas populares. Ou pavimentar bons quilômetros de ruas. Ou recuperar terminais de ônibus. Ou, vá lá, já que as prioridades na cidade são outras, comprar quatro belos Vectras blindados para a prefeita e seus visitantes usarem. Enfim, deixo para o leitor a possibilidade de ampliar essa lista.

A dinheirama ficou assim distribuída:
Paralamas do Sucesso (Praia de Iracema): R$ 394.086,86
Alcione (Praia de Iracema): R$ 320.373,98
Bateria da Estação Primeira de Mangueira (Praia de Iracema): R$ 166.420,28
Falcão (Praia de Iracema): R$ 87.458,40
Dorgival Dantas (Conjunto Ceará): R$ 52.000,00
Waldonis (Barra do Ceará): R$ 37.193,98
Paulo José (Messejana): R$ 30.935,00
Chico Pessoa (Messejana): R$ 27.247,00
Danilo Azim e Banda Fogo do Desejo (Conjunto Ceará): R$ 22.271,60
Dona Zefa (Barra do Ceará): R$ 22.266,60
Ítalo & Renno (Messejana): R$ 18.036,76
Tarcísio Sardinha (Praia de Iracema): R$ 4.515,00″

Como transformar um escândalo numa causa

“Esta festa popular é uma vitória do povo de Fortaleza… Lutamos por ela, todos os dias, contra os poderosos. Na luta contra aqueles que não querem que esta cidade cresça, vamos fazer a maior festa que esta cidade já viu”. Luizianne Lins, prefeita de Fortaleza, no réveillon da Praia de Iracema (Foto tirada por Edimar Soares, publicada no O Povo).

Blog do Wanfil
A prefeita Luizianne dançou e pulou no palco durante as comorações na passagem de ano. A cena me fez lembrar de outro político, o falecido ex-presidente russo Boris Ieltsin (foto ao lado), que também dançava em shows e comícios. Mas ele era alcoólatra…

Teoria da conspiração
Voltando ao Ceará, não fica claro quem são os malvados poderosos que tentam impedir o crescimento da cidade. Por dedução, podemos inferir que as autoridades responsáveis pela fiscalização dos gastos feitos por gestores públicos, como o Ministério Público Federal e o Tribunal de Contas do Estado. Na verdade, trata-se de uma retórica batida que apela à simbologia rasteira da luta de classes: o humilde representante do povo contra os poderosos egoístas e inescrupulosos da elite. É a teoria da conspiração com sinal invertido, afinal, a prefeita e seu partido são personagens para lá de poderosos. Para ter efeito político e para evitar responsabilidades penais, a desculpa deve ser generalista, difusa e imprecisa, sempre “nós” contra “eles”. O intuito final é transfomar um escândalo numa causa. E o pior é que isso não será difícil, a depender da qualidade dos opositores da atual gestão.

A fala de Luizianne, espontânea, em tom de desabafo, deixa escapar uma característica que lhe tem sido bem peculiar: a aversão a controles externos, que é uma manifestação autoritária. Querer saber como vai ser utilizado o dinheiro dos contribuintes é ser contra o povo? Ora, tenha paciência. O gastos do réveillon de 2006/2007 ainda não foram justificados, fato que ensejou o cuidado na fiscalização da festa seguinte. Qual o problema?

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