Releitura da história
Diário do Nordeste: Peça do Museu do Ceará é furtada – Óculos que pertenceu a frei Tito de Alencar desapareceu em plena luz do dia. Guarda Patrimonial iniciou perícia – “Não sabemos o motivo do furto. A peça não tem valor comercial nenhum, apenas histórico. É uma armação de metal bem simples”, conta Régis [Régis Lopes - diretor do Museu do Ceará]. Leia mais.
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Tito de Alencar Lima, o Frei Tito, foi um dominicano que, ao lado de um grupo de frades nos anos 60 resolveu apoiar a luta armada contra a ditadura militar, com o intuito de substituí-la por uma outra: a ditadura comunista. Tito vivia o desafio de tentar administrar um dilema: conciliar teologia cristã com ideologia materialista. O frade ansiava ser instrumento da violência e do amor simultâneamente. Ao contrário de outros religiosos, como Dom Evaristo Arns e Dom Eugênio Sales, que combateram a ditadura de forma pacífica, o dominicano optou pelo conflito militar para eliminar seus adversários. É claro que ao enveredar pelo caminho das armas contra um inimigo mais poderoso, os riscos inerentes a essa decisão eram óbvios. Qual a intenção do religioso que pega em armas? É converter os espíritos pela mansidão? Não. Tito entrou numa guerra, foi capturado pelo inimigo e torturado barbaramente.
É claro que ter sofrido violência não faz de um revolucionário totalitarista um santo, a menos que você esteja no Brasil. O frade vivenciou uma tragédia pessoal, é certo, mas é inegável que ele estava sujeito a sofrer da mesma força que desejava empregar contra os outros. A historiografia brasileira, no entanto, hegemonicamente marxista, interpreta os fatos de forma a ajustá-los a uma propaganda ideológica. Assim o frade virou um ícone dos direitos humanos. Os óculos dele podem não possuir valor material, mas para certos grupos ele possui valor sentimental, até pedagógico. Em certa medida, a história de frei Tito embala o sonho de muita gente: optar pela violência e uma vez vítima dela, virar símbolo da paz. Nenhuma inversão de valores pode ser mais revolucionária.
O fato dele ter optado pela luta armada, é claro, não justifica moralmente a tortura, nem faz do delegado Fleury (seu algoz), um herói. Mas é preciso ter cuidado com o maniqueísmo. Tito, seus companheiros e seus comandantes também estavam dispostos a matar. Como um comunista inspirado pela experiência chinesa e soviética pode se dizer contra a tortura? Ao lado do nazismo, mas com mais vítimas, esses regimes foram os que mais torturaram. Na China, as atrocidades praticadas no Laogai fazem de Guantanamo um paraíso. Pesquisem na internet sobre o caso “Menina Miranda” e vejam como Luís Carlos Prestes ordenava o assassinato de civis inocentes. Não obstante isso, o sujeito representa o ideal de igualdade e fraternidade.
Tito e Prestes são objetos de propaganda ideológica. Suas histórias são contadas nas escolas com a supressão de passagens desabonadoras. O dominicano é mostrado frequentemente como membro do movimento estudantil, não como guerrilheiro. A tática da doutrinação é essa: confundir a luta armada com a sociedade civil organizada.