Toda unanimidade….

Segundo o dramaturgo Nelson Rodrigues, toda unanimidade é burra. Não sejamos radicais. Basta desconfiar das unanimidades, uma vez elas atraem o adesismo preguiçoso e a acomodação da inteligência. Toda unanimidade é perigosa.

No texto A violência juvenil e os culpados de sempre, postado ontem, falei sobre a aptidão de especialistas para produzir diagnósticos e prognósticos sobre um problema, não obstante a crônica incapacidade de resolvê-los. Suas teses, repetidas à exaustão, terminam por se transformar em credos públicos, em verdades absolutas. No entanto, apesar da concordância geral, os resultados e as soluções, nunca aparecem. O falecido economista Roberto Campos costumava dizer que o brasileiro tem a incrível capacidade de admirar o que não dá certo. Pois bem, no jornal O Povo de hoje, nada menos do que quatro artigos, assinados por especialistas de diferentes áreas, buscam compreender a criminalidade entre jovens.

Todos são unânimes em afirmar que a redução da maioridade penal e o endurecimento das leis não são a solução para diminuir a violência praticada por jovens, pois existe uma gama de fatores que praticamente obrigam esses indivíduos a se desviarem do bom caminho. Pelo visto, um sociopata de 17 anos que estupra e mata, não passa de uma criança ressentida com a sociedade de consumo, vítima de um sistema perverso. É preciso recuperá-lo com amor e carinho. Creio que a maioria dos bandidos profissionais comungam da mesma opinião, fato que ajuda a qualificá-la. O negócio de deixar tudo como está… Ora, tenham paciência!

As condições de pobreza e os conflitos familiares estão presentes em todas as sociedades em maior ou menor grau. Todos somos influenciados por eventos das mais diferentes naturezas, no entanto, a maior parte prefere trabalhar do que ceder aos “encantos” e “facilidades” do crime. Conheço gente que pasou fome, que ficou desempregada, que sofreu o diabo e que nunca cogitou enveredar pela seara do roubo. São exceções? Não, claro que não. Mas esses, que lutam para sobreviver ganhando pouco e trabalhando muito, não têm ONGs para defendê-los. De ouro lado, assistimos assistimos nos jornais jovens de classe média envolvidos com o tráfico de drogas, mas cujos irmãos, que tiveram a mesma criação, são pessoas de bem, perfeitamente ajustados. No fundo, sempre é o sujeito que faz uma escolha. Como é certo que somos todos diferentes, essas causas podem constituir agravantes ou atenuantes.

A criminalidade entre jovens cresce e se dissemina como uma praga (leiam o texto acima citado). Uma boa medida para estancar essa tendência é endurecer a lei e reduzir a maioridade penal, até para desestimular criminosos que se utilizam de adolescentes para efetivar ações delituosas, confiando na impunidade reservada a esses garotos. Mas quem defende medidas de enfrentamento, e portanto foge à unanimidade, termina barrado no clube dos progressistas bacanas. A maioria não suporta imaginar esse destino. Os bandidos agradecem.

Para ler os artigos do jornal, clique aqui.

Repasses federais sob suspeita no Ceará

Matéria de capa do jornal O Povo: Investigado desvio de R$ 44 milhões no Ceará – Relatório da Controladoria Geral da União (CGU) enviado ao Tribunal de Contas da União (TCU) detectou que R$ 44.741.600,77 transferidos do Governo Federal foram mal geridos no Ceará, de acordo com levantamento feito pelo O POVO. (…) No Estado, há questionamentos em repasses para 52 prefeituras municipais. (…) No Ceará, a cidade sob maior suspeita é Fortaleza, mas o controlador-geral do Município, Geraldo Acioly, disse ao O POVO desconhecer o assunto e garantiu que as contas da atual prefeitura perante o governo federal estão “rigorosamente” regulares. Leia mais.

Blog do Wanfil
A reportagem diz que a CGU fala em dinheiro “mal gerido”, sem especificar formas (prevaricação, incompetência, roubo etc.). No entanto, a manchete crava que houve “desvio”, ação que configuraria corrupção. Dessa forma, sem uma apuração mais criteriosa da denúncia, é natural que sombras de suspeitas recaiam sobre as prefeituras investigadas, sobretudo a de Forteleza, que é a maior delas.

O controlador-geral da capital garante que a atual gestão não tem problemas. A intenção é insinuar que os problemas que existem dizem respeito apenas e tão somente ao governo de Juraci Magalhães. Hummm… Claro que o ônus da prova cabe ao acusador, mas no universo da política, nunca é bom deixar que dúvidas sobre a competência ou a honestidade de uma administração prosperem, principalmente em ano eleitoral. Assim, seria oportuno que a Prefeitura de Fortaleza, até mesmo pelo peso político que possui, se antecipasse junto a CGU para divulgar quais repasses foram irregulares, quando e por quem foram feitos. O problema é que isso pode incomodar muita gente.

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