Antilulista de esquerda

No post Universidades públicas: “O velho que não quer passar e o novo que não quer chegar”, falei sobre a “tradição” das greves nas universidades públicas, em contraposição a realidade das instituições particulares. Pois bem. O Povo de hoje publicou um artigo do professor do Departamento de Ciências Sociais da UFC e diretor da ADUFC, Uribam Xavier, intitulado “CPMF e docentes da UFC“. Trechos dele seguem em vermelho, entremeados por comentários meus, em azul:

A rejeição da Contribuição Provisória sobre Movimentação Financeira (CPMF) e a pressão para definir o que será cortado nos gastos do governo são duas ações que fazem parte do mesmo processo: a disputa pelo o destino dos recursos públicos arrecadados pelo Estado. Enquanto os empresários, representados pelo PSDB e DEM, patrocinaram o fim da CPMF, os setores financeiros apertam o governo para que ele corte gastos com as políticas públicas, penalizando servidores e a população pobre, mas mantendo a política de superávit primário e o patrocínio de lucros exorbitantes para os banqueiros.
A mistura de reducionismo com chavões de sindicato atenta contra a lógica. Se o fim da CPMF é o sinal de que PSDB e DEM representam os empresários (notem o preconceito contra o empreendedorismo), é forçoso concluir, que ao criar o imposto, esses mesmíssimos partidos eram contra os empresários. É dose! Ademais, não me lembro de servidores gritando, emocianados em assembléias festivas: “Obrigado pela CPMF, FHC!” Pelo contrário. A rigor, partidos políticos representam a si mesmos, a seus projetos de poder. No máximo, configuram uma amostra que expressa justamente a rede de interesses que movem uma sociedade. De resto, o parágrafo inicial reproduz o maniqueísmo pueril da surrada teoria da luta de classes: os pobrezinhos bons contra os ricões malvados. Reduzir realidades complexas a esquematismos fáceis é o esporte preferido de muito intelectual.

Aliado com os setores financeiros e do agronegócio, o governo Lula fragiliza a esperança dos que lutam pela efetivação de uma vida digna e sustentável, que tenha, como um de seus pilares, as políticas públicas universais promovidas pelo Estado. Nesse conflito, cabe uma pergunta: quem de fato se beneficia dos recursos do orçamento brasileiro?
A associação de um governo de esquerda com banqueiros e fazendeiros não é inusitada. Até Lênin fez isso. Mas é óbvio que essas atividades possuem uma simbologia útil. A idéia aqui é vincular o governo Lula ao comando do sistema capitalista e aproximá-lo do pensamento dito conservador. O truque é velho mas eficiente. Trata-se de atribuir os crimes cometidos pela esquerda a um alinhamento com forças da direita, que a desviaria de seus ideários angelicais. Isso é tão comum quanto a utilização de jornais privados, que pertecem a odiada classe dos empresários, para alardear que a mídia é golpista. Como disse Olavo de Carvalho em recente artigo publicado no Diário do Comércio, “o hábito de salvar o prestígio do esquerdismo no ato mesmo de denunciar os seus crimes já está tão arraigado nas rotinas mentais da classe falante, que aparece até mesmo nos lugares que se julgariam, à primeira vista, os mais inusitados.”
Quanto a pergunta do professor, a resposta é simples. Quem se beneficia dos recursos orçamentários são os fundos de pensão das estatais, são as ONG´s amigas, são os corruptos, são as entidades aparelhadas, são os correlioginários do poder, são os que fazem populismo com políticas assistencialistas. Os empresários, vejam só, esses pagam impostos, sustentam a farra de quem nada produz e arcam com uma das cargas tributárias mais pesadas do mundo.

É a formação de uma coalizão conservadora e patrimonialista montada pelo PT que leva o ministro do planejamento, Paulo Bernando, e o relator do orçamento, deputado José Pimentel, a anunciarem de público que os acordos salariais assumidos pelo governo ao longo do ano de 2007, para corrigir defasagem salarial, ocorrida entre 2004 a 2007, não serão cumpridas em 2008. É nesse contexto, de conflito distributivo, que os docentes da UFC, após um ano de negociação com o governo e após acatarem um reajuste que foi proposto pelo próprio governo, a ser implantado a partir de março de 2008, devem sinalizar em assembléia geral, seguindo o conjunto de servidores públicos de outras categorias, com uma greve, caso o governo não honre o compromisso assumindo.
O jornalista e escritor Otto Lara Rezende dizia que patrão de esquerda só era bom até o dia do pagamento. O PT passou a vida dizendo que não faltava dinheiro aos governos dos seus adversários (e olha que eles arrecadavam menos). Faltava-lhes era vontade política. E por isso cobrava aumentos de 100, 200, 300% para os professores universitários. E esses acreditavam na conversa e faziam campanha para eleger os companheiros socialistas. E agora? Não só nao recebem esses aumentos, como ainda são enganados. Mesmo assim, a culpa de tudo, das promessas não cumpridas, das mentiras, do descaso, é do conservadorismo, nunca do esquerdismo. Querem saber? Bem feito!

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