Atrás do trio elétrico, só vai quem quer
Máscara 4 (Série Carnaval) – Acrílico e colagem sobre tela, de Antero Valério, 1998.
É carnaval. O noticário se repete, não há saída. Mortes no trânsito, escolas de samba, ziriguidum, pessoas fantasiadas, maltrapilhas, exibição de corpos seminus, multidões em praças… Tudo igual a festa que passou e a do ano que vem.
O carnaval não está entre os assuntos que mais me interessam. Nada contra, afinal, as comemorações festivas são manifestações culturais que existem em todas as sociedades. No entano, não deixa de ser intrigante observar a volúpia com a qual muitos se divertem durante o carnaval, alheios a questões como elegância, saúde e pudor. Como se durante esses dias, tudo que possa ter algum potencial repressivo às formas de comportamento, deixasse de existir. É o “liberou geral”, o “vale tudo”. Não obstante essa constatação, são os limites sobre a ação humana que definem a própria civilidade, mas no carnaval, isso é relativo.
Alguns, como Nietzsche, viam isso como uma espécie de libertação. Outros, como uma expressão de decadência moral. O fato é que, independente de qualquer juízo de valor sobre as motivações que fazem a exarcebação dos foliões, esse “liberou geral”, com o tempo, virou tradição, e depois, com a massificação dos meios de comunicação, uma obrigação. Característica bem ilustrada por Caetano Veloso: “Atrás do trio elétrico só não vai quem já morreu”. Nesse ponto, quando a espontaneidade cede lugar a imposição, quando o impulso natural passa a ser comandado pelo espírito de manada, o carnaval, para mim, perde a graça. Como fico, então? O jeito é se adaptar. Ontem levei minha filha de quatro anos para um baile infantil. Vê-la brincar fantasiada de bailarina foi emocionante. Com a cidade esvaziada, pude observar melhor as cores e os sons das ruas. Com tempo livre, fui à praia com amigos e assisti a bons filmes. Esse foi um dos melhores carnavais que tive. E eu não vi o trio elétrico.