Sem fé ou religião, não existe civilização
O Diário do Nordeste publicou uma entrevista com a senhora Maria José Rosado, socióloga e coordenadora da ONG Católicas pelo Direito de Decidir. É uma ótima oportunidade para constatarmos as formas como o discurso esquerdista se insinua nos mais variados assuntos e instituições, para conquistar a hegemonia cultural de que fala Antonio Gramsci, e que ultrapassa a militância partidária. No presente caso, não se trata de combater o “reacionarismo” da Igreja, mas como diz Olavo de Carvalho “apossar-se de suas estruturas, esvaziá-las de seu conteúdo espiritual e utilizá-las como instrumento para transmitir a mensagem anticristã”. Ou seja, transformá-la em máquina de propaganda ideológica. Enquanto as forças mais à direita se contentam em discutir economia, a esquerda avança no território influente das mentalidades. Por isso no Brasil de hoje o debate é assimétrico. Por isso ser de esquerda, no Brasil, é lindo e sublime, e ser de direita é pecado. Trata-se, claro, de uma distorção obscurantista e bem disseminada, principalmente entre os jovens. Reproduzo algumas passagens em vermelho, intercaladas com comentários em azul. Para ler a íntegra da entrevista, clique aqui.
O tema da Campanha da Fraternidade 2008, ´Fraternidade e Defesa da Vida´, passa diretamente pelo direito das mulheres sobre sua capacidade reprodutiva. Quais as principais críticas de Católicas em relação à iniciativa?
O conceito de vida muito estreito com o qual a Igreja Católica trabalha. Um autor francês, Paul Ladrière, diz que a Igreja Católica, quando trabalha com este conceito, é extremamente materialista, na medida em que o único elemento que considera para a existência da vida humana é o biológico, ou seja, a união do espermatozóide e o óvulo.
Acima, temos dois problemas. Ao contrário do que o repórter insinua, a Campanha da Fraternidade não debate “direito das mulheres sobre sua capacidade reprodutiva”. Isso é algo que ninguém contesta, pois esse direito lhes é assegurado por Deus e pela Constituição. A rigor, ninguém é obrigado a ter filhos, não é? O debate é sobre o direito à vida, se podemos ou não interrompê-la por conveniência, para fazer controle de natalidade. Depois, a entrevistada acusa a Igreja por ser materialista. Se a Igreja realmente acreditasse que a vida é objeto exclusivo do estudo biológico, por que ela se meteria no assunto? Na verdade, a Igreja trabalha a questão sob vários aspectos, inclusive o científico. Para o cristianismo, a vida transcende o corpo.
Existe algum ponto positivo na Campanha?
É difícil para a Igreja Católica desvencilhar-se da idéia de que ela é a instituição ética por excelência, e conviver com a realidade de uma sociedade plural, democrática, em que todos os pensamentos estão abertos à discussão.
Qual religião não se considera uma instituição ética por excelência? Eu não sou católico. Não acredito em um único sacramento nem na Santíssima Trindade. Nem na ressureição. E essa liberdade de crença é o que define o caráter democrático da sociedade. Autoritário seria se eu quisesse impor minhas idéias, ou as do meu grupo, na instituição Igreja. Se um católico defender o culto ao diabo, alegando ser esse um direito assistido pela democracia, e ainda por cima exigir que o clero incorpore oficialmente essa novidade, ele será devidamente excomungado. Não poderá participar daquele grupo. A Igreja não é um governo ou um ente estatal, é uma instituição privada. Participa quem quiser. Se a senhora Maria do Rosado quer defender o aborto, assunto ligado ao preceito da inviolabilidade da vida, o melhor que ela pode fazer é deixar de ser católica e se declarar, sei lá, marxista esotérica.
Se pudesse interferir na escolha dos temas da Campanha quais sugeriria?
Não tenho nenhuma dúvida: justiça social. Isso significa justiça de classe, para essa imensa maioria de pobres que este sistema gera; para com as mulheres, para a população negra. Justiça para com aquelas pessoas que expressam sua sexualidade livremente.
Eis a senha do aparelhamento político de uma doutrina religiosa. Justiça de classe? Onde Jesus falou em classe social? Cristo incitou seus seguidores a invadir terras? Isso é Teologia da Libertação, ou marxismo. Isso sim é materialismo. A alma não possui classe social ou cor. Um rico está proibido de entrar no Reino do Céu? Não. E um pobre tem salvo conduto para o Paraíso? Também não. Tudo depende das ações de cada um. A justiça é feita de acordo com a postura íntima dos indivíduos. Quem é salva ou condenada é a alma. E a sexualidade? O papel da Igreja é orientar os seus fiéis. Segundo ela, Deus criou homens e mulheres com um propósito claro: perpetuar a espécie. As relações homosexuais seriam pecado, apenas uma expressão infrutífera de sensualidade. Se eu fosse gay, não mendigaria a atenção da Igreja e por isso não seria católico. Fundaria talvez a Igreja Rosa Purpurina, mas não seria católico. Se dona Maria quer fazer política ou decretar a justiça na terra, que se filie a um partido político e deixe a Igreja tratar dos problemas do espírito.
O julgamento sobre as pesquisas com células-tronco que deveria ter ocorrido na semana passada foi adiado, mas tanto a CNBB quanto os cientistas dizem pretender evitar o debate religioso. Isso será possível?
Bem, em princípio, o debate religioso deveria restringir-se aos espaços religiosos. As instâncias do Estado não são lugares adequados para a discussão religiosa.
E agora? Para ser coerente, dona Maria precisa aceitar que, por inversão, o debate social ou sobre questões materiais, deve restringir-se às instâncias do Estado. Por exemplo: Quem pode opinar sobre a legalidade de uma invasão de terras promovida pelo MST? O Estado. Por essa ótica, os padres de passeata extrapolam o seu papel ao defenderem a “justiça de classe”. Mas nessa hora, os defensores da separação entre Estado e religião afirmam que a Igreja tem um papel social. É um princípio que varia de acordo com as circunstâncias, realidade que basta para qualificá-lo.
O problema desse discurso é outro, de natureza mais filosófica. Quando um assunto deixa de ser material ou social para se tornar religioso e metafísico? Não existe linha divisória. O intuito da entrevista aqui é desmerecer e intimidar o Estado, mais precisamente o Judiciário, cobrando-o uma isenção que, no fundo, é impossível. Explico. A CNBB erra ao dizer que deseja evitar o debate religioso, como se isso fosse algo pernicioso. É importante lembrar que a religião e a fé não são güetos, nem moda. Toda civilização tem por base uma religião, e, com efeito, nunca houve uma sociedade laica. Por que matar uma pessoa é crime? Que lei científica determina isso? Nenhuma. O direito absorveu e deu encaminhamento a crenças de cunho religioso, retirando-lhes os aspectos litúrgicos, notadamente, a crença de que somos todos irmãos e, portanto, iguais. A fé, desde que não seja produto do fanatismo, pode e deve permear os debates públicos.